Arqueólogos abrem em Saqqara tumba de 4,7 mil anos de alto funcionário do Reino Antigo
Sekhentyu-Ptah foi camareiro real, supervisor das obras do rei e sacerdote de Maat; diante da porta simbólica havia mesa de oferendas, disco e bacia de purificação. Necrópole fica a 40 km do Cairo.
Arqueólogos abrem em Saqqara tumba de 4,7 mil anos de alto funcionário do Reino Antigo, com três sarcófagos ainda selados, mais de 100 estatuetas e uma "porta falsa" que ligava vivos e mortos
Arqueólogos que escavam a necrópole de Saqqara, no Egito, descobriram uma tumba do Reino Antigo — período de aproximadamente 4,7 mil a 4,2 mil anos atrás — pertencente a um alto funcionário chamado Sekhentyu-Ptah. Segundo os hieróglifos encontrados no local, ele acumulou os cargos de camareiro real, supervisor das obras do rei, supervisor dos documentos reais, sacerdote da deusa Maat e supervisor dos escribas. No interior, a equipe localizou mais de 100 estatuetas, três sarcófagos de pedra ainda selados, uma figura de falcão em madeira, cerâmicas e outros artefatos — e, diante de uma "porta falsa", os objetos de oferenda que revelam a função espiritual da estrutura. Saqqara fica a cerca de 40 quilômetros a sudoeste do Cairo e é Patrimônio Mundial da Unesco. As informações são do Olhar Digital.
A tumba foi saqueada em algum momento ao longo dos milênios, mas preservou elementos raros — sobretudo os sarcófagos lacrados em condições originais, que ainda serão abertos e estudados.
Quem foi Sekhentyu-Ptah
A lista de funções inscrita na tumba desenha um homem do centro do poder. Camareiro real significava acesso direto ao faraó e à administração do palácio; supervisor das obras do rei, responsabilidade sobre as construções reais — templos, pirâmides, monumentos — em uma época em que o Estado egípcio era, essencialmente, uma máquina de construir; supervisor dos documentos reais e dos escribas, controle sobre os registros e a burocracia que sustentavam o reino. O sacerdócio de Maat — deusa da verdade, da justiça e da ordem cósmica — indica ligação com a esfera judicial e ritual.
Não era um faraó nem um príncipe, mas um administrador de alto escalão, o tipo de figura que fazia o Reino Antigo funcionar e que, em troca, tinha direito a uma tumba decorada e provida para a eternidade.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, é esse perfil que torna a descoberta valiosa. "Tumba de faraó conta a história do poder; tumba de funcionário conta a história do Estado. Sekhentyu-Ptah supervisionava obras, documentos e escribas — era o que hoje chamaríamos de ministro. Saber como ele foi enterrado, o que levou, como se descreveu, diz mais sobre a administração egípcia de 4,7 mil anos atrás do que muita pirâmide. E três sarcófagos fechados são três chances de encontrar o que os ladrões não levaram", avalia.
A porta falsa: passagem entre dois mundos
O elemento mais interessante da descoberta, segundo os arqueólogos, está diante da porta falsa da tumba: uma mesa de oferendas, um disco de oferendas e uma bacia de purificação. Apesar do nome, a porta falsa não tinha como objetivo enganar ladrões. Esculpida na parede, sem abertura real, ela desempenhava função simbólica e espiritual — era considerada uma passagem entre o mundo dos vivos e o dos mortos, pela qual o espírito do falecido podia sair para receber as oferendas deixadas pelos vivos e retornar.
A mesa, o disco e a bacia compõem o aparato ritual: os familiares e sacerdotes depositavam alimentos, bebidas e incenso diante da porta, e a bacia servia à purificação de quem oficiava. Encontrar o conjunto no lugar, apesar do saque, permite reconstruir o culto funerário tal como era praticado — não apenas na teoria dos textos, mas na disposição concreta dos objetos.
Estatuetas, falcão, sarcófagos
As mais de 100 estatuetas encontradas teriam a função de servir ao falecido na vida após a morte — figuras de servos, trabalhadores e ofertantes que, na crença egípcia, executariam por ele as tarefas do além. A figura de falcão em madeira remete a Hórus, divindade associada à realeza e à proteção. Os três sarcófagos de pedra selados, em condições originais, são o achado de maior potencial: podem conter múmias, objetos pessoais e inscrições intactas, preservados do saque que atingiu o restante da tumba.
Maat: a deusa que o funcionário servia
O título de sacerdote de Maat, entre os cargos de Sekhentyu-Ptah, merece explicação. Maat era, para os egípcios, ao mesmo tempo uma deusa e um princípio: a ordem cósmica, a verdade, a justiça e o equilíbrio que o faraó tinha o dever de manter e que cada pessoa seria julgada por ter respeitado — no tribunal do além, o coração do morto era pesado contra a pena de Maat. Sacerdotes da deusa estavam ligados à administração da justiça e à legitimação das decisões do Estado. Que um supervisor de obras e de documentos reais fosse também sacerdote de Maat mostra como, no Reino Antigo, o poder administrativo e o religioso eram exercidos pelas mesmas mãos.
Saqueada — e ainda assim preservada
A tumba foi violada em algum momento dos últimos milênios, como a maioria das sepulturas egípcias — o saque de tumbas era atividade organizada já na Antiguidade, com ladrões que conheciam a arquitetura e sabiam onde estavam os objetos de valor. Que mais de 100 estatuetas, três sarcófagos selados e o conjunto de oferendas diante da porta falsa tenham sobrevivido indica que os saqueadores buscavam ouro e joias e deixaram para trás o que, para eles, não tinha valor — e que, para a arqueologia, é o mais precioso: o contexto ritual intacto.
Saqqara: a necrópole que abrange toda a história egípcia
Saqqara é a necrópole de Mênfis, antiga capital do Egito, e abriga a pirâmide escalonada de Djoser — a mais antiga construção monumental em pedra do mundo, do início do Reino Antigo. Diferentemente de Gizé, dominada pelas grandes pirâmides da Quarta Dinastia, Saqqara foi usada por mais de três mil anos. "Gizé é arquitetonicamente e historicamente restrita: é fundamentalmente um campo de pirâmides da Quarta Dinastia. Saqqara, por sua vez, abriga pirâmides, templos, tumbas privadas, uma necrópole subterrânea de animais e um mosteiro, abrangendo praticamente toda a história do Egito antigo", afirmou o egiptólogo Magdy Shaker.
É essa diversidade que faz de Saqqara o sítio mais produtivo da egiptologia recente: a cada temporada de escavação, novas tumbas, sarcófagos e conjuntos de estatuetas vêm à luz — muitos deles de funcionários e sacerdotes, como Sekhentyu-Ptah, que não aparecem nos livros de história mas povoaram a administração do reino.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o ritmo de descobertas tem explicação. "O Egito investiu pesado em arqueologia na última década — equipes próprias, tecnologia, escavação sistemática em Saqqara. O retorno é turismo e prestígio, mas é também conhecimento: cada tumba de funcionário preenche um pedaço da história do Reino Antigo que os faraós não contam. E o país passou a anunciar cada achado ao mundo, o que era raro antes. Saqqara virou o lugar em que a história do Egito ainda está sendo escrita, 4,7 mil anos depois", observa.
O Reino Antigo: a era das pirâmides
O período a que a tumba pertence — entre 4,7 mil e 4,2 mil anos atrás, da Terceira à Sexta Dinastia — é conhecido como a Era das Pirâmides. Foi quando o Estado egípcio atingiu centralização e capacidade de organização suficientes para erguer Gizé e Saqqara, sustentado por uma burocracia de escribas, supervisores e sacerdotes. Homens como Sekhentyu-Ptah eram essa burocracia. Suas tumbas, decoradas com listas de cargos e cenas do cotidiano, são a principal fonte para entender como o reino funcionava por dentro — quem mandava em quem, como os recursos eram controlados, como a religião e a administração se entrelaçavam.
O que vem: abrir os sarcófagos
Os próximos passos da equipe incluem a documentação completa das inscrições, a análise das estatuetas e a abertura controlada dos três sarcófagos — trabalho que pode levar meses e que costuma ser acompanhado por exames de imagem antes da abertura física, para preservar o conteúdo. Se houver múmias, análises de DNA e de restos podem revelar parentesco, dieta, doenças e causa de morte, compondo o retrato de uma família da elite administrativa de há quase cinco milênios.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a porta falsa é o detalhe que humaniza o achado. "Um homem poderoso mandou esculpir uma porta que não abre, para que sua alma pudesse sair e comer o que a família deixasse. Quatro mil e setecentos anos depois, a mesa ainda está lá. Não é só arqueologia — é a evidência material de que gente como nós, com cargos e ambições, acreditava que continuaria existindo e precisaria de pão. É difícil olhar para isso e não pensar no que a gente deixa diante das nossas próprias portas", analisa.
A escavação em Saqqara é conduzida por equipe egípcia sob o Ministério do Turismo e Antiguidades. A abertura dos sarcófagos selados não tem data anunciada.