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Autora de best-seller faz sátira sombria das 'tradwives' nos EUA

"Existe uma certa ironia: essas mulheres que fingem submissão e que não saem de casa muitas vezes são as provedoras de seus lares", disse Burke à BBC Radio 2; performance online é o tema.

Capa do artigo Autora de best-seller faz sátira sombria das 'tradwives' nos EUA
— Foto: Albert Dorne / Wikimedia Commons (Public domain)

"Influenciadoras que fingem submissão aos maridos são as mesmas que administram impérios multimilionários": autora americana Caro Claire Burke, cujo best-seller "Bons Tempos: Yesteryear" chega ao Brasil pela Rocco e será adaptado ao cinema por Anne Hathaway, faz sátira sombria das tradwives — a protagonista, influenciadora de 32 anos com cinco filhos numa fazenda de Idaho, acorda em 1855 e descobre que os "bons tempos" que romantiza não eram nada agradáveis

Em frente às câmeras, elas promovem e imitam os papéis tradicionais de gênero, retratando seus maridos como os grandes provedores, enquanto se dedicam à criação dos filhos e à manutenção da casa. Mas, no mundo real, pagam as contas de toda a família com o seu trabalho e administram impérios multimilionários. Para a autora americana Caro Claire Burke, o retrato é parte da grande ironia que ilustra o fenômeno das influenciadoras que se apresentam como esposas tradicionais — as tradwives, na expressão em inglês. Burke é autora de "Bons Tempos: Yesteryear", sucesso de vendas na Europa e nos Estados Unidos que acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Rocco e será adaptado para o cinema por Anne Hathaway. As informações são da BBC News Brasil.

A obra de ficção conta a história de Natalie Heller Mills, de 32 anos, casada, mãe de cinco filhos e grávida do sexto, que narra a milhões de seguidores a vida aparentemente idílica da família numa fazenda de 200 hectares em Idaho: prepara pães de fermentação natural, educa os filhos em casa, bebe leite não pasteurizado da própria vaca e coleta ovos das galinhas — "as meninas" — todas as manhãs, com um cintilante sorriso no rosto, pelo menos enquanto a câmera está ligada. A vida perfeita é uma fachada cuidadosamente construída, convincente e lucrativa — até o dia em que ela acorda em 1855, no mesmo passado que romantiza, e os "bons tempos" rapidamente deixam de parecer agradáveis. Em entrevista ao programa Book Club, da BBC Radio 2, em abril, Burke falou da ironia: "Existe uma certa ironia aí, porque essas mulheres que fingem submissão e que não saem de casa muitas vezes são as provedoras de seus lares, muitas vezes administram impérios multimilionários. É uma grande contradição". Para a autora, a forma como outras mulheres se definem "não é da conta de ninguém" — mas, quando essas figuras propagam crenças nas redes usando uma imagem que é apenas performance, o tema se torna digno de discussão: "Tenho muito interesse em como todos nós, de certa forma, performamos o tempo todo, tanto online quanto na vida real. É como um efeito de espelho distorcido". Burke diz não ter se inspirado em pessoa específica, mas passou muitas horas pesquisando tradwives — "alguém que coloca essas ideias em prática online, geralmente ganhando bastante dinheiro" — e escolheu o tema por estar "na interseção de todas as conversas possíveis sobre mulheres": maternidade, trabalho, economia e cultura. Sobre o tom de "sátira sombria", confessa ter se assustado com as próprias palavras: "O humor e o medo foram coisas que fiz meio que por instinto".

O fenômeno tradwife: de nicho conservador a indústria bilionária

O termo — contração de "traditional wife" — nasceu em fóruns conservadores americanos na década de 2010 e explodiu no TikTok e no Instagram a partir da pandemia, com criadoras que exibem vida rural, cozinha do zero, muitos filhos, vestidos de época e devoção ao marido como estética e como ideologia; as mais famosas, como Hannah Neeleman, do Ballerina Farm, ex-bailarina de Juilliard com oito filhos numa fazenda em Utah, e Nara Smith, modelo que prepara chiclete e cereal em casa para milhões de seguidores, somam audiências de dezenas de milhões e receitas de marcas, produtos próprios e publicidade que fazem delas — não dos maridos — as principais fontes de renda da família. É essa contradição que Burke transforma em sátira: a submissão performada é um produto, e o produto sustenta o império. O gênero tem também dimensão política — parte das criadoras se alinha ao movimento cristão-nacionalista e à pauta antifeminista da direita americana, e o vice-presidente Vance já elogiou o "retorno" das mulheres ao lar —, o que explica a repercussão de um romance que envia a protagonista ao 1855 real: sem antibióticos, sem anestesia no parto, sem direito a propriedade ou voto, com mortalidade infantil de um em cinco. A adaptação por Anne Hathaway — produtora e provável protagonista — garante que a discussão chegue ao cinema; no Brasil, onde criadoras de conteúdo "de esposa" e "de dona de casa" crescem no mesmo ritmo, com pautas religiosas e políticas semelhantes, a Rocco aposta no debate.

Para , editor do portal, a ironia que Burke aponta é o retrato da economia da atenção. "A tradwife mais famosa do mundo é uma empresária de dezenas de milhões de dólares que vende a imagem de que não trabalha. O marido, provedor no vídeo, é sócio de um negócio que a mulher administra. Burke não julga quem escolhe ficar em casa — diz que 'não é da conta de ninguém' —; julga a performance vendida como verdade a milhões de mulheres que não têm fazenda em Idaho nem contrato com marca. O romance manda a personagem para 1855 e mostra o que 'bons tempos' significava: morrer no parto, perder filhos, não ter nome próprio. É sátira, e é história. O portal, que acompanha o que se vende como vida nas redes, registra: o passado idealizado é sempre de quem nunca viveu nele", avalia.

Natalie Heller Mills: a personagem

Trinta e dois anos, cinco filhos, o sexto a caminho, 200 hectares em Idaho, milhões de seguidores, pão de fermentação natural, leite cru, galinhas com apelido — e uma equipe, contratos e um marido que é figurante do próprio império; a viagem a 1855 é o teste: a mulher que vende o passado precisa sobreviver nele. O romance alterna presente e passado e só no fim explica como e por que ela foi parar lá.

Caro Claire Burke: a autora

Escritora americana em seu primeiro romance de grande repercussão, Burke pesquisou por meses o universo das tradwives nas redes, afirma não ter se baseado em ninguém específico e define o livro como sátira sombria com humor e medo "por instinto"; a entrevista ao Book Club da BBC Radio 2, em abril, acompanhou o lançamento britânico.

Anne Hathaway no cinema

A atriz e produtora adquiriu os direitos de adaptação, sem data de lançamento; o interesse de Hathaway — que já produziu e estrelou histórias sobre mulheres e performance — sugere um filme com a mesma mistura de comédia e horror do livro.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o livro chega ao Brasil no momento certo. "As tradwives brasileiras existem, com outros nomes — 'esposa de', 'mulher virtuosa', 'dona de casa raiz' —, com a mesma estética de fazenda, a mesma religiosidade e o mesmo modelo de negócio: a submissão como conteúdo, o conteúdo como renda, a renda como poder que o discurso nega. Burke faz o que a crítica não consegue: leva a sério a fantasia e a testa contra a realidade de 1855. É mais eficaz que qualquer coluna feminista, porque é engraçado. O portal recomenda o livro — e a pergunta que ele faz a quem consome esse conteúdo: se os bons tempos eram tão bons, por que ninguém que os viveu queria voltar?", observa.

1855: os "bons tempos" reais

Nos Estados Unidos da década de 1850, a mulher casada não podia ter propriedade, assinar contrato ou votar; o parto matava uma em cada cem gestantes e um em cada cinco bebês morria antes de um ano; não havia anestesia acessível, antibióticos ou anticoncepção; e o trabalho doméstico numa fazenda era de 14 horas por dia — o cenário em que Burke coloca a protagonista.

Performance online: o tema de fundo

A autora estende a crítica a todos: "performamos o tempo todo, online e na vida real"; as tradwives são o caso extremo de uma cultura em que a vida é roteirizada para a câmera e a autenticidade é o produto mais vendido — o "espelho distorcido" que a ficção pode explorar melhor que o jornalismo.

Política e religião: a dimensão ideológica

Parte do movimento tradwife se conecta ao nacionalismo cristão americano, à pauta contra o feminismo e ao discurso de figuras como J. D. Vance sobre natalidade e família; no Brasil, o equivalente aparece em igrejas e em criadoras ligadas à direita. Burke evita a polêmica direta e ataca pela ironia.

No Brasil: a Rocco e o público

A editora lança o livro com título bilíngue — "Bons Tempos: Yesteryear" — e aposta no público de ficção contemporânea e no debate sobre redes sociais; o sucesso europeu e americano e a adaptação de Hathaway garantem visibilidade, e o tema — mulheres, trabalho, maternidade, performance — é dos mais discutidos nas redes brasileiras.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a frase da autora resume um negócio. "Fingir submissão dá dinheiro — muito. É a ironia que Burke expõe e que o mercado já sabia: a tradwife é uma CEO cujo produto é parecer que não é. O livro faz o que a sátira faz de melhor: leva a fantasia ao limite e mostra o que acontece quando ela vira real. Que chegue ao Brasil pela Rocco e ao cinema por Hathaway é sinal de que o tema saiu do TikTok para a cultura. O portal registra — e sugere a quem segue essas contas que leia o livro antes de comprar a próxima receita de pão", analisa.

A entrevista de Caro Claire Burke sobre "Bons Tempos: Yesteryear", romance satírico sobre as influenciadoras tradwives lançado no Brasil pela Editora Rocco e com adaptação ao cinema por Anne Hathaway, foi publicada pela BBC News Brasil em 5 de setembro de 2026, com base na conversa da autora com o programa Book Club, da BBC Radio 2, em abril.

Fontes e referências

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