Casa Branca lança videogame em que jogador deporta imigrantes
ONGs chamam a iniciativa de "nojenta"; governo Trump diz que jogos mostram contraste com "visão socialista sombria" dos democratas e reporta 51 mil detidos em agosto.
Casa Branca lança videogame em que jogador é o "czar da fronteira" e captura imigrantes para deportar; segundo jogo, inspirado em Tetris, manda construir muro contra "a horda que se aproxima"
O governo de Donald Trump lançou na quinta-feira (3), no site oficial da Casa Branca, um videogame que simula a captura e a deportação de imigrantes dos Estados Unidos. Inspirado no clássico "jogo da cobrinha", com gráficos retrô, o game coloca o jogador no controle de um personagem que representa Tom Homan, o "czar da fronteira" do governo, com a missão de reunir o maior número possível de pessoas que atravessaram o rio Grande, na fronteira com o México, e deportá-las. Um segundo jogo, publicado no mesmo dia, segue os princípios do Tetris e consiste em construir o muro na fronteira; o título é "Proteja a fronteira da horda que se aproxima". As informações são da Folha de S.Paulo, com base na agência AFP.
Grupos de direitos humanos reagiram de imediato. "Isso me dá nojo. Eles passam anos brincando com a vida das pessoas e agora fazem um videogame com suas ações", disse Amérika García Grewal, codiretora da ONG Frontera Federation, sediada no Texas, à AFP. "Quem o criou perdeu de vista o que significa ser humano e se importar com os outros."
A defesa da Casa Branca
Em comunicado à AFP, a Casa Branca defendeu a iniciativa: o videogame "ressalta ainda mais o contraste entre uma cultura 'divertida' e 'de sucesso' e a visão socialista sombria que os democratas têm para os Estados Unidos". A resposta segue a estratégia de comunicação que o governo adota abertamente nas redes sociais — o "trolling", a divulgação deliberada de conteúdo provocador para gerar indignação, alcance e viralização. O jogo, nessa lógica, não é um deslize: é o produto.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o episódio é comunicação política em estado puro. "Um jogo da cobrinha com deportação não tem função de governo nenhuma — não deporta ninguém, não constrói muro. Tem função de conversa: cada ONG que diz 'isso me dá nojo' amplia o alcance, cada jornal que publica confirma que a Casa Branca 'está fazendo alguma coisa' sobre imigração. É a lógica do trolling aplicada ao Estado: a indignação do adversário é a métrica de sucesso. E funciona porque a base eleitoral acha engraçado", avalia.
O contexto: deportações em massa
O jogo chega em meio à intensificação do programa de detenções e deportações do governo. O Departamento de Segurança Interna (DHS) informou ter detido quase 51 mil imigrantes sem documentos em agosto — número recorde — e vem publicando conteúdos igualmente controversos: um vídeo recente mostrou a deportação de imigrantes haitianos algemados, com música de fundo, depois de Washington revogar o status de proteção temporária que lhes permitia permanecer legalmente no país. Opositores classificaram o material como degradante e racista.
Tom Homan, o personagem do jogo, é o coordenador da política de fronteira do governo — um ex-diretor do serviço de imigração conhecido pela defesa de deportações em larga escala e das batidas em locais de trabalho. Transformá-lo em avatar de videogame é, ao mesmo tempo, homenagem e propaganda: o "czar" vira herói de arcade.
Da cobrinha ao Tetris: os dois jogos
No primeiro jogo, o mecanismo é o da "cobrinha": o personagem cresce a cada imigrante "coletado" e o objetivo é acumular o máximo antes de a fila colidir consigo mesma. No segundo, blocos caem e o jogador os encaixa para formar o muro — "proteja a fronteira da horda que se aproxima", instrui o título. A palavra "horda", usada oficialmente pela Casa Branca, é a que mais chamou atenção de críticos: é vocabulário de desumanização, aplicado a pessoas que, em sua maioria, buscam asilo ou trabalho.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a linguagem é o problema mais sério. "Um jogo pode ser de mau gosto e passar. 'Horda' num site oficial do governo americano é outra coisa: é o Estado adotando o vocabulário que descreve imigrantes como massa invasora, não como indivíduos com direito a processo. Isso tem consequência jurídica — o direito de asilo existe, o devido processo existe — e tem consequência social: autoriza quem já pensa assim a agir assim. A cobrinha é brincadeira; a palavra não é", observa.
Reação e alcance
Como em episódios anteriores, o conteúdo se espalhou rapidamente — criticado por veículos de imprensa, ONGs e parlamentares democratas, e celebrado por apoiadores do governo em redes sociais. Em poucas horas, os jogos foram jogados por milhões de pessoas, e capturas de tela e recordes de "deportações" circularam como meme. Para os críticos, o dano é a banalização de uma política que separa famílias e expulsa pessoas com décadas de vida no país; para a Casa Branca, o alcance é a prova de que a mensagem chegou.
A política migratória em números
Desde o início do segundo mandato de Trump, a política migratória combina fechamento da fronteira, ampliação de detenções no interior do país, revogação de status de proteção temporária de nacionalidades inteiras — haitianos, venezuelanos e outros — e pressão sobre cidades e estados que resistem a colaborar com a imigração federal. O número de travessias ilegais na fronteira caiu drasticamente; o de deportações do interior subiu; e a população em centros de detenção atingiu níveis inéditos. O custo humano — famílias separadas, trabalhadores de longa data expulsos, erros de identificação — é o que as ONGs documentam e o que o videogame, para elas, ridiculariza.
Haitianos: a revogação do status de proteção
O vídeo dos haitianos algemados, citado como precedente do jogo, ilustra a política que o game "celebra". O Status de Proteção Temporária (TPS) é uma designação que permite a nacionais de países em crise — guerra, desastre natural, colapso institucional — permanecer e trabalhar legalmente nos Estados Unidos enquanto a situação de origem perdurar. O Haiti, mergulhado em violência de gangues e sem governo funcional, tinha centenas de milhares de beneficiários. A revogação do TPS transformou, de um dia para o outro, residentes legais em deportáveis — muitos com anos de trabalho, filhos nascidos no país e nenhum lugar seguro para voltar. É esse grupo que aparece algemado no vídeo do DHS.
Quem é Tom Homan
O avatar do jogo tem biografia real. Tom Homan foi policial, agente de fronteira e, no primeiro mandato de Trump, diretor interino do ICE, o serviço de imigração e alfândega — período em que defendeu a política de separação de famílias na fronteira como instrumento de dissuasão. Nomeado "czar da fronteira" no segundo mandato, coordena as operações de deportação em massa a partir da Casa Branca, sem necessidade de confirmação pelo Senado. É a face pública da política que o videogame transforma em fase de arcade — e, para os críticos, a escolha de fazê-lo protagonista de um jogo é a admissão de que a deportação virou espetáculo com herói.
O rio Grande como cenário
A escolha do rio Grande — a fronteira natural entre Texas e México — como cenário do jogo remete ao ponto mais simbólico da política migratória americana: é onde milhares de pessoas atravessam a nado ou de bote, onde o Texas instalou boias e cercas de arame, e onde morrem afogados todos os anos migrantes que tentam a travessia. Transformar esse lugar em fase de videogame, com o jogador "coletando" quem atravessou, é o que as organizações de direitos humanos apontam como a face mais cruel da brincadeira: o cenário real é um cemitério.
Trolling como método de governo
A comunicação da Casa Branca sob Trump adotou abertamente a estética das redes: memes, montagens, vídeos com trilha sonora, provocações diretas a adversários. O videogame é a evolução natural — conteúdo interativo, compartilhável, "divertido", que transforma política pública em entretenimento. Especialistas em comunicação observam que a estratégia neutraliza a crítica: quem denuncia parece "sem senso de humor", e a discussão sobre o mérito da política — legalidade, custo, efeito — é substituída pela discussão sobre o jogo.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a resposta certa é não morder a isca — e não ignorar. "A ONG que diz 'me dá nojo' está certa e está fazendo exatamente o que a Casa Branca queria. O caminho é outro: responder com dado. Quantos dos 51 mil detidos em agosto tinham antecedentes criminais? Quantos tinham filhos cidadãos americanos? Quantos foram deportados por erro? O jogo da cobrinha não responde a isso. A imprensa deveria. Trolling se combate com fato chato, não com indignação viral", analisa.
Os dois jogos permanecem disponíveis no site oficial da Casa Branca. O Departamento de Segurança Interna divulga mensalmente os dados de detenções e deportações.