Explosão em quartel na Bolívia deixa mortos e mais de 50 feridos
Instalação do RAM-2 "Bolívar", em Viacha, explodiu na tarde de sexta; 52 civis estão entre os feridos, sete pessoas seguem desaparecidas e autoridades divergem sobre o número de mortos.
Explosão em quartel na Bolívia deixa mortos e mais de 50 feridos; governo confirma que local armazenava material pirotécnico
Uma explosão em uma instalação militar deixou mortos e dezenas de feridos na tarde desta sexta-feira (4) em Viacha, cidade da região de La Paz, na Bolívia. Segundo o Ministério da Defesa boliviano, citado pelo G1, o acidente ocorreu em um setor do Centro Geral de Manutenção do RAM-2 "Bolívar", onde havia material pirotécnico armazenado. O ministério confirmou 58 feridos — 52 civis e seis militares — e informou aguardar verificação adequada para divulgar o número oficial de óbitos.
Os números de mortos ainda divergem entre as fontes oficiais. O balanço inicial do governo apontava dois mortos e 59 feridos, enquanto uma diretora local de saúde afirmou que ao menos dez pessoas morreram. A polícia informou que sete pessoas estão desaparecidas, e equipes de emergência realizam buscas por possíveis vítimas nos escombros do edifício atingido.
O que se sabe sobre a explosão
O ministro da Defesa, Ernesto Justiniano Urenda, informou que a explosão ocorreu no local onde estava armazenado material pirotécnico — categoria que abrange desde fogos de artifício e sinalizadores até cargas utilizadas em treinamento militar. O setor foi isolado para atendimento às vítimas e para permitir o trabalho das equipes de resgate.
"Foi determinada a proteção e o isolamento do setor, além da manutenção de todos os recursos necessários para o atendimento aos feridos, o apoio às famílias e aos moradores afetados e a realização de uma avaliação completa dos danos", afirmou o ministro em comunicado.
Um vídeo que circula nas redes sociais e que foi reproduzido pela imprensa estatal boliviana mostra o momento da explosão. Nas imagens, várias pessoas aparecem próximas ao local, incluindo crianças. A área aparentemente estava isolada por conta de um incêndio que já havia sido registrado antes da explosão — o que sugere que o fogo pode ter atingido o depósito de material pirotécnico e provocado a detonação.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a presença de civis é o dado mais grave do balanço. "Cinquenta e dois civis feridos num acidente dentro de uma instalação militar significa que o depósito de explosivos estava perto demais de onde as pessoas vivem, ou que o isolamento após o incêndio inicial não funcionou. Qualquer uma das duas hipóteses aponta para falha de segurança, não apenas para fatalidade", avalia.
Viacha e o RAM-2 "Bolívar"
Viacha fica a cerca de 30 quilômetros de La Paz, no altiplano boliviano, e abriga unidades militares do Exército do país. O RAM-2 é um regimento cuja instalação em Viacha inclui o Centro Geral de Manutenção — estrutura destinada à conservação de equipamentos e, como se revelou, ao armazenamento de material pirotécnico. A proximidade entre esse tipo de depósito e áreas urbanas é um problema recorrente em cidades que cresceram ao redor de quartéis construídos décadas atrás, quando o entorno era despovoado.
A divergência nos números de vítimas, comum nas primeiras horas de tragédias desse tipo, reflete a dificuldade de acesso ao local e a necessidade de identificar corpos entre os escombros. O Ministério da Defesa optou por não confirmar um total oficial de mortos até concluir a verificação, enquanto autoridades de saúde locais, que recebem diretamente os feridos e os corpos, divulgaram uma estimativa mais alta.
Investigação técnica e responsabilidades
O governo boliviano anunciou que fará uma investigação técnica para apurar as causas da explosão. Segundo o Ministério da Defesa, a apuração também buscará esclarecer as condições em que o material estava armazenado e identificar possíveis responsáveis pelo incidente — uma sinalização de que as autoridades consideram a hipótese de falha humana ou de negligência nos protocolos de armazenamento.
Investigações sobre explosões em depósitos militares costumam examinar três frentes: a origem do fogo ou da ignição inicial, a adequação das condições de armazenamento (temperatura, umidade, separação entre tipos de material, distância de outras estruturas) e a resposta das equipes após o primeiro sinal de perigo. No caso de Viacha, o fato de haver um incêndio anterior à explosão torna a segunda e a terceira frentes especialmente relevantes.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a resposta do Estado será medida pela transparência. "O governo já disse que vai investigar e apontar responsáveis. A pergunta é se o resultado dessa investigação vai ser público e se vai levar a mudanças concretas nos protocolos de armazenamento em outras unidades. Explosão em depósito militar não é fenômeno isolado na América Latina; o que diferencia os países é o que fazem depois", observa.
Socorro em altitude: a logística do resgate
Viacha fica a cerca de 3.900 metros de altitude, no altiplano, e o atendimento a dezenas de feridos em um evento súbito impõe desafios específicos. Hospitais de maior complexidade estão em La Paz e em El Alto, cidades vizinhas para onde os casos mais graves precisam ser transferidos por estradas que, no altiplano, nem sempre permitem deslocamento rápido. Queimaduras extensas, traumas por onda de choque e ferimentos por estilhaços — o quadro típico de explosões de material pirotécnico — exigem unidades de queimados e cirurgia especializada, recursos concentrados nos grandes centros.
A altitude também afeta os próprios feridos: a menor disponibilidade de oxigênio no ar agrava quadros respiratórios e complica a estabilização de pacientes com lesões pulmonares causadas pela pressão da explosão. É um fator que equipes de emergência da região conhecem bem, mas que torna cada hora de atraso mais custosa.
Por que o número de mortos ainda oscila
A diferença entre os dois mortos confirmados pelo governo e os pelo menos dez relatados pela diretora local de saúde tem explicação técnica. O Ministério da Defesa trabalha com corpos identificados e registrados formalmente; a autoridade de saúde local, que recebe as vítimas nos hospitais e nos postos de atendimento, contabiliza óbitos constatados no atendimento, ainda sem identificação completa. Os sete desaparecidos informados pela polícia representam a diferença potencial entre os dois números — pessoas que podem estar entre os escombros ou que podem ter sido levadas a unidades de saúde sem registro. Em tragédias desse tipo, a convergência entre as contagens costuma ocorrer apenas após a conclusão das buscas e do trabalho de identificação forense.
Acidentes com material pirotécnico na região
Explosões envolvendo fogos de artifício e material pirotécnico armazenado de forma inadequada são uma ameaça recorrente na América Latina, tanto em instalações militares quanto em fábricas e depósitos civis. A combinação de produtos altamente inflamáveis, armazenamento em grandes quantidades e proximidade com áreas habitadas tem produzido tragédias em vários países da região ao longo das últimas décadas, frequentemente com dezenas de vítimas.
No caso boliviano, o fato de o depósito estar sob responsabilidade das Forças Armadas adiciona uma dimensão institucional ao episódio: os protocolos militares de armazenamento de explosivos são, em tese, mais rigorosos que os civis, e uma falha nesse contexto tende a gerar questionamentos sobre a supervisão da cadeia de comando.
Atendimento às vítimas
Os feridos foram encaminhados a unidades de saúde da região de La Paz. O Ministério da Defesa afirmou que todos os recursos necessários foram mobilizados para o atendimento, incluindo apoio às famílias das vítimas e aos moradores afetados pela explosão. A extensão dos danos materiais nas áreas residenciais próximas ao quartel ainda não foi detalhada pelas autoridades.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o balanço final da tragédia dependerá das próximas horas. "Sete desaparecidos, buscas em andamento nos escombros e uma diferença de oito mortos entre o que o governo confirma e o que a saúde local relata. Infelizmente, em acidentes com explosivos, o número tende a subir à medida que o resgate avança. O que a Bolívia precisa agora é de informação clara e de apoio às famílias — a investigação vem depois", analisa.
As autoridades bolivianas devem divulgar um balanço atualizado de vítimas após a conclusão das buscas e da identificação dos corpos. A investigação técnica sobre as causas da explosão não tem prazo definido para apresentar conclusões.