Crise no Supremo escala
Moraes usa relatórios de inteligência da PF e acusa Mendonça de usurpar a condução da polícia, conduzir irregularmente delação de Vorcaro e direcionar investigações contra ele e contra Alcolumbre.
Crise no Supremo escala: dois dias depois de André Mendonça retirar o sigilo do relatório da PF com diálogos entre Daniel Vorcaro e um contato atribuído a Alexandre de Moraes, Moraes envia petição a Edson Fachin acusando o colega de improbidade, crime de responsabilidade e abuso de autoridade por "favorecimento a grupos políticos" — Fachin abre procedimento e dá cinco dias a Moraes, Mendonça, Gonet e à PF; Lula rompe o silêncio em vídeo
A crise instalada no Supremo Tribunal Federal com a revelação de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro ganhou na quinta-feira (3 de setembro) um novo contorno: mais um confronto direto entre Moraes e o ministro André Mendonça. Dois dias depois de Mendonça retirar o sigilo do relatório da Polícia Federal que revelou diálogos entre Vorcaro e um contato atribuído a Moraes, o próprio Moraes enviou ao presidente do STF, Edson Fachin, uma petição dentro do Inquérito 4.781 — o inquérito das fake news — acusando Mendonça de agir para favorecer "grupos políticos". As informações são da BBC News Brasil.
Moraes usou relatórios da inteligência da Polícia Federal para acusar Mendonça de, "em tese", ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade judicial" e "favorecimento a determinados grupos políticos" ao atuar como relator dos casos do escândalo do INSS — as operações Sem Desconto — e do Banco Master — a operação Compliance Zero. Moraes também acusa o colega de usurpar a condução dos trabalhos da autoridade policial, de conduzir de forma irregular as tratativas de um eventual acordo de colaboração premiada com Vorcaro e de direcionar investigações contra ele próprio e contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por motivos pessoais e políticos. Fachin respondeu ainda na quinta-feira: abriu um procedimento autônomo e deu cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, se manifestem por escrito. A escalada, que transformou o alvo original das suspeitas em autor de uma contra-acusação formal, provocou reações imediatas — especialmente na oposição. O presidente Lula rompeu o silêncio e falou pela primeira vez sobre o caso, em vídeo gravado no Planalto e divulgado na quinta-feira: "diante da gravidade do momento, o povo brasileiro espera que o presidente da Suprema Corte e a Procuradoria-Geral da República liderem com um processo que garanta a integridade e a confiança nas investigações".
Como a crise chegou até aqui
O caso Master — a liquidação do banco de Daniel Vorcaro pelo Banco Central, a operação Compliance Zero da Polícia Federal e as suspeitas de que o banqueiro comprou influência em Brasília — chegou ao Supremo pela relatoria de André Mendonça, que autorizou buscas, prisões e a quebra de sigilos. Na semana passada, o relatório da PF com as mensagens de Vorcaro, tornado público por decisão de Mendonça, expôs conversas com um contato identificado pela polícia como Alexandre de Moraes — o que colocou o ministro mais poderoso da corte sob suspeita e alimentou, no Senado, pedidos de impeachment. A resposta de Moraes, na quinta, inverteu o jogo: em vez de se defender, acusou o relator de conduzir o caso com viés político, de negociar a delação de Vorcaro fora do rito e de mirar nele e em Alcolumbre. Fachin, presidente da corte desde setembro de 2025, ficou com a tarefa de arbitrar entre dois colegas que se acusam mutuamente de crime — situação sem precedente na história do tribunal.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o Supremo entrou em território que a Constituição não previu. "Um ministro acusa outro de crime de responsabilidade, por petição dentro de um inquérito que ele mesmo relata há sete anos, usando relatório de inteligência da PF que o outro ministro supervisiona. O presidente da corte abre procedimento e pede explicação aos dois, ao procurador-geral e ao chefe da polícia. Não existe rito para isso — o Supremo julga a si mesmo, e o Senado assiste com pedidos de impeachment na gaveta. Lula pediu que Fachin e Gonet liderem; Flávio Bolsonaro pede a cabeça de Moraes; Alcolumbre, citado por Moraes como alvo de Mendonça, controla o impeachment. É a crise institucional mais grave desde a redemocratização, a cinco semanas da eleição", avalia.
As acusações de Moraes, ponto a ponto
Improbidade administrativa, crime de responsabilidade e abuso de autoridade — pela quebra de imparcialidade e favorecimento político —; usurpação da condução da investigação, que caberia à autoridade policial; irregularidade nas tratativas de colaboração premiada com Vorcaro; e direcionamento das apurações contra Moraes e Alcolumbre por motivo pessoal. Tudo formulado "em tese", com base em relatórios de inteligência da PF que Moraes anexou à petição.
O que Mendonça fez — e por quê
Relator do caso Master e do escândalo do INSS, Mendonça — ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União de Jair Bolsonaro, indicado ao STF em 2021 — retirou o sigilo do relatório da PF na terça-feira, tornando públicas as mensagens de Vorcaro; aliados dizem que agiu por transparência, críticos, que expôs Moraes deliberadamente. Ele ainda não respondeu à petição.
Fachin: cinco dias e um procedimento sem nome
O presidente do Supremo abriu "procedimento autônomo" — figura sem previsão regimental clara — e intimou os dois ministros, Gonet e Andrei Rodrigues; as respostas devem chegar até a próxima semana, e Fachin decidirá se leva o caso ao plenário, se arquiva ou se aciona o Conselho Nacional de Justiça, que não tem competência sobre ministros do STF.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o vídeo de Lula é o dado político mais relevante do dia. "O presidente ficou uma semana em silêncio enquanto seu aliado mais importante no Supremo era exposto por mensagens com um banqueiro. Falou na quinta, sem citar Moraes, pedindo que Fachin e Gonet 'liderem'. É recado duplo: não vai defender Moraes publicamente, e não vai pedir sua saída. Flávio Bolsonaro, empatado com Lula nas pesquisas, faz o oposto — pede impeachment todo dia. O eleitor vê o Supremo se acusando de crime e o Planalto pedindo calma. Quem ganha com isso é quem promete limpar tudo. A crise do STF virou tema de campanha, e a campanha tem cinco semanas", observa.
Vorcaro e o Master: o escândalo de origem
O Banco Master, de Daniel Vorcaro, cresceu vendendo CDBs com juros acima do mercado e teve a liquidação decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, após a tentativa frustrada de venda ao BRB, o banco de Brasília; a Polícia Federal, na operação Compliance Zero, prendeu o banqueiro sob suspeita de fraude com carteiras de crédito fictícias de bilhões de reais e passou a investigar a rede de relações que ele mantinha com políticos, magistrados e autoridades. As mensagens tornadas públicas por Mendonça fazem parte desse material — e é a menção a um contato atribuído a Moraes que transformou uma investigação financeira na maior crise interna da história do Supremo.
Eleição a cinco semanas: o cenário político
O primeiro turno é em 4 de outubro, e as pesquisas mostram Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico no segundo turno; a crise no Supremo — com Moraes, alvo preferencial do bolsonarismo, sob suspeita e em confronto com Mendonça, indicado por Bolsonaro — ocupa a campanha e alimenta os discursos dos dois lados. Lula tenta se distanciar sem abandonar Moraes; Flávio explora o caso como prova de que a corte precisa ser "limpa". O desfecho do procedimento aberto por Fachin pode chegar antes da urna.
Alcolumbre: o presidente do Senado no meio
Citado por Moraes como alvo de investigações direcionadas por Mendonça, Davi Alcolumbre é quem decide se pedidos de impeachment contra ministros do STF avançam no Senado; sinalizou nesta semana que, se abrir processo contra Moraes, Mendonça também será alvo — o que transforma o impeachment em instrumento de equilíbrio, não de punição.
Gonet e a PF: os outros intimados
O procurador-geral Paulo Gonet e o diretor da PF Andrei Rodrigues terão de dizer a Fachin como as investigações foram conduzidas e se houve irregularidade na tratativa de delação; as respostas podem confirmar ou desmontar a acusação de Moraes — e definir o destino de Mendonça como relator.
Inquérito 4.781: a base da petição
Aberto em 2019 pelo então presidente Dias Toffoli e relatado por Moraes desde então, o inquérito das fake news investiga ataques à corte e tem sido o instrumento de decisões monocráticas contra bolsonaristas; usá-lo para acusar um colega de ministro amplia seu alcance a um patamar que a própria corte terá de avaliar.
Impeachment de ministro: o que diz a lei
A Lei 1.079, de 1950, prevê crime de responsabilidade de ministro do STF por conduta incompatível com o cargo, julgado pelo Senado após admissão pelo presidente da Casa; nunca um ministro foi afastado por esse rito. Os pedidos contra Moraes acumulam-se desde 2021; a acusação dele contra Mendonça cria, agora, pedido em sentido oposto.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a saída depende de uma pessoa. "Fachin assumiu a presidência há um ano prometendo pacificar a corte e herdou a guerra do século. Tem cinco dias para receber explicações e depois precisa decidir algo que não tem manual: se leva ao plenário — onde Moraes e Mendonça votam —, se arquiva e deixa o Senado agir, ou se cria rito novo. Qualquer decisão vai ser lida como tomada de lado. O que o país precisa é do que Lula pediu: um processo que garanta a integridade da investigação sobre Vorcaro, seja quem for o citado. Se o Supremo não conseguir fazer isso, quem fará é a urna, em outubro", analisa.
A petição de Alexandre de Moraes contra André Mendonça no Inquérito 4.781 e a abertura de procedimento por Edson Fachin ocorreram em 3 de setembro de 2026, mesmo dia em que Lula divulgou vídeo sobre a crise, segundo a BBC News Brasil.