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Casa Argentina em Paris, a residência universitária acusada de "miniditadura" que preocupa a França

'Vivemos com medo constante e sem liberdade de expressão', diz residente à AFP; Muzio dirigia a filial em Madri do instituto fundado por Marion Maréchal.

Capa do artigo Casa Argentina em Paris, a residência universitária acusada de "miniditadura" que preoc…
— Foto: Vox España / Wikimedia Commons (CC0)

Casa Argentina em Paris, a residência universitária acusada de "miniditadura" que preocupa a França: desde que o governo Milei nomeou Santiago Muzio diretor, em 2024, o prédio centenário da Cité Universitaire que abrigou Julio Cortázar viu a retirada de uma placa sobre a ditadura, a expulsão de 13 moradores que protestaram, eventos de extrema direita e um diretor que se recusou a assinar o compromisso de igualdade de gênero — a Prefeitura de Paris pediu investigação e o caso pode entrar na visita de Milei

Denúncias de expulsões e de reuniões de extrema direita na Casa Argentina, em Paris, geram preocupação internacional, e o caso pode ser discutido na visita do presidente Javier Milei à França, prevista para o fim de setembro e o início de outubro. Com quase um século de história, a Casa Argentina na Cité Internationale Universitaire de Paris — que já abrigou intelectuais como o escritor Julio Cortázar — está mergulhada em polêmicas desde que o governo Milei nomeou, em 2024, o advogado franco-argentino Santiago Muzio como diretor. As informações são do G1, com base em apuração da AFP.

A crise começou quando Muzio se recusou a assinar o documento que reconhece a igualdade de gênero e de orientação sexual, compromisso das 47 residências da "Cité U"; a retirada de uma placa sobre a ditadura argentina gerou protestos, e 13 moradores envolvidos no ato foram impedidos de permanecer na residência. O local sediou eventos de extrema direita, e a administração da Cité U tem ação limitada, já que a residência responde diretamente ao Ministério do Capital Humano da Argentina. "É uma miniditadura", onde se vive com "medo constante" e "sem liberdade de expressão", afirmou à AFP uma residente do ano letivo de 2025/2026; "Estamos todos indignados, é horrível o que está acontecendo nessa casa", acrescentou o diretor de outra residência — ambos pediram anonimato por medo da reação de Muzio. Católico fervoroso, Muzio dirigia desde 2020 a filial em Madri do Instituto de Ciências Sociais, Econômicas e Políticas, o ISSEP, instituição privada fundada pela eurodeputada francesa de extrema direita Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen. Diante da crescente preocupação, a Prefeitura de Paris pediu em 30 de julho ao ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, uma "investigação" e que tratasse da situação com o governo argentino — "mantemos conversas em andamento com as autoridades argentinas", respondeu Barrot na terça-feira. Blandine Sorbe, delegada-geral da fundação que administra a Cité U, afirmou trabalhar para que a questão "seja abordada" em nível diplomático no contexto da visita de Milei; o conselho da cidade chegou a pedir que o presidente argentino seja declarado "persona non grata". Nem a Casa, nem Muzio, nem o ministério argentino responderam à AFP; os ministérios franceses do Interior e do Ensino Superior também não.

A Cité U e a Casa Argentina: um século de exílio, cultura e agora disputa

A Cité Internationale Universitaire de Paris, criada em 1925 no sul da cidade como campus de residências mantidas por países para seus estudantes — a Maison du Brésil, projetada por Le Corbusier e Lúcio Costa, é uma delas —, é um dos símbolos da diplomacia cultural europeia: cada casa é território simbólico do país que a financia, mas todas aderem à carta da fundação, que inclui pluralismo, laicidade e, desde os anos 2010, igualdade de gênero e respeito à orientação sexual; a Casa Argentina, inaugurada em 1928, foi refúgio de exilados da ditadura de 1976-83 e residência de Cortázar, e mantinha, como quase todas as instituições argentinas desde 2006, uma placa em memória dos desaparecidos — retirada por Muzio, numa gestão que residentes descrevem como alinhada ao revisionismo do governo Milei sobre a ditadura, que questiona o número de 30 mil desaparecidos e desmontou políticas de memória. A nomeação de um diretor egresso do instituto de Marion Maréchal, a promoção de eventos de extrema direita num prédio de estudantes e a expulsão de quem protestou transformaram a residência em caso diplomático: a Prefeitura de Paris, socialista, pediu investigação; o Quai d'Orsay negocia com Buenos Aires; a fundação da Cité U, sem poder sobre a casa — que responde ao ministério argentino —, tenta levar o tema à visita de Milei, marcada para o fim de setembro; e o conselho municipal pediu que o presidente seja declarado persona non grata, gesto simbólico que constrange a recepção de Macron. Para Milei, aliado de Trump, de Kast e da direita europeia, o episódio é mais um atrito com a França — que já criticou suas posições sobre memória e direitos — e um teste de até onde a política doméstica se exporta para um dormitório de estudantes em Paris.

Para , editor do portal, o caso mostra a extrema direita governando até onde não deveria haver governo. "Uma residência de estudantes em Paris, com um século de história, refúgio de exilados da ditadura e casa de Cortázar, virou posto avançado do mileísmo: placa dos desaparecidos retirada, diretor que não assina compromisso de igualdade, evento de extrema direita no salão e 13 estudantes expulsos por protestar. É a ditadura em miniatura, como disse a residente — e é o que acontece quando um governo trata memória como inimiga. A França, que sabe o que é ocupação, reagiu; a Prefeitura pediu investigação e o conselho pediu que Milei seja persona non grata. O portal registra porque a Argentina é vizinha, Milei é aliado do candidato que empata com Lula, e o que se faz com uma placa em Paris se faz com um museu em Buenos Aires — ou em Brasília", avalia.

Santiago Muzio: o diretor

Advogado franco-argentino, católico, dirigiu de 2020 a 2024 a filial madrilenha do ISSEP, instituto de formação política fundado por Marion Maréchal; nomeado pelo Ministério do Capital Humano de Milei, recusou a carta de igualdade da Cité U, retirou a placa da ditadura e expulsou residentes que protestaram. Não respondeu à AFP.

A placa e os 13 expulsos

A remoção da placa em memória dos desaparecidos da ditadura de 1976-83 motivou protesto de moradores; 13 deles foram impedidos de renovar a residência — punição que a Cité U não pode reverter, por falta de autoridade sobre a casa. Residentes relatam vigilância, restrições e medo de represália.

Eventos de extrema direita num dormitório

A Casa sediou reuniões e palestras de grupos ligados à direita radical francesa e argentina, segundo residentes e a AFP; a carta da Cité U exige pluralismo e neutralidade partidária nas residências, e a fundação considera as atividades incompatíveis, mas sem instrumento para proibi-las.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a fragilidade institucional é o dado mais preocupante. "A Cité U tem 47 casas e uma carta de princípios, mas cada casa é soberana do país que paga — e a Argentina de Milei decidiu usar a sua como vitrine ideológica. A fundação não pode intervir; a prefeitura não pode; só o governo francês, por diplomacia, e a Argentina, se quiser. É o limite do multilateralismo cultural: funciona enquanto os governos respeitam as regras. O portal registra o pedido de 'persona non grata' como sinal de que a paciência francesa acabou — e observa que Milei vai a Paris com Macron, que o receberá, e com uma placa retirada que ninguém em Buenos Aires vai recolocar", observa.

Prefeitura de Paris e Quai d'Orsay: a reação francesa

Em 30 de julho, a prefeitura pediu ao chanceler Barrot investigação e tratativas com a Argentina; Barrot confirmou conversas em andamento; a fundação da Cité U quer o tema na agenda da visita presidencial. O conselho municipal, dominado pela esquerda, pediu que Milei seja declarado persona non grata — moção simbólica.

Marion Maréchal e o ISSEP

Sobrinha de Marine Le Pen e eurodeputada, Maréchal fundou em 2018 o ISSEP, escola de formação de quadros da direita radical em Lyon, com filial em Madri; a passagem de Muzio pela direção madrilenha é o elo entre a residência argentina e a extrema direita europeia — e o motivo de alarme na França.

Milei, a memória e a França

O governo argentino questionou o número de desaparecidos, reduziu políticas de memória e alinhou-se à direita radical internacional; a França, onde a memória da ocupação é política de Estado, critica essas posições, e a visita de Milei — para encontros com Macron e empresários — chega marcada pelo caso da Casa.

Cortázar e o legado que a Casa carrega

O autor de "O Jogo da Amarelinha" viveu na Casa Argentina nos anos 1950, e a residência é lembrada como espaço de intelectuais e exilados; a comunidade acadêmica argentina em Paris vê na gestão Muzio a negação dessa história — e mobiliza-se, com o apoio de outras casas, para que a fundação e o governo francês ajam.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o episódio deveria ser lido no Brasil como aviso. "Governos que reescrevem a ditadura começam por placa e terminam por lei; Milei tirou a placa em Paris e questiona os 30 mil em Buenos Aires. No Brasil, o candidato que empata com Lula promete anistia ao pai condenado por golpe. A memória é a primeira coisa que a extrema direita ataca, porque é a última defesa contra a repetição. O portal registra a 'miniditadura' de Paris e a reação da França — e pergunta quem reagiria aqui", analisa.

A reportagem sobre a crise na Casa Argentina da Cité Internationale Universitaire de Paris, sob a direção de Santiago Muzio desde 2024, foi publicada pelo G1 em 3 de setembro de 2026 com base em apuração da AFP; a visita de Javier Milei à França está prevista para o fim de setembro e o início de outubro.

Fontes e referências

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