Gloria Steinem, ícone do feminismo nos Estados Unidos, morre aos 92 anos em casa, em Nova York
Fundação diz que ela morreu na quarta 'de forma pacífica', sem divulgar a causa; por cinco décadas lutou pelos direitos reprodutivos e foi capa da Newsweek como 'A Nova Mulher'.
Gloria Steinem, ícone do feminismo nos Estados Unidos, morre aos 92 anos em casa, em Nova York: jornalista que se disfarçou de "coelhinha" por 11 dias para denunciar a Playboy em 1963, escreveu "Depois do Black Power, a Libertação das Mulheres" em 1968, fundou a revista Ms. e o Caucus Político Nacional para Mulheres ao lado de Bella Abzug, Shirley Chisholm e Betty Friedan, e recebeu de Obama a Medalha Presidencial da Liberdade em 2013 — "eu teria me limitado à escrita se os editores me deixassem escrever sobre o movimento"
Gloria Steinem, uma das principais vozes do movimento feminista dos Estados Unidos, morreu aos 92 anos. De acordo com a fundação que leva seu nome, Steinem — que por mais de cinco décadas lutou pelos direitos reprodutivos e por mais participação das mulheres na política, além de fundar publicações e diferentes organizações — morreu em sua casa, em Nova York, na quarta-feira (2 de setembro), "de forma pacífica". A causa não foi divulgada. As informações são do G1.
Fundadora da Ms., revista que existe desde a década de 1970, escrita por mulheres e dedicada à cobertura de notícias ligadas ao feminismo, Steinem emergiu como nome forte da segunda onda do feminismo americano no fim dos anos 1960 e, desde então, lutou por mais direitos e pela inclusão das mulheres na vida política dos Estados Unidos e do mundo. Anos depois, revelou que ingressou no ativismo após ter diversas reportagens sobre o feminismo negadas nas publicações em que trabalhou no início da carreira: teria se limitado à escrita se os editores estivessem dispostos a deixá-la escrever sobre o movimento — "então, acabei saindo para falar em público, o que era o meu pesadelo", disse à Associated Press em 2015. Fez trabalhos marcantes no jornalismo e ganhou prêmios: em 1963, uma reportagem sobre as condições degradantes no império da Playboy, de Hugh Hefner, para a qual se disfarçou de "coelhinha" durante 11 dias; em 1968, o artigo "Depois do 'Black Power', a Libertação das Mulheres", na New York Magazine, que ajudou a fundar, consolidou-a como líder feminista num período de intensas transformações, e logo depois foi capa da Newsweek como "A Nova Mulher". No ativismo, encabeçou manifestações que forçaram o Congresso a ampliar os direitos das mulheres; fundou o Caucus Político Nacional para Mulheres em 1971, com as ex-deputadas Bella Abzug e Shirley Chisholm e a escritora Betty Friedan — cujo livro "A Mística Feminina", de 1963, inaugurou a segunda onda —; criou a Coalizão de Mulheres Sindicalistas, o Centro de Mídia de Mulheres, a Eleitores pela Escolha e a Fundação Ms. para as Mulheres; e, em 2013, recebeu do então presidente Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil do país.
A jornalista que virou movimento: por que Steinem definiu meio século de feminismo
Nascida em Toledo, Ohio, em 1934, filha de um vendedor itinerante e de uma jornalista que abandonou a carreira por depressão — experiência que ela citaria como origem de sua consciência sobre o que a sociedade fazia com as mulheres —, Gloria Steinem formou-se em Smith College, passou dois anos na Índia com bolsa de estudos, onde absorveu o ativismo gandhiano, e chegou a Nova York nos anos 1960 como freelancer numa imprensa que aceitava mulheres para escrever sobre moda e casamento; a reportagem da Playboy, em que documentou salários baixos, exames médicos invasivos e assédio nas boates de Hefner, deu-lhe fama e o rótulo de "ex-coelhinha" que a perseguiu por décadas — e a lição de que a imprensa masculina não a levaria a sério. O artigo de 1968 e a cobertura de uma audiência sobre aborto em 1969 a transformaram na figura pública da segunda onda: bonita, articulada, de óculos aviador e cabelo com mechas, ela era a feminista que a televisão aceitava mostrar, o que gerou tanto alcance quanto críticas de radicais que a viam como palatável demais; a resposta foi construir instituições — a Ms., primeira revista de circulação nacional feita por e para mulheres, lançada em 1972 com 300 mil exemplares esgotados em oito dias; o Caucus, que levou mulheres a cargos eletivos; a Fundação Ms., que financia grupos de base — e levar o feminismo a sindicatos, minorias e ao Sul global, com a insistência de que a causa das mulheres era inseparável da luta racial e de classe. Steinem foi alvo do FBI, de conservadoras como Phyllis Schlafly e de feministas que discordavam de sua postura sobre pornografia e transexualidade; casou-se pela primeira vez aos 66 anos, com o ativista David Bale, morto em 2003; e seguiu ativa até os 90, apoiando Hillary Clinton e Kamala Harris e alertando, após a derrubada do direito ao aborto em 2022, que "a reação é prova de que avançamos". Sua morte, num ano em que os Estados Unidos têm um governo que restringe direitos reprodutivos e um vice que celebra o retorno das mulheres ao lar, fecha uma era — e reabre o debate que ela começou.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, Steinem foi a prova de que jornalismo e ativismo podem ser a mesma coisa. "Ela queria escrever sobre o movimento e os editores não deixaram; então foi para a rua, o que era seu pesadelo, e virou o movimento. Disfarçou-se de coelhinha para denunciar a Playboy, fundou a revista que nenhum homem quis publicar, colocou mulheres no Congresso e ganhou a medalha de Obama. Morreu aos 92, em casa, no ano em que o vice-presidente elogia tradwives e a Suprema Corte já derrubou o aborto que ela defendeu por cinquenta anos. O portal registra sua morte porque o que ela fez nos Estados Unidos as brasileiras fizeram aqui com menos crédito — e porque cada leitora de Araras que trabalha, vota e decide sobre o próprio corpo deve algo a quem, em 1968, escreveu que depois do Black Power viria a libertação das mulheres", avalia.
A reportagem da Playboy: 1963
Aos 28 anos, Steinem trabalhou 11 dias como "coelhinha" na boate de Hefner em Nova York e publicou na revista Show um relato de salários irrisórios, uniformes que feriam, exames ginecológicos obrigatórios e assédio de clientes; o texto a tornou conhecida e o rótulo a acompanhou — ela dizia que o levava como medalha.
Ms.: a revista das mulheres
Lançada em 1972 como encarte da New York Magazine e depois como publicação independente, com Steinem entre as fundadoras, a Ms. esgotou a primeira tiragem em dias e tornou-se a voz nacional do feminismo — aborto, trabalho, violência doméstica, política —, sobrevivendo a crises financeiras e existindo até hoje sob a Fundação Ms.
Caucus Político Nacional para Mulheres: 1971
Fundado com Abzug, Chisholm e Friedan para recrutar, treinar e eleger mulheres, o Caucus foi decisivo na multiplicação de candidaturas femininas nas décadas seguintes; Chisholm, primeira negra no Congresso, disputou a presidência em 1972 com o apoio de Steinem — que a via como o futuro do movimento.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o legado de Steinem é institucional antes de ser simbólico. "Muita gente lembra os óculos e a frase; o que ficou foram as instituições — revista, fundação, caucus, centro de mídia, coalizão sindical — que continuam funcionando sem ela. É a diferença entre ícone e construtora. Ela também foi criticada, por radicais e por conservadoras, e aceitou a crítica como parte do trabalho. O portal registra que o feminismo que Steinem organizou nos Estados Unidos chegou ao Brasil pelas mesmas revistas e pelas mesmas redes — e que a Ms. de 1972 é a avó de toda publicação feminina séria, inclusive das que hoje cobrem violência doméstica no interior paulista", observa.
Betty Friedan e a segunda onda
"A Mística Feminina", de 1963, deu nome ao mal-estar da dona de casa americana e abriu a segunda onda; Friedan e Steinem, aliadas e rivais, representaram duas gerações e dois estilos — a organização das donas de casa de classe média e a política das jovens, das minorias e das trabalhadoras —, e juntas fundaram o Caucus.
Obama e a Medalha da Liberdade
Em 2013, ao condecorá-la, o presidente disse que Steinem "despertou uma revolução" e ajudou o país a "se tornar mais justo"; a honraria, a mais alta para civis, reconheceu meio século de ativismo — e foi entregue num momento em que o direito ao aborto que ela defendia ainda vigorava, o que mudaria em 2022.
Críticas e controvérsias
Radicais a acusaram de feminismo "de vitrine"; conservadoras, de destruir a família; ela discordou de setores do movimento sobre pornografia e, em 2016, foi criticada por comentário sobre jovens que apoiavam Bernie Sanders, pelo qual se desculpou; Steinem tratava as divergências como sinal de um movimento vivo.
2026: o mundo que ela deixa
Direito ao aborto derrubado pela Suprema Corte em 2022, governo Trump restringindo direitos reprodutivos, tradwives em alta e um vice-presidente que celebra o retorno ao lar — o cenário em que Steinem morre é o oposto do que construiu; sua última mensagem pública, segundo a fundação, foi de que "a reação é prova de que avançamos".
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a morte de Steinem deveria ser lida ao lado das notícias da semana. "No mesmo dia em que a Folha entrevista a autora de um livro sobre tradwives que fingem submissão e faturam milhões, morre a mulher que fundou a revista que dizia às americanas que elas não precisavam fingir nada. Cinquenta anos separam as duas notícias, e o pêndulo voltou. Steinem sabia: dizia que reação é prova de avanço. O portal registra sua vida, de Toledo à Medalha da Liberdade, e o alerta que deixa — o direito que se conquista se perde se ninguém sair para a rua, mesmo que seja o seu pesadelo", analisa.
A morte de Gloria Steinem, jornalista e ícone do movimento feminista dos Estados Unidos, aos 92 anos, em sua casa em Nova York, ocorreu em 2 de setembro de 2026 e foi anunciada pela fundação que leva seu nome, conforme noticiou o G1 em 3 de setembro; fundadora da revista Ms. e do Caucus Político Nacional para Mulheres, ela recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade em 2013.