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Milei elogia ditadura de Pinochet em evento no Chile

Milei citou Kast, Keiko Fujimori e De la Espriella como sinais de que "a América Latina está despertando" e deixou La Moneda sem falar à imprensa.

Capa do artigo Milei elogia ditadura de Pinochet em evento no Chile
— Foto: Vox España / Wikimedia Commons (CC0)

Milei exalta a ditadura de Pinochet em Santiago e diz que o Chile foi "a inveja de toda a região" sob o regime que matou, torturou e fez desaparecer milhares: em evento da Fundação Disenso, ligada ao Vox, a oito dias dos 53 anos do golpe contra Allende, o presidente argentino chama o período de "estabilidade e crescimento", convoca a direita latino-americana a se organizar contra a esquerda — "o mal organizado é derrotado pelo bem organizado" — e se reúne com José Antonio Kast em La Moneda

O presidente da Argentina, Javier Milei, exaltou a ditadura do Chile na quinta-feira (3 de setembro) ao chamar o regime de Augusto Pinochet — marcado por milhares de casos de tortura, assassinato e desaparecimento forçado — de "período de estabilidade e crescimento". "Graças a ele, o Chile foi, sem dúvida, a inveja de toda região em termos econômicos. No entanto, apesar de haver conhecido os frutos da liberdade, caiu na farsa do socialismo do século 21, como o restante da região", afirmou. A ditadura, encerrada em 1990, suprimiu direitos humanos, o devido processo legal e as liberdades política e de expressão. As informações são da Folha.

A declaração foi dada no evento anual Foro Madrid, em Santiago, organizado pela Fundação Disenso, ligada ao deputado ultradireitista espanhol Santiago Abascal, do partido Vox; no dia 11, o Chile relembra os 53 anos do golpe que matou Salvador Allende e levou Pinochet ao poder. Milei convocou a direita latino-americana a se articular contra a esquerda, que acusou de "colonizar" instituições, universidades e meios de comunicação: "O mal organizado é derrotado pelo bem organizado, não há outra maneira". Apresentou o Chile como exemplo do avanço conservador após a chegada ao poder do ultradireitista José Antonio Kast, em março — "O Chile voltou a apostar nas ideias da liberdade. Despertou, assim como a América Latina está despertando" — e citou os casos de Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia. O argentino tem histórico de relativizar ditaduras como a chilena e a argentina, usualmente acompanhado de ataques à esquerda. Depois da fala, reuniu-se por cerca de 40 minutos com Kast no Palácio de La Moneda e deixou o local sem falar com a imprensa; os dois compartilham posições favoráveis ao livre mercado e postura de linha dura contra a criminalidade e a imigração ilegal.

O regime que Milei chama de "estabilidade": os números

Entre 11 de setembro de 1973 e 11 de março de 1990, a ditadura de Pinochet matou ou fez desaparecer mais de 3.200 pessoas e torturou cerca de 40 mil, segundo as comissões Rettig e Valech — relatórios oficiais do Estado chileno —, fechou o Congresso, proscreveu partidos, censurou a imprensa e exilou centenas de milhares; a Operação Condor, coordenada com as ditaduras da Argentina, do Brasil, do Uruguai e do Paraguai, perseguiu opositores além das fronteiras. O "milagre" econômico dos Chicago Boys — privatizações, abertura e a Constituição de 1980 — conviveu com a crise de 1982, quando o PIB caiu 14% e o desemprego passou de 20%, e com uma das maiores desigualdades da região; o crescimento sustentado chileno veio, sobretudo, nas três décadas de democracia que se seguiram, sob governos de centro-esquerda e centro-direita que mantiveram o modelo e o reformaram. É essa história que o presidente argentino resume como "frutos da liberdade" — em Santiago, a uma semana da data que os chilenos marcam com velas no Estádio Nacional.

Para , editor do portal, a fala de Milei é calculada, não casual. "Um presidente estrangeiro vai a Santiago, a oito dias do 11 de setembro, num evento do Vox, e diz que a ditadura que matou 3 mil e torturou 40 mil foi a inveja da região. Não é gafe — é programa. Milei quer reescrever a memória do Cone Sul para que a direita não precise mais pedir desculpas por 1973 e 1976; Kast, filho de imigrante alemão que sempre defendeu Pinochet, recebe em La Moneda e não corrige. Depois vem a convocação: 'o bem organizado derrota o mal organizado'. É linguagem de cruzada, não de política. O Brasil, que teve sua própria ditadura relativizada por um presidente há poucos anos, sabe onde isso leva: a comissões da verdade sendo ignoradas e a golpe sendo chamado de revolução", avalia.

Foro Madrid e Vox: a rede da ultradireita ibero-americana

Criado em 2020 por Santiago Abascal como contraponto ao Foro de São Paulo, o Foro Madrid reúne partidos e líderes de ultradireita da Espanha e da América Latina — Vox, Milei, Kast, bolsonaristas, entre outros — em torno de uma carta contra o "comunismo" e a "agenda globalista"; a Fundação Disenso, braço de pensamento do Vox, organiza os encontros anuais. Santiago sediou o de 2026 com Kast no poder, o que deu ao evento status de reunião de governo.

Kast: o presidente que defende Pinochet

José Antonio Kast, do Partido Republicano, tomou posse em março de 2026 após vencer o segundo turno de dezembro; irmão de um ministro de Pinochet e defensor público do regime em várias ocasiões, moderou o discurso na campanha, mas não retratou posições anteriores. O encontro de 40 minutos com Milei, sem imprensa, evitou que o chileno fosse cobrado sobre as declarações do argentino.

Milei e as ditaduras: o histórico

Desde a campanha de 2023, Milei e sua vice, Victoria Villarruel, questionam o número de 30 mil desaparecidos da ditadura argentina, defendem "memória completa" que equipare guerrilha e repressão, e reduziram políticas de direitos humanos; a exaltação de Pinochet é coerente com essa linha e ecoa a tese de que a repressão foi resposta necessária ao "socialismo".

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a economia que Milei cita desmente o próprio argumento. "O Chile cresceu de verdade depois de 1990, com democracia, com Concertación e com direita moderada mantendo o modelo e reduzindo a pobreza de 40% para menos de 10%. Sob Pinochet, teve a crise de 1982, a pior da região, e a desigualdade que a Constituição de 1980 cristalizou. Se Milei quer apontar sucesso econômico chileno, deveria citar Aylwin, Lagos e Piñera — não o general. Chama de 'farsa do socialismo do século 21' o Chile de Bachelet, que era social-democracia com superávit fiscal. A conta não fecha; o discurso não é econômico, é ideológico, e o público do Vox sabe disso", observa.

11 de setembro de 1973: o golpe

Aviões bombardearam La Moneda, Allende morreu no palácio e uma junta militar liderada por Pinochet assumiu com apoio dos Estados Unidos; seguiram-se prisões em massa — o Estádio Nacional virou campo de detenção —, execuções e a instalação de 17 anos de regime. O Chile lembra a data anualmente com atos oficiais e marchas, e a memória permanece dividida entre gerações e classes.

Keiko Fujimori e De la Espriella: os outros exemplos

Milei citou a peruana Keiko Fujimori — filha do ex-presidente Alberto Fujimori, condenado por crimes contra a humanidade — e o colombiano Abelardo de la Espriella, que nesta semana posou ao lado de cadáveres de supostos rebeldes, como sinais do "despertar" latino-americano; são os aliados com quem o argentino constrói o eixo que anunciou em Santiago.

Reação no Chile: memória e política

Organizações de direitos humanos, familiares de desaparecidos e parlamentares de oposição repudiaram as declarações e cobraram posição de Kast; o governo chileno não comentou. A semana que antecede o 11 de setembro costuma ser tensa, e a visita de Milei acrescentou combustível.

A direita latino-americana em 2026: o mapa

Argentina, Chile, Colômbia, Peru e El Salvador têm governos de direita ou ultradireita; o Brasil decide em outubro entre Lula e Flávio Bolsonaro, empatados nas pesquisas; Milei se apresenta como articulador do bloco, com apoio de Trump. A exaltação de Pinochet é o teste de até onde essa direita quer ir na revisão do passado.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o episódio deve ser lido no Brasil como aviso. "Milei diz em Santiago o que parte da direita brasileira diz em voz baixa: que ditadura foi estabilidade, que tortura foi excesso, que a esquerda 'colonizou' tudo e que o bem precisa se organizar. A Argentina tem 30 mil desaparecidos; o Chile, 3 mil mortos; o Brasil, 434 reconhecidos pela Comissão da Verdade. Nenhum país que se respeite trata isso como detalhe econômico. Que o candidato que quiser o voto brasileiro em outubro diga, com clareza, se concorda com o que Milei falou em La Moneda. O portal vai perguntar", analisa.

As declarações de Javier Milei sobre a ditadura de Augusto Pinochet foram feitas em 3 de setembro de 2026, no Foro Madrid, em Santiago, e noticiadas pela Folha; o presidente argentino reuniu-se em seguida com José Antonio Kast no Palácio de La Moneda.

Fontes e referências

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