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Conflitos

Síria começa a destruir o que restou do programa clandestino de armas químicas de Bashar al-Assad

Remanescentes achados em maio incluem matérias-primas e munições como as usadas nos ataques com gás da guerra civil; Israel não comentou.

Capa do artigo Síria começa a destruir o que restou do programa clandestino de armas químicas de Basha…
— Foto: Vyacheslav Argenberg / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Síria começa a destruir o que restou do programa clandestino de armas químicas de Bashar al-Assad: Opaq verifica a "destruição irreversível de 42 bombas aéreas" — a primeira eliminação confirmada no país desde 2014 —, Damasco declara nova instalação de produção, um insumo de agentes neurotóxicos e dois depósitos, e o embaixador sírio diz à ONU que ataques de Israel põem em risco as equipes de busca

A Síria começou a destruir o que sobrou de um programa clandestino de armas químicas da era do ex-ditador Bashar al-Assad, encontrado em maio. Um enviado sírio e uma representante da ONU disseram na quinta-feira (3 de setembro) que se trata da primeira destruição desse tipo em uma década. Em maio, a agência Reuters informou que a nova liderança síria havia localizado remanescentes do programa, incluindo matérias-primas e munições semelhantes às usadas em ataques mortais com gás durante a guerra civil, que provocou mais de 500 mil mortes. As informações são da Folha.

Izumi Nakamitsu, alta representante da ONU para Assuntos de Desarmamento, disse em reunião do Conselho de Segurança que, pela primeira vez desde 2014, a Organização para a Proibição de Armas Químicas, a Opaq, confirmou a destruição de munições químicas na Síria. "Após a descoberta, Damasco encontrou mais uma instalação de produção de armas químicas, um produto químico recém-identificado usado na produção de agentes neurotóxicos e munições químicas vazias. O país também declarou duas instalações de armazenamento de armas químicas onde os materiais recém-descobertos estavam sendo guardados", afirmou. No mês passado, a Opaq enviou uma equipe para verificar a destruição de armas da categoria três — munições não preenchidas e equipamentos de dispersão —, e a equipe verificou "a destruição irreversível de 42 bombas aéreas". O embaixador da Síria na ONU, Ibrahim Olabi, disse que o país estava "protegendo o mundo e a região por meio desse trabalho" e criticou duramente Israel, afirmando que os repetidos ataques de Tel Aviv prejudicam as operações de busca e destruição e expõem as equipes a riscos: "Não podemos garantir a segurança da região se a nossa própria segurança está sujeita a ataques perpetrados por Tel Aviv, que desrespeita a segurança de toda a região e viola as convenções e os tratados de que falamos". As autoridades de Israel não responderam de imediato a pedido de comentário.

O programa de Assad: de Ghouta à "eliminação" de 2014

A Síria manteve por décadas um dos maiores arsenais químicos do Oriente Médio — sarin, gás mostarda, VX — como contrapeso ao programa nuclear israelense; em agosto de 2013, o ataque com sarin em Ghouta, nos arredores de Damasco, matou cerca de 1.400 pessoas, levou os Estados Unidos à beira de uma intervenção e resultou, por acordo entre Washington e Moscou, na adesão síria à Convenção sobre Armas Químicas. Em 2014, uma missão conjunta Opaq-ONU retirou e destruiu cerca de 1.300 toneladas de agentes declarados, e o governo Assad foi declarado "livre" de armas químicas — declaração que ataques posteriores desmentiram: Khan Shaykhun, em 2017, com sarin, e Douma, em 2018, com cloro, foram atribuídos ao regime pela Opaq. O programa clandestino agora encontrado é a prova material de que a eliminação de 2014 foi parcial e de que Assad manteve capacidade de produção até a queda, em dezembro de 2024.

Para , editor do portal, a notícia fecha um ciclo de mentiras. "Em 2014, Rússia e Estados Unidos garantiram ao mundo que a Síria não tinha mais armas químicas. Em 2017 e 2018, o regime gaseou civis de novo. Em 2026, o governo que derrubou Assad encontra fábrica, precursor de agente neurotóxico, bombas vazias e dois depósitos — e a Opaq verifica a destruição de 42 bombas, a primeira em dez anos. Não é o fim: é o começo do inventário do que Assad escondeu. E o embaixador sírio tem razão em um ponto: Israel bombardeia a Síria semanalmente desde a queda do regime, e equipe de desarmamento não trabalha sob ataque aéreo. Quem quer a Síria sem armas químicas precisa deixar a Síria destruí-las", avalia.

Categoria três: o que foi destruído

A Convenção classifica munições e equipamentos em categorias: a três inclui bombas, ogivas e dispersores não preenchidos com agente — perigosos porque prontos para uso — e é a mais simples de destruir, por corte, esmagamento ou detonação controlada; as 42 bombas aéreas verificadas pela Opaq pertencem a esse grupo. Agentes químicos e precursores, das categorias um e dois, exigem neutralização em instalações especializadas e virão depois.

A nova instalação e o precursor neurotóxico

A descoberta de mais uma instalação de produção e de um produto químico "recém-identificado" usado em agentes neurotóxicos — sarin ou VX — indica que o programa clandestino de Assad mantinha capacidade industrial, e não apenas estoques residuais; a identificação do precursor permite à Opaq rastrear fornecedores e reconstituir a cadeia, como fez nas investigações de Khan Shaykhun e Douma.

A Síria pós-Assad e a Opaq

Desde a queda do regime, em dezembro de 2024, o novo governo sírio cooperou com a Opaq, permitiu inspeções e declarou os achados — postura oposta à de Assad, que negou, obstruiu e foi suspenso de direitos na organização em 2021; a cooperação é parte do esforço de Damasco por reconhecimento internacional e suspensão de sanções.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o gesto sírio tem alvo político. "O governo de Damasco quer sanções suspensas, investimento e cadeira na comunidade internacional — e destruir armas químicas com a Opaq assistindo é a forma mais eficaz de provar que não é Assad. Ao mesmo tempo, usa o Conselho de Segurança para acusar Israel, que ocupa território sírio no sul e bombardeia depósitos de armas com o argumento de impedir que caiam em mãos erradas. Os dois lados têm parte da razão: a Síria destrói o arsenal que Israel teme, e Israel ataca os locais que a Síria diz estar limpando. A ONU pediu coordenação; ninguém coordenou", observa.

Israel e os ataques à Síria

Desde dezembro de 2024, Israel realizou centenas de ataques aéreos contra depósitos, bases e instalações militares sírias — incluindo suspeitas de armas químicas —, ocupou a zona-tampão nas Colinas de Golã e avançou tropas no sul; Tel Aviv diz agir para impedir que armas do antigo regime cheguem a grupos hostis. Damasco classifica os ataques como violação de soberania e sabotagem ao desarmamento.

Guerra civil: os ataques químicos documentados

Além de Ghouta, Khan Shaykhun e Douma, a Opaq e a ONU documentaram dezenas de ataques com cloro e sarin entre 2013 e 2018, atribuídos ao regime e, em menor número, ao Estado Islâmico; investigações identificaram unidades da Força Aérea síria responsáveis. A responsabilização criminal dos autores é tarefa que o novo governo e tribunais internacionais discutem.

Convenção sobre Armas Químicas: o regime

Em vigor desde 1997 e com 193 Estados-partes, a Convenção proíbe produção, armazenamento e uso e obriga a destruição sob verificação da Opaq, sediada em Haia; a organização recebeu o Nobel da Paz em 2013 pelo trabalho na Síria. A adesão síria em 2013 foi o caso mais complexo de sua história — e segue aberto.

Próximos passos: inventário e neutralização

A Opaq deve verificar as duas instalações de armazenamento declaradas, analisar o precursor identificado e planejar a neutralização dos agentes das categorias um e dois — processo que pode levar anos e exigir transporte ou construção de unidade de destruição. O financiamento vem de doadores e da própria Síria, com recursos limitados.

Reconhecimento e sanções: o que Damasco espera

Estados Unidos e União Europeia suspenderam parte das sanções em 2025; a plena normalização depende de garantias sobre minorias, combate ao terrorismo e desarmamento. A cooperação com a Opaq é um dos indicadores que Washington e Bruxelas acompanham.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o caso mostra o valor — e o limite — da verificação internacional. "A Opaq não impediu Assad de gasear Ghouta, Khan Shaykhun e Douma; mas documentou cada ataque, identificou as unidades responsáveis e, dez anos depois, está lá para verificar a destruição do que ele escondeu. Sem a organização, não haveria registro nem inventário. Quarenta e duas bombas destruídas não são muito; são o primeiro número verificável desde 2014, num país que a comunidade internacional declarou 'limpo' e não estava. A lição vale para todo tratado: verificação sem acesso é ficção", analisa.

O início da destruição dos remanescentes do programa de armas químicas da era Assad na Síria foi relatado ao Conselho de Segurança da ONU em 3 de setembro de 2026 por Izumi Nakamitsu e pelo embaixador sírio Ibrahim Olabi, segundo a Folha. A Opaq verificou a destruição de 42 bombas aéreas.

Fontes e referências

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