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Conflitos

Presidente da Colômbia posa com sacos mortuários em vídeo antidrogas

"Ele é uma pessoa ruim e merece qualquer punição", resume Elizabeth Dickinson, do International Crisis Group, sobre a lógica que se espalha.

Capa do artigo Presidente da Colômbia posa com sacos mortuários em vídeo antidrogas
— Foto: Diego Delso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Novo presidente da Colômbia posa ao lado de sacos mortuários em vídeo de "demonstração de força" contra o narcotráfico: Abelardo de la Espriella, vestido de verde militar, caminha entre cadáveres que diz serem de rebeldes e expõe uma tática que se espalha pelas Américas — Trump com vídeos de deportação e ataques no Caribe que mataram mais de 200, Bukele com presos de cabeça raspada; especialistas veem "espetáculo punitivo" e erosão do devido processo

O presidente da Colômbia está sentado a uma mesa, cercado por autoridades militares e policiais, apresentando o que descreve como prova de uma operação bem-sucedida. Mas as fileiras à sua frente não são de caixas de cocaína ou de armas apreendidas — são cadáveres. Vestindo o mesmo verde-escuro dos militares que o acompanham, Abelardo de la Espriella aparece em vídeo publicado na quarta-feira (2 de setembro) em sua conta no X caminhando ao lado de sacos mortuários brancos que, segundo ele, contêm os restos de rebeldes. As informações são da Folha.

O vídeo é uma manifestação particularmente contundente de uma tática cada vez mais visível nas Américas: líderes que fazem campanha com discurso de lei e ordem usando imagens de supostos criminosos como espetáculo do poder do Estado. Especialistas afirmam que essas imagens refletem uma tendência regional de tratar pessoas classificadas como terroristas como inimigos que não merecem as garantias do devido processo legal, e apontam a decisão do governo de Donald Trump de designar narcotraficantes como terroristas e fazer ataques militares no Caribe — que mataram mais de 200 pessoas — como parte dessa mudança. Trump divulga vídeos de operações de imigração, às vezes com músicas populares; o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, transformou imagens de presos de cabeça raspada, conduzidos em marcha para a prisão, em parte de sua estratégia de segurança. "Quando os Estados Unidos se comportam dessa maneira, fica mais fácil para todos os demais caírem nessa armadilha comportamental", diz Elizabeth Dickinson, vice-diretora para a América Latina do International Crisis Group. "Não se trata apenas de 'ele fez algo ruim', mas de 'ele é uma pessoa ruim e, portanto, merece qualquer punição que decidirmos impor'." Adam Isacson, diretor do Washington Office on Latin America, afirma: "É uma tentativa de empolgar as pessoas não apenas com estatísticas sobre a taxa de homicídios, mas com essas imagens propriamente ditas, de uma forma quase caricatural ou semelhante à luta livre profissional, para apelar aos instintos mais primitivos do público."

Quem é Abelardo de la Espriella

Advogado criminalista de Barranquilla, conhecido por defender empresários e políticos e por presença agressiva nas redes sociais, De la Espriella venceu a eleição presidencial de 2026 com discurso de "mão firme" contra guerrilhas, dissidências das Farc e cartéis, e tomou posse em 7 de agosto, sucedendo Gustavo Petro — o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, cuja política de "paz total", de negociação simultânea com todos os grupos armados, terminou sem acordos e com a violência em alta em regiões como Catatumbo, Cauca e o Pacífico. Sem partido tradicional e sem experiência de governo, o novo presidente construiu a candidatura como outsider à direita, admirador declarado de Bukele e alinhado a Trump; o vídeo com os sacos mortuários, três semanas após a posse, é a tradução visual da promessa de campanha — e o primeiro sinal do que organizações de direitos humanos temiam.

Para , editor do portal, o vídeo é o retrato de uma virada continental. "Bukele criou o modelo: presos amontoados, cabeça raspada, câmera em cima. Trump adotou: vídeo de deportação com trilha sonora, ataque a barco no Caribe transmitido. Agora De la Espriella, três semanas depois de tomar posse, senta-se diante de cadáveres e chama de resultado. Não há julgamento, não há identificação, não há devido processo — há corpo e câmera. O International Crisis Group e a Wola dizem o óbvio: quando o inimigo é 'pessoa ruim', qualquer coisa vale. A Colômbia tem 60 anos de guerra e sabe onde isso termina: nos 'falsos positivos', quando o Exército matou civis para inflar estatísticas. O presidente novo está reabrindo esse caminho com transmissão ao vivo", avalia.

A Colômbia depois da "paz total"

O acordo de paz de 2016 desmobilizou as Farc, mas dissidências — o Estado Maior Central e a Segunda Marquetalia —, o ELN e o Clã do Golfo ocuparam os territórios e as rotas de cocaína; Petro tentou negociar com todos ao mesmo tempo e viu os cessar-fogos ruírem, com massacres, deslocamentos e recrutamento de menores em alta. De la Espriella herdou um país com produção recorde de coca e prometeu o oposto: confronto militar sem negociação.

"Falsos positivos": a memória que o vídeo evoca

Entre 2002 e 2008, sob o governo de Álvaro Uribe, militares colombianos executaram mais de 6.400 civis e os apresentaram como guerrilheiros mortos em combate, para cumprir metas e receber bonificações — o escândalo dos "falsos positivos", julgado pela Justiça Especial para a Paz; organizações de direitos humanos lembram que corpos exibidos como "rebeldes" sem identificação independente foram, naquela época, a fachada de crimes de Estado.

Bukele: o modelo salvadorenho

O presidente de El Salvador reduziu homicídios com estado de exceção permanente desde 2022, prisão em massa de mais de 80 mil pessoas sem julgamento e a megaprisão Cecot, cujas imagens de detentos algemados e raspados percorreram o mundo; popular em casa, é criticado por execuções, torturas e mortes sob custódia. Políticos da região — do Equador ao Chile e à Argentina — o citam como referência.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, os Estados Unidos deram a licença. "Elizabeth Dickinson diz com precisão: quando Washington designa traficante como terrorista e afunda barco no Caribe sem julgamento — mais de 200 mortos —, cada presidente latino-americano entende que pode fazer o mesmo. De la Espriella fez em três semanas. O problema não é moral apenas; é prático: guerra sem regras produz mais recrutamento, mais vingança e mais coca. A Colômbia tentou isso nos anos 2000 e colheu os falsos positivos; tentou negociação com Petro e colheu caos. Sobra a via que ninguém filma: Estado presente, Justiça que funciona e economia legal onde hoje só há coca", observa.

Trump e os ataques no Caribe

Desde 2025, forças americanas atacam embarcações no Caribe e no Pacífico que Washington descreve como de traficantes, sem abordagem nem prisão; mais de 200 pessoas morreram, incluindo, segundo famílias e governos da região, pescadores. A designação de cartéis como organizações terroristas é a base jurídica invocada — e o precedente que a Colômbia agora cita.

Devido processo: o que está em erosão

A presunção de inocência, o julgamento por tribunal e a proibição de execução sumária são garantias das constituições da região e da Convenção Americana de Direitos Humanos; classificar suspeitos como "terroristas" ou "inimigos" e exibir seus corpos como troféu substitui o processo pela punição. A Corte Interamericana já condenou a Colômbia por execuções extrajudiciais.

Redes sociais: a política do espetáculo

X, TikTok e Instagram são o palco: vídeos curtos, música, corpos, algemas — conteúdo desenhado para viralizar e para consolidar a imagem de força; Isacson compara à luta livre profissional pelo apelo ao instinto. A imprensa tradicional, ao repercutir, amplia o alcance — dilema que jornais como a Folha enfrentam ao noticiar.

Reações na Colômbia e no exterior

Organizações de direitos humanos colombianas pediram identificação independente dos mortos e investigação das circunstâncias; a oposição de esquerda denunciou "propaganda com cadáveres"; apoiadores do presidente celebraram nas redes. A ONU e a Comissão Interamericana acompanham; os Estados Unidos, aliados do novo governo, não comentaram.

O que vem: a agenda de segurança do novo governo

De la Espriella promete ampliar o orçamento militar, reativar a fumigação aérea de coca, suspender diálogos com o ELN e construir prisões de alta segurança inspiradas em El Salvador; o Congresso, fragmentado, e os tribunais serão os freios — se funcionarem.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a cena tem público-alvo. "O vídeo não é para a ONU nem para a Folha; é para o colombiano cansado de massacre e para o eleitor que votou em Bukele à distância. Funciona — por um tempo. Bukele ainda é popular; Trump venceu com isso. O custo aparece depois: nos inocentes mortos, nos processos na Corte Interamericana, na guerrilha que se fortalece com cada abuso. A Colômbia já pagou essa conta uma vez, e a Justiça Especial para a Paz ainda julga os responsáveis. De la Espriella tem três semanas de governo e já colocou o país na fila para pagar de novo", analisa.

O vídeo em que o presidente colombiano Abelardo de la Espriella aparece ao lado de sacos mortuários foi publicado em sua conta no X em 2 de setembro de 2026 e analisado pela Folha em 4 de setembro, com avaliações de Elizabeth Dickinson, do International Crisis Group, e Adam Isacson, do Washington Office on Latin America.

Fontes e referências

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