Zelensky propõe cessar-fogo aéreo à Rússia durante negociações
Mais de quatro anos após a invasão, a guerra segue sem solução militar, com frente estabilizada e campanhas de mísseis e drones dos dois lados.
Zelensky propõe à Rússia um cessar-fogo aéreo enquanto durarem as negociações conduzidas pelos enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner, que visitam Moscou e Kiev: "Não haverá ataques aéreos de nossa parte, e a Rússia deve, de forma recíproca, garantir um cessar-fogo" — proposta vem dias depois de drones russos atingirem uma fábrica da Coca-Cola, ato que o presidente ucraniano chamou de recado aos Estados Unidos, e de ataque com drones a jato que matou 12 na região de Kiev
O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, afirmou na sexta-feira (4 de setembro) que propôs um cessar-fogo à Rússia durante a última rodada de negociações — tratativas que envolvem os enviados dos Estados Unidos Steve Witkoff e Jared Kushner, que visitam Moscou e Kiev. "Não haverá ataques aéreos de nossa parte, e a Rússia deve, de forma recíproca, garantir um cessar-fogo, sem ataques aéreos, pelo tempo necessário para conduzir essas negociações", disse. As informações são do G1.
Mais de quatro anos após o início da invasão lançada pela Rússia em fevereiro de 2022, a guerra continua sem solução militar definitiva: os combates seguem concentrados no leste e no sul do país, com avanços limitados na linha de frente e disputas prolongadas por cidades e centros logísticos, e a fase atual é marcada por campanhas de ataques à distância — Rússia e Ucrânia usam drones e mísseis contra alvos militares, infraestrutura e instalações estratégicas. Nos últimos dias, Kiev voltou a denunciar ataques russos: em 3 de setembro, drones atingiram uma fábrica da Coca-Cola na Ucrânia, episódio que Zelensky classificou como recado direto aos Estados Unidos; em 1º de setembro, um ataque com drones de propulsão a jato deixou 12 mortos na região da capital.
O que Zelensky está propondo — e o que não está
A proposta é limitada e calculada: trégua apenas aérea — sem mísseis, drones e bombardeios de longo alcance dos dois lados — e apenas enquanto os enviados americanos negociam, sem tocar na frente terrestre, onde a Rússia mantém a iniciativa e a Ucrânia resiste em posições fortificadas. Para Kiev, é o formato mais favorável: os ataques aéreos russos são o que mais mata civis e destrói a rede elétrica ucraniana às vésperas do inverno, enquanto os drones ucranianos de longo alcance contra refinarias e bases russas, embora eficazes, são a moeda de troca que Zelensky oferece; para Moscou, aceitar significaria abrir mão da pressão sobre as cidades ucranianas sem ganho territorial. A proposta repete, em escala menor, a trégua energética de 30 dias que Trump tentou intermediar em março de 2025 e que ruiu em semanas por acusações mútuas de violação — precedente que explica a cautela dos dois lados e o silêncio do Kremlin até agora.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o cessar-fogo aéreo é a única trégua que a Ucrânia pode oferecer sem perder. "Zelensky não tem como propor trégua terrestre — congelaria a linha onde a Rússia avança e daria a Putin tempo para reagrupar. Trégua aérea é diferente: protege Kiev, Kharkiv e Odessa dos mísseis, preserva a rede elétrica antes do frio e custa à Ucrânia apenas os ataques a refinarias que irritam Moscou e Washington. É oferta feita para Witkoff e Kushner levarem ao Kremlin como prova de boa vontade — e para expor a Rússia se ela recusar. Putin recusou em março de 2025 e recusou várias vezes desde então; a diferença agora é que os enviados de Trump estão em Moscou e a Coca-Cola foi bombardeada. Zelensky está dizendo aos americanos: vejam quem quer paz e quem bombardeia fábrica americana", avalia.
Witkoff e Kushner: a dupla de Trump
Steve Witkoff, empresário do setor imobiliário e amigo pessoal de Trump, é o enviado especial que negocia com Putin desde 2025 e conduziu as tratativas de Gaza; Jared Kushner, genro do presidente e arquiteto dos Acordos de Abraão no primeiro mandato, juntou-se à missão para a Ucrânia em 2026. Os dois viajaram a Moscou no início de setembro e seguem para Kiev — a primeira rodada em que os mesmos emissários visitam as duas capitais na mesma semana.
A fábrica da Coca-Cola: o recado que Zelensky leu
O ataque de 3 de setembro a uma unidade da Coca-Cola HBC na Ucrânia — uma das maiores empresas americanas em operação no país — ocorreu enquanto os enviados americanos estavam na região; Zelensky o descreveu como mensagem direta de Moscou a Washington: a Rússia bombardeia interesses americanos na Ucrânia no meio da negociação patrocinada pelos Estados Unidos. O Kremlin não comentou o alvo.
Drones a jato: a nova arma russa
O ataque de 1º de setembro, que matou 12 pessoas na região de Kiev, usou drones de propulsão a jato — versões mais rápidas dos Shahed iranianos, produzidas na Rússia, difíceis de interceptar por defesas antiaéreas móveis —; a Rússia lança centenas de drones por noite, e os modelos a jato representam escalada tecnológica que a Ucrânia tenta responder com drones interceptadores e apoio ocidental em mísseis Patriot.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o momento da proposta é o que importa. "A semana teve o general russo acusado de ordenar o ataque ao hospital infantil de Kiev baleado em Saratov, os enviados americanos em Moscou, drones contra a Coca-Cola e 12 mortos perto da capital. É nesse ambiente que Zelensky oferece trégua aérea. Não é ingenuidade — é posicionamento: se a Rússia aceita, a Ucrânia ganha o inverno; se recusa, Trump vê quem sabota sua negociação. Witkoff e Kushner voltam para Washington com a proposta ucraniana e a resposta russa, e é isso que vai definir se os Estados Unidos pressionam Moscou ou Kiev na próxima rodada", observa.
Quatro anos e meio de guerra: onde está a frente
A Rússia ocupa cerca de um quinto do território ucraniano — Crimeia, Donbas e faixas de Zaporíjia e Kherson — e avança lentamente no leste, em Donetsk, ao custo de perdas altas; a Ucrânia mantém posições fortificadas e concentra esforços em drones de longo alcance contra refinarias, aeródromos e depósitos russos. Nenhum dos lados tem capacidade de decidir a guerra militarmente — diagnóstico que o próprio G1 registra e que sustenta a diplomacia.
Trégua energética de 2025: o precedente
Em março de 2025, após ligações de Trump com Putin e Zelensky, os dois países aceitaram uma trégua de 30 dias sobre ataques à infraestrutura energética; em semanas, cada lado acusou o outro de violá-la, e os bombardeios voltaram. A experiência mostrou que trégua parcial sem monitoramento não se sustenta — e é o argumento russo contra a nova proposta.
O que a Rússia exige
Moscou condiciona qualquer cessar-fogo ao reconhecimento das anexações, à neutralidade ucraniana fora da Otan e ao fim do apoio militar ocidental — termos que Kiev rejeita; o Kremlin trata propostas de trégua limitada como manobra para rearmamento ucraniano. A resposta à proposta aérea de Zelensky ainda não foi dada.
Inverno e rede elétrica: o relógio ucraniano
Desde 2022, a Rússia concentra ataques na infraestrutura energética ucraniana nos meses frios, provocando apagões e deixando cidades sem aquecimento; a trégua aérea proposta agora, se aceita em setembro, protegeria a rede antes do inverno de 2026-27 — o motivo prático mais forte por trás da oferta.
Saratov e a guerra na sombra
A proposta de trégua aérea chega na mesma semana em que o general russo Nikolai Varpakhovich — acusado pelo Serviço de Segurança da Ucrânia de ordenar o ataque de 2024 ao hospital infantil de Kiev — foi baleado na cabeça por um motociclista em Saratov, região que abriga a base de bombardeiros estratégicos de Engels; ninguém reivindicou o atentado, mas a Ucrânia já eliminou oficiais russos em território inimigo em ações atribuídas à sua inteligência. É a guerra paralela — sabotagem, assassinatos seletivos, drones de longo alcance contra refinarias — que nenhum cessar-fogo aéreo cobre e que segue independentemente do que Witkoff e Kushner levem de Moscou a Kiev; para o Kremlin, é argumento contra a trégua; para Kiev, é lembrete de que a guerra tem mais frentes do que as negociações abrangem.
O papel dos Estados Unidos em 2026
Trump alterna pressão sobre Kiev — com suspensão de ajuda e exigências de concessões — e impaciência com Moscou, sem resultado; a missão Witkoff-Kushner é a tentativa mais estruturada até agora. Para a Ucrânia, manter os Estados Unidos na mesa é tão importante quanto o conteúdo do acordo.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a proposta expõe a assimetria da guerra. "A Ucrânia pode parar de atacar refinarias na Rússia sem perder território; a Rússia não pode parar de bombardear Kiev sem perder a única pressão que tem para forçar concessões. Por isso Moscou recusa trégua aérea desde 2025 e por isso Zelensky insiste — cada recusa é um argumento em Washington. O portal registra: em setembro de 2026, com enviados americanos nas duas capitais, a Ucrânia ofereceu parar de atacar e a Rússia bombardeou uma fábrica da Coca-Cola. Quem lê os fatos não precisa de análise", analisa.
A proposta de cessar-fogo aéreo apresentada por Volodimir Zelensky à Rússia durante as negociações conduzidas pelos enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner foi anunciada em 4 de setembro de 2026 e noticiada pelo G1. A invasão russa da Ucrânia começou em fevereiro de 2022.