A "guerra de drones" saiu da Ucrânia
Levantamento do IISS conta centenas de avistamentos sobre aeroportos, bases nucleares e gasodutos; só a Alemanha teve 58, e o Reino Unido 266 em 2025.
A "guerra de drones" saiu da Ucrânia: ao menos 20 países europeus registraram incidentes com drones russos ou suspeitos — dezenas caíram na Polônia, um explosivo foi achado em aeroporto na Alemanha, Romênia teve prédio atingido — e a Otan fala em "guerra híbrida" de Putin contra o continente
Após mais de quatro anos de guerra na Ucrânia, Europa e Rússia vivem uma escalada de tensões sem precedentes, com incidentes envolvendo drones registrados em ao menos 20 países europeus. Na "guerra de drones" em que o conflito se converteu, cada vez mais projéteis escapam das linhas de frente e penetram o espaço aéreo da Otan, alimentando acusações de que Moscou trava uma "guerra híbrida" contra o continente. No caso mais grave, dezenas de drones caíram na Polônia durante um ataque russo à Ucrânia, provocando reunião de emergência da aliança; no mais recente, um drone com explosivos e detonador foi encontrado num aeroporto da Alemanha, e o governo alemão acusou a Rússia após analisar a tecnologia. As informações são do g1.
Entre agosto de 2024 e fevereiro de 2026, centenas de avistamentos de drones ocorreram em aeroportos e bases militares europeias, segundo levantamento do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, o IISS; instalações vitais como estações de energia, gasodutos, cabos submarinos e navios também foram sobrevoadas. Os incidentes passaram a ser vistos como campanha coordenada — "guerra não convencional" de Vladimir Putin contra a Europa enquanto mantém a ofensiva na Ucrânia.
País por país: os incidentes
Polônia: acionou caças para derrubar 19 drones russos em setembro de 2025. Alemanha: acusou a Rússia por tentativa de ataque com drone explosivo contra avião de carga em Leipzig. Romênia: um drone russo acertou prédio civil em Galati em maio de 2026, com dois feridos e incêndio; em fevereiro, jatos derrubaram projéteis. Estônia: jatos da Otan derrubaram drone em maio de 2026; em setembro de 2025, três caças russos invadiram o espaço aéreo. Suécia e Dinamarca: drone russo sobre o porta-aviões francês Charles de Gaulle foi derrubado sobre o Estreito de Oresund em fevereiro de 2026. Moldávia: seis drones russos em novembro de 2025. Finlândia: drone ucraniano caiu em março de 2026, com pedido de desculpas de Kiev. Bulgária: drone de ataque explodiu perto de vilarejo em agosto de 2026. Croácia, Letônia e Lituânia registraram quedas de drones russos entre 2022 e 2026.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o mapa é o dado. "Vinte países. Não é a Polônia e os bálticos — é Alemanha, França, Reino Unido, Bélgica, Espanha, Irlanda. Drone sobre base com arma nuclear americana na Alemanha, drone fechando o aeroporto de Munique, drone com explosivo em Leipzig. Isso não é guerra da Ucrânia que transborda; é campanha contra a Europa com a Ucrânia como álibi. O IISS chamou de guerra não convencional. A Otan chama de híbrida. O nome importa menos que a resposta — e a resposta, até agora, é derrubar drone e convocar reunião. Putin está testando o Artigo 5 um drone de cada vez", avalia.
Guerra híbrida: o termo
"Guerra híbrida" é o termo cunhado por governos europeus e pela Otan para ações russas que vão além do combate convencional — sabotagem, ciberataques, desinformação, drones — e que buscam pressionar, intimidar ou desestabilizar sem cruzar claramente o limite da guerra aberta. A ambiguidade é deliberada: um drone "de origem não identificada" sobre um aeroporto não aciona a defesa coletiva, mas fecha o aeroporto, custa milhões e testa o tempo de reação. A Otan, aliança de 32 países criada em 1949 com pacto de defesa mútua, foi desenhada para tanques cruzando fronteiras, não para quadricópteros sobre gasodutos.
Os números do IISS
Dezenas de avistamentos de drones suspeitos com possíveis ligações à Rússia foram registrados em 13 países da Otan e na Irlanda entre agosto de 2024 e fevereiro de 2026: Alemanha, 58; Bélgica, 25; Dinamarca, 16; Holanda, 9; França, 8; Reino Unido e Noruega, 7 cada; Finlândia e Suécia, 4; Irlanda e Espanha, 2; República Tcheca e Polônia, 1. Um levantamento do próprio governo britânico contou 266 incidentes com drones em suas bases apenas em 2025 — número que sugere que a contagem do IISS é conservadora.
Aeroportos: Berlim, Munique, Copenhague, Bruxelas
Drones não identificados foram avistados sobre aeroportos da Alemanha, Dinamarca, Noruega e Bélgica, incluindo os hubs de Berlim, Munique, Copenhague e Bruxelas, entre setembro e outubro de 2025 — incidentes que paralisaram operações e afetaram a aviação comercial. Fechar um grande aeroporto por horas custa dezenas de milhões e afeta centenas de milhares de passageiros; é o tipo de dano que a guerra híbrida provoca sem disparar um tiro.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a vulnerabilidade é estrutural. "Um drone de R$ 5 mil fecha o aeroporto de Munique. Um drone de R$ 20 mil com explosivo entra na área de um aeroporto alemão. A Europa gastou décadas construindo defesa contra míssil e avião, e a arma que a ameaça hoje é comprada pela internet. Derrubar com caça F-35 custa milhões por drone; a Rússia lança centenas por noite. A assimetria é o ponto: Putin gasta pouco, a Otan gasta muito, e cada incidente sem resposta é vitória. A resposta certa é defesa antidrone barata em escala — e isso a Europa ainda não tem", observa.
Bases militares e armas nucleares
Drones não identificados penetraram o perímetro de segurança de bases importantes na Alemanha, na França, no Reino Unido e na Dinamarca — incluindo instalações que abrigam armas nucleares americanas. São os incidentes mais sensíveis: reconhecimento de instalações estratégicas por aeronaves não tripuladas indica coleta de inteligência ou ensaio para sabotagem, e a incapacidade de identificar a origem expõe a lacuna de detecção.
Infraestrutura vital: energia, gasodutos, cabos
Ataques ou tentativas de sabotagem contra estações de energia, gasodutos, cabos submarinos e navios comerciais, além de explosões em áreas civis, completam o quadro. Os cabos do Báltico, cortados em episódios sucessivos desde 2023, e os gasodutos noruegueses são os alvos mais citados. A combinação de drones no ar e sabotagem no mar é o que a Otan chama de campanha coordenada.
Polônia: o dia em que a Otan quase entrou
A queda de dezenas de drones em território polonês durante um ataque russo à Ucrânia foi o momento em que a aliança esteve mais perto de expandir a guerra: a Polônia acionou o Artigo 4 — consultas —, derrubou 19 aparelhos com caças e convocou a reunião de emergência. Moscou alegou erro de navegação; Varsóvia e a Otan não aceitaram. Desde então, a fronteira leste opera com defesa aérea reforçada e regras de engajamento que permitem abater qualquer objeto.
Drones ucranianos: os incidentes do outro lado
Nem todos os incidentes são russos: um drone ucraniano carregado caiu na Finlândia em março de 2026, com pedido de desculpas de Kiev, e a Estônia atribuiu à Ucrânia um drone derrubado em maio. São os efeitos colaterais da guerra de drones de longo alcance que a Ucrânia trava contra refinarias e bases russas — projéteis que erram ou são desviados por guerra eletrônica. A Otan os trata de forma diferente, mas eles alimentam o argumento russo de que o espaço aéreo europeu está contaminado pelos dois lados.
A resposta europeia
A União Europeia anunciou que vai "aumentar a pressão" contra a Rússia após a tentativa de ataque híbrido na Alemanha, e a Otan discute um "muro de drones" na fronteira leste — rede de sensores e interceptadores de baixo custo. Países como Polônia e bálticos aceleram compras de sistemas antidrone; Alemanha e Dinamarca revisam a proteção de aeroportos. A escala do problema — 20 países, centenas de incidentes — exige resposta continental, e a Europa ainda a monta.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o Brasil deveria estudar o mapa. "Drone barato sobre aeroporto, base e gasoduto é o futuro da guerra e da sabotagem — e o Brasil tem Guarulhos, Angra, Itaipu e a rede de gasodutos sem nenhuma defesa antidrone. O que a Rússia testa na Europa, cartéis e grupos criminosos vão copiar aqui. A Colômbia já viu 20 drones com explosivo num quartel. A lição do mapa do g1 não é sobre Putin; é sobre a vulnerabilidade de infraestrutura moderna a um aparelho de loja. A Europa aprende sob ataque. O Brasil pode aprender antes", analisa.
O levantamento sobre incidentes com drones em países europeus é do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) e cobre o período de agosto de 2024 a fevereiro de 2026. Ao menos 20 países registraram episódios, segundo o g1.