Irã condena à morte jovem que protestou contra o regime em Munique
Os protestos de 2022, após a morte de Mahsa Amini, deixaram mais de 380 mortos; em janeiro, nova onda por custo de vida teve alcance maior, e o CHRI acusa o regime de usar a pena de morte.
Irã condena à morte Ali Zarei, jovem de 27 anos que perdeu um olho na repressão aos protestos de 2022, buscou refúgio na Alemanha e discursou contra a República Islâmica num ato de Reza Pahlavi em Munique: condenado por "corrupção na terra" e sentenciado à forca no mês passado, segundo a HRANA e o Centro pelos Direitos Humanos no Irã, ele voltou ao país no início do ano em circunstâncias que permanecem incertas — o regime executou dezenas de pessoas ligadas a protestos nos últimos meses, em meio à guerra
Um tribunal iraniano condenou à morte um jovem que perdeu um olho durante a repressão aos protestos de 2022, buscou refúgio na Alemanha e expressou publicamente apoio à monarquia derrubada em 1979, denunciaram organizações de defesa dos direitos humanos. Ali Zarei, de 27 anos, foi considerado culpado no mês passado do crime de "corrupção na terra" e condenado a ser executado na forca, informaram a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, a HRANA, e o Centro pelos Direitos Humanos no Irã, o CHRI. As informações são do G1.
As circunstâncias de seu retorno ao Irã no início do ano continuam incertas; poucos meses antes, ele havia participado de um protesto em fevereiro em Munique, organizado por Reza Pahlavi, filho do xá derrubado na Revolução Islâmica de 1979, e fez um discurso contra a República Islâmica. Segundo organizações de direitos humanos, o Irã executou nos últimos meses dezenas de pessoas condenadas por acusações relacionadas aos protestos antigovernamentais, num contexto marcado por tensões e pela guerra com Israel e Estados Unidos; o CHRI acusou o governo de usar a pena de morte como ferramenta de retaliação e repressão contra opositores. Em 2022, manifestantes foram às ruas contra o regime — mais de 380 pessoas morreram, incluindo ao menos 47 crianças, segundo organizações de direitos humanos —, numa onda que eclodiu em reação ao caso da jovem curda Mahsa Amini, de 22 anos, morta após ser presa pela chamada polícia dos bons costumes por "uso inadequado" do véu islâmico obrigatório. Em janeiro deste ano, novos protestos tomaram as ruas por conta do aumento do custo de vida e da crise econômica, com alcance maior que o de quatro anos atrás; a crise só aumentou depois dos bombardeios americanos e israelenses, que levaram o mundo a uma crise de abastecimento e à alta do petróleo com o fechamento do Estreito de Ormuz.
Um olho, um discurso, uma forca: a máquina de execuções do Irã em guerra
Ali Zarei é o rosto de uma geração: ferido nos olhos, como centenas de manifestantes que a polícia iraniana mirou deliberadamente com balas de borracha e chumbo em 2022 — o padrão documentado por médicos e pela ONU, que transformou o olho perdido em símbolo do movimento "Mulher, Vida, Liberdade" —, fugiu para a Alemanha, onde a diáspora iraniana é a maior da Europa, e apareceu em fevereiro de 2026 num ato de Reza Pahlavi em Munique, ocasião em que discursou contra a República Islâmica; o retorno ao Irã "em circunstâncias incertas" — sequestro, engano, saudade da família, promessa de anistia — é a parte que as organizações não conseguem explicar e que o regime usa: capturado, foi julgado por "corrupção na terra", o crime de definição vaga do código penal islâmico que permite a pena capital por atos contra a segurança do Estado, e condenado à forca em processo sumário, sem defesa independente, como os que levaram à execução de dezenas de manifestantes desde 2022 e de "espiões de Israel" desde o início da guerra. O contexto é o de um regime que sobreviveu à decapitação — o líder supremo e a cúpula da Guarda Revolucionária mortos na campanha americano-israelense —, ao bloqueio de Ormuz e a uma onda de protestos em janeiro maior que a de 2022, e que responde como respondeu sempre: executando; o Irã já era, antes da guerra, o país que mais executa no mundo em proporção à população — mais de 900 em 2024, segundo a Anistia Internacional, quase mil em 2025 —, e as organizações registram aceleração em 2026, com condenações por protesto, espionagem e "corrupção na terra" usadas como ferramenta de terror num momento em que o governo, fragmentado e sitiado, precisa dissuadir a rua. A dimensão internacional é dupla: Reza Pahlavi, que organizou o ato de Munique, é a figura em torno da qual parte da oposição se reúne como alternativa monárquica, o que o regime explora para pintar os manifestantes como agentes do xá e do Ocidente; e a Alemanha, que acolheu Zarei e que vive a própria semana de sabotagens russas, é cobrada pela diáspora a proteger refugiados que retornam. Para o mundo, distraído pela guerra, a forca de um jovem de 27 anos que perdeu o olho é a lembrança do que o regime faz com os seus enquanto luta contra os outros — e do que a "resposta contundente" prometida pela Guarda Revolucionária significa dentro do Irã.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a condenação de Zarei é a guerra do Irã vista de dentro. "Enquanto o mundo olha para os petroleiros de Kharg e os mísseis contra navios americanos, o regime enforca um jovem que perdeu o olho em 2022, fugiu para a Alemanha, discursou num protesto e voltou — ninguém sabe como. 'Corrupção na terra' é o crime de quem discorda. O Irã já era o campeão mundial de execuções; sitiado, executa mais. O portal registra o nome, Ali Zarei, 27 anos, porque a guerra que Trump chama de fichinha e que Vahidi promete vingar tem, do lado de dentro, uma forca para cada manifestante — e porque quem defende o regime iraniano como vítima do imperialismo deveria explicar a ele o que aconteceu com quem perdeu um olho pedindo liberdade", avalia.
Ali Zarei: quem é o condenado
Vinte e sete anos, ferido no olho durante a repressão de 2022, refugiado na Alemanha, participante do ato de Reza Pahlavi em Munique em fevereiro de 2026, onde discursou contra a República Islâmica; retornou ao Irã no início do ano em circunstâncias não esclarecidas, foi preso, julgado por "corrupção na terra" e condenado à forca no mês passado, segundo HRANA e CHRI.
"Corrupção na terra": o crime que mata
Categoria do código penal islâmico iraniano — "mofsed-e-filarz" — aplicada a atos considerados contra a segurança do Estado e a ordem religiosa, com definição vaga que permite pena capital por protesto, oposição política ou "espionagem"; é a acusação mais usada contra manifestantes de 2022 e contra "colaboradores de Israel" desde a guerra.
2022: Mahsa Amini e os 380 mortos
A morte da jovem curda sob custódia da polícia dos bons costumes, em setembro de 2022, provocou a maior onda de protestos desde 1979; mais de 380 mortos, incluindo 47 crianças, milhares de presos, centenas de feridos nos olhos — e dezenas de execuções nos anos seguintes, como a que Zarei agora enfrenta.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o retorno "incerto" é o ponto que exige atenção. "Um refugiado que discursa contra o regime em Munique e meses depois está em Teerã condenado à morte — ou foi enganado, ou foi sequestrado, ou voltou por família e foi traído. Os serviços iranianos têm histórico de atrair opositores de volta com promessas e de sequestrar em terceiros países. A Alemanha, que o acolheu, deveria perguntar. O portal registra a incerteza e a certeza: a sentença é de morte, o processo foi sumário, e o regime executa mais de 900 pessoas por ano. Zarei é um; a HRANA conta dezenas só de 2026", observa.
Execuções em alta: o Irã em guerra
Mais de 900 execuções em 2024 e quase mil em 2025, segundo a Anistia; em 2026, aceleração com condenações por protesto, espionagem e "corrupção na terra", em resposta à onda de janeiro e à guerra; o CHRI descreve a pena de morte como ferramenta de retaliação e terror contra uma população que voltou às ruas.
Reza Pahlavi e a oposição monárquica
Filho do xá deposto em 1979, vive nos Estados Unidos e organiza atos na diáspora — como o de Munique — como alternativa ao regime; parte da oposição o rejeita, mas sua visibilidade cresceu com a guerra; o regime usa a ligação para acusar manifestantes de servirem ao xá e ao Ocidente.
Janeiro de 2026: os protestos maiores que 2022
Custo de vida, inflação e crise econômica levaram multidões às ruas em janeiro, em escala superior à de 2022; a guerra que se seguiu — bombardeios, morte do líder supremo, bloqueio de Ormuz — não silenciou a dissidência, e o regime, sitiado por fora, intensificou a repressão por dentro.
A Alemanha e os refugiados que voltam
Maior diáspora iraniana da Europa, a Alemanha acolhe milhares de exilados e é palco de atos da oposição; casos de refugiados que retornam e são presos — por engano, coerção ou sequestro — levantam a questão da proteção; Berlim, ocupada com sabotagens russas, é cobrada a agir pelo caso Zarei.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a notícia deveria fazer parte de toda cobertura da guerra. "Toda semana o portal registra Ormuz, petroleiros, mísseis, a 'fichinha' de Trump e a vingança de Vahidi — e raramente o que o regime faz com o próprio povo. Ali Zarei perdeu um olho pedindo liberdade e vai perder a vida por ter falado em Munique. É o Irã que a guerra não mostra e que nenhum dos lados quer discutir: os Estados Unidos porque bombardeiam, e os que os criticam porque teriam de admitir que o regime é o que é. O portal registra os dois — o bombardeio e a forca — porque os iranianos vivem sob os dois", analisa.
A condenação à morte de Ali Zarei, de 27 anos, manifestante que perdeu um olho nos protestos de 2022 no Irã e discursou contra o regime em ato de Reza Pahlavi em Munique, por "corrupção na terra", foi denunciada pela HRANA e pelo Centro pelos Direitos Humanos no Irã e noticiada pelo G1 em 3 de setembro de 2026; organizações de direitos humanos registram dezenas de execuções ligadas a protestos nos últimos meses, em meio à guerra com Estados Unidos e Israel.