Influenciador de extrema direita relata 'brutalidade' do ICE ao ser deportado
Departamento de Segurança Interna diz que ele excedeu o visto de 2019; Yiannopoulos, de 41 anos, afirma ser casado com americano e ter green card, e conta que 'chorou por uma hora' ao chegar.
Milo Yiannopoulos, influenciador britânico de extrema direita e defensor ferrenho da política anti-imigração de Trump, relata "brutalidade institucionalizada" do ICE ao ser deportado dos Estados Unidos: preso no aeroporto de Nova Orleans e devolvido ao Reino Unido, ele descreveu a Piers Morgan algemas nas mãos e nos pés "encadeadas juntas", transferências sem informação entre centros de detenção e "muito, muito medo" — "me admira ver setores do governo se alinharem com uma mentira"
Antes defensor ferrenho da política anti-imigração de Donald Trump, o influenciador de extrema direita britânico Milo Yiannopoulos disse ter sido tratado com "brutalidade" pelo ICE ao ser deportado. Mandado de volta ao Reino Unido na semana passada, ele falou pela primeira vez sobre o caso em entrevista à TV britânica, ao apresentador Piers Morgan, divulgada na terça-feira (1º de setembro). As informações são do G1.
Apoiador de Trump, o influencer fazia forte campanha a favor dos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, que vêm caçando e detendo imigrantes pelos Estados Unidos; na semana passada, porém, tornou-se alvo — foi detido e depois deportado, sob a alegação do governo de que vivia de forma irregular no país. "Eu não tinha ideia de como a brutalidade estava institucionalizada nos Estados Unidos", disse. "Eles colocam algemas, nas suas mãos e pés, e encadeiam tudo junto. Parece que todo mundo que é preso é membro de uma gangue. E dói muito mais do que parece na televisão. Eu senti o que é ter muito, muito medo." Descreveu a experiência como "humilhante" e "desorientadora", relatou transferências de um centro de detenção a outro sem qualquer informação — "eu sei que é feito para ser assim, mas é muito amedrontador" — e contou que, ao chegar ao Reino Unido, deu-se conta do trauma e "chorou por uma hora". Defensor de Trump até a própria deportação, criticou o governo: "Me admira ver vários setores do governo dos Estados Unidos se alinharem com uma mentira", em referência à justificativa da Casa Branca. O Departamento de Segurança Interna, ao qual o ICE está vinculado, alegou que Yiannopoulos entrou legalmente em maio de 2019 mas "optou por permanecer no país além do prazo permitido, violando as leis de nossa nação"; ele nega: "Eu sou casado com um americano. Não há nenhuma razão pela qual eu faria isso" — vivia nos Estados Unidos havia dez anos e, após casar-se, obteve o green card a que cônjuges de cidadãos têm direito. Yiannopoulos, de 41 anos, foi preso na quinta-feira (27 de agosto) no Aeroporto Internacional Louis Armstrong, em Nova Orleans.
O provocador deportado: quem é Milo e por que sua queda diz tanto sobre o ICE de 2026
Milo Yiannopoulos foi, entre 2014 e 2017, o rosto mais barulhento da "alt-right" americana — editor do Breitbart de Steve Bannon, estrela de turnês universitárias em que zombava de feministas, muçulmanos e imigrantes, banido do Twitter por assédio racista à atriz Leslie Jones, e derrubado em 2017 quando gravações em que relativizava abuso sexual de menores lhe custaram o emprego, o contrato de livro e o convite da conferência conservadora CPAC; ressurgiu em 2020 anunciando-se "ex-gay" convertido, aproximou-se de figuras como Kanye West e Nick Fuentes e, no segundo governo Trump, voltou a produzir conteúdo em apoio ao ICE — os mesmos agentes que o algemaram em Nova Orleans. A deportação, sob a acusação de ter excedido o visto de 2019, é juridicamente banal — milhares de estrangeiros são removidos por "overstay" todo mês — e politicamente reveladora: o ICE de 2026, com meta de milhares de prisões por dia e centros de detenção lotados, não distingue aliado de adversário, e a defesa de Yiannopoulos — casamento com americano e green card — é a mesma que dezenas de milhares de imigrantes com vínculos legais apresentam e perdem em audiências sumárias; o relato de algemas nas mãos e nos pés encadeadas, transferências sem informação e medo é o que organizações de direitos humanos documentam há um ano e meio, e que a direita, incluindo ele, chamava de exagero da imprensa. A entrevista a Piers Morgan tem valor de testemunho de conversão — "eu não tinha ideia" — e de espelho: o homem que fez carreira dizendo que imigrantes deviam ser tratados com dureza descobriu a dureza. Para o Brasil, com milhares de cidadãos em centros do ICE e voos semanais de deportados algemados — tema de protesto do Itamaraty em 2025 —, o depoimento de um aliado de Trump confirma o que os brasileiros já relatavam: a brutalidade não é acidente, é método.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a história de Milo é justiça poética que não deveria ser necessária. "O sujeito que passou dez anos dizendo que imigrante merece algema descobriu como é a algema — nas mãos, nos pés, encadeadas — e chorou uma hora quando desceu em Londres. Não há prazer nisso; há confirmação. Tudo o que ele descreve — transferência sem aviso, medo, humilhação — os brasileiros deportados em 2025 contaram, e a direita chamou de vitimismo. Agora quem conta é um deles. O portal registra a entrevista e a frase mais honesta de Milo em vinte anos: 'eu não tinha ideia'. Tinha, sim; só achava que era para os outros. Que sirva de aviso a quem, em Araras ou em Boston, ainda acha que o ICE só pega quem merece", avalia.
A prisão em Nova Orleans e a deportação
Detido em 27 de agosto no aeroporto Louis Armstrong ao embarcar ou desembarcar, Yiannopoulos passou dias em centros de detenção, foi transferido sem informação e deportado ao Reino Unido na semana seguinte; o DHS alega overstay desde 2019; ele afirma ter green card por casamento — documento que, se válido, tornaria a remoção ilegal sem processo.
O relato: algemas, correntes, medo
"Algemas nas mãos e nos pés, tudo encadeado", "como se todo preso fosse de gangue", "dói mais do que parece na TV", "muito, muito medo", "humilhante e desorientador" — a descrição coincide com relatórios de organizações de direitos humanos sobre os centros do ICE e com depoimentos de brasileiros deportados em voos fretados.
Quem é Milo Yiannopoulos
Britânico, 41 anos, ex-editor do Breitbart, figura da alt-right entre 2014 e 2017, banido do Twitter por assédio racista, afastado após falas sobre abuso de menores, "ex-gay" autodeclarado desde 2020, aliado de Kanye West e Nick Fuentes, e, até agosto, propagandista do ICE; casado com um americano, vivia nos Estados Unidos havia uma década.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o caso mostra a máquina de deportação sem freio. "O ICE de 2026 tem meta de prisões por dia, e meta se cumpre com quem está à mão — inclusive um aliado do presidente com green card. Se o documento existe, a deportação foi ilegal; se não existe, Milo mentiu por dez anos. Nos dois casos, a máquina funcionou como funciona com todo mundo: prende, algema, transfere, deporta, e discute depois. O portal registra que o governo diz uma coisa e o deportado outra, e que a Justiça americana, com centenas de milhares de casos na fila, não vai resolver logo. A brutalidade que Milo descobriu é a que o brasileiro de Framingham conhece — e que o Itamaraty protestou e o ICE ignorou", observa.
Green card e overstay: a disputa jurídica
Cônjuge de cidadão americano tem direito a residência permanente, mas o processo exige petição, entrevista e aprovação; o DHS sustenta que Yiannopoulos nunca regularizou o status após o visto de 2019; ele afirma ter o green card; a diferença define se houve deportação legal de irregular ou remoção ilegal de residente.
O ICE em 2026: metas, centros e denúncias
Com ordem de milhares de prisões diárias, o ICE ampliou centros de detenção, contratou prisões privadas e passou a deter pessoas com vínculos legais e sem antecedentes; relatórios apontam superlotação, uso rotineiro de correntes e transferências para dificultar defesa — práticas que aliados do governo negavam e que Milo agora confirma.
Brasileiros deportados: o mesmo relato
Em 2025, voos com brasileiros algemados nas mãos e nos pés, sem água e ar-condicionado, provocaram protesto formal do Brasil e mudança de rota para Fortaleza; os depoimentos de então — correntes, medo, transferências sem aviso — são idênticos ao de Yiannopoulos, o que dá ao relato do influenciador valor de corroboração involuntária.
A direita e o espelho
Aliados de Trump reagiram com silêncio ou com a tese de que Milo "violou a lei"; críticos do ICE usam a entrevista como prova de que a brutalidade é política, não exceção; para o próprio Yiannopoulos, a deportação encerra a fase americana de uma carreira construída sobre a defesa de tratar estrangeiros como ele foi tratado.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o depoimento vale mais que qualquer relatório de ONG. "Quando a Anistia denuncia correntes no ICE, a direita diz que é propaganda; quando o Milo Yiannopoulos, editor do Breitbart e propagandista do ICE, diz que as correntes doem e que teve medo, não há como desmentir. É o testemunho que a máquina de deportação não queria produzir. O portal registra e observa que o governo Trump acabou de perder seu melhor argumento — 'só pegamos criminosos' — pelas mãos de um aliado que, ao que tudo indica, tinha green card. Quem mais tem?", analisa.
A entrevista de Milo Yiannopoulos a Piers Morgan sobre sua detenção pelo ICE em Nova Orleans, em 27 de agosto de 2026, e a deportação para o Reino Unido foi divulgada em 1º de setembro e noticiada pelo G1 em 2 de setembro; o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos afirma que o influenciador permaneceu no país além do prazo de seu visto de 2019, o que ele nega.