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Tribunal de Malta absolve o magnata Yorgen Fenech, de 44 anos

Galizia mantinha o blog Running Commentary, participou dos Panama Papers e enfrentou 36 processos por difamação em nove meses; o caso derrubou o premiê Joseph Muscat em 2020.

Capa do artigo Tribunal de Malta absolve o magnata Yorgen Fenech, de 44 anos
— Foto: Diego Delso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Tribunal de Malta absolve o magnata Yorgen Fenech, de 44 anos, da acusação de ter encomendado o assassinato da jornalista investigativa Daphne Caruana Galizia, morta por uma bomba no carro em 2017: júri decidiu por 8 votos a 1, após oito horas de deliberação, absolvê-lo de cumplicidade em homicídio e associação criminosa — cinco pessoas já foram condenadas por fornecer e detonar o explosivo, e a família da jornalista afirma que "as falhas institucionais que permitiram sua morte continuam sem resposta e sem reformas"

Um tribunal de Malta absolveu na quarta-feira (2 de setembro) o magnata Yorgen Fenech, de 44 anos, da acusação de ter encomendado o brutal assassinato, em 2017, da jornalista investigativa Daphne Caruana Galizia. Fenech respondia por cumplicidade em assassinato e associação criminosa para cometer o crime e foi absolvido das duas acusações por 8 votos a 1, após oito horas de deliberação do júri; se condenado, poderia pegar prisão perpétua. As informações são da Folha.

O assassinato de Galizia chocou a Europa, provocou uma crise política em Malta e levantou questionamentos sobre a atuação da polícia e da Justiça do país. Familiares de Fenech comemoraram a decisão no tribunal de Valletta, enquanto parentes da jornalista choravam. "As falhas institucionais que permitiram sua morte continuam sem resposta e sem reformas", afirmou a família em comunicado. Segundo a acusação, Fenech queria matar Galizia porque ela estaria prestes a divulgar informações sobre ele; o magnata nega. A jornalista foi assassinada quando deixava sua casa em Mosta, perto de Valletta — uma bomba colocada em seu carro explodiu enquanto ela dirigia. Mantinha o blog Running Commentary, em que publicava investigações de corrupção envolvendo políticos locais de diferentes correntes, e participava das investigações internacionais conhecidas como Panama Papers, sobre contas offshore ligadas a suspeitas de fraude e sonegação. O caso levou à renúncia do então primeiro-ministro Joseph Muscat, em janeiro de 2020, após indignação e protestos em massa provocados pela percepção de que ele tentava proteger amigos e aliados da investigação — o premiê nunca foi ligado ao crime. Nos nove meses anteriores ao assassinato, Galizia enfrentou 36 processos de difamação em Malta. Até agora, cinco pessoas foram condenadas por envolvimento: em junho do ano passado, dois homens foram sentenciados à prisão perpétua por fornecer a bomba, e os três que executaram o crime cumprem penas de prisão.

Quem matou Daphne: nove anos depois, Malta pune os executores e absolve o suposto mandante

Daphne Caruana Galizia era, em 2017, a jornalista mais lida e mais odiada de Malta — seu blog tinha mais audiência que os jornais do país, e suas investigações atingiam o governo trabalhista de Muscat, a oposição nacionalista, empresários e o próprio Fenech, herdeiro de um dos maiores grupos econômicos da ilha, com casinos, hotéis e participação na usina de energia que o governo contratara; a bomba de 16 de outubro de 2017, detonada por controle remoto quando ela saía de casa, foi o assassinato de jornalista mais chocante da União Europeia em décadas, e a investigação — pressionada pelo Parlamento Europeu, pela família e por jornalistas de todo o mundo que continuaram seu trabalho no projeto Daphne — levou, em 2019, à prisão de Fenech ao tentar deixar o país em seu iate, à revelação de que ele controlava a empresa offshore 17 Black, citada por Galizia como fonte de pagamentos a assessores de Muscat, e à confissão do intermediário Melvin Theuma, que, sob imunidade, afirmou ter contratado os assassinos a pedido do magnata; Muscat renunciou, o chefe de gabinete Keith Schembri foi indiciado por outros crimes, e um inquérito público concluiu em 2021 que o Estado maltês "criou uma atmosfera de impunidade" que tornou o assassinato possível. O júri de 2026, porém, não se convenceu: a defesa atacou a credibilidade de Theuma — que gravou conversas, mudou versões e tinha motivo para transferir a culpa — e a ausência de prova documental do pagamento, e nove jurados, por 8 a 1, absolveram Fenech de encomendar o crime que cinco outros foram condenados por executar. O resultado repete um padrão que o jornalismo conhece — de Jamal Khashoggi a Marielle Franco, os que apertam o gatilho são punidos e o mandante escapa ou demora — e deixa Malta, menor país da União Europeia e o de pior avaliação em Estado de direito no bloco, com a pergunta que a família fez: se não foi Fenech, quem mandou? Para a imprensa europeia, a absolvição é derrota; para o Estado maltês, é a prova de que as reformas prometidas em 2021 — proteção a jornalistas, fim dos processos abusivos como os 36 que Galizia enfrentava — não avançaram. No Brasil, onde o caso Marielle levou oito anos para chegar aos mandantes, a lição é conhecida.

Para , editor do portal, a absolvição de Fenech é o desfecho que a família de Daphne temia desde 2017. "Cinco condenados: dois que venderam a bomba, três que a detonaram. E o homem que a promotoria diz que pagou — dono da offshore que a jornalista investigava, preso fugindo de iate — sai absolvido por 8 a 1 porque a testemunha-chave é um intermediário com imunidade que mudou de versão. É o roteiro de todo assassinato de jornalista: o executor é pobre e vai preso; o mandante é rico e tem advogado. Marielle, Khashoggi, Daphne. O portal registra a decisão de Valletta e a frase da família — 'as falhas institucionais continuam sem resposta' — porque é a mesma frase que se diz no Rio, em Istambul e em qualquer lugar onde matar quem investiga sai barato. Nove anos, uma bomba, cinco presos e nenhum mandante", avalia.

O crime: 16 de outubro de 2017, Mosta

Galizia saiu de casa de carro; uma bomba sob o assento, detonada por sinal de celular, matou-a instantaneamente; o atentado ocorreu meses depois de ela publicar sobre a 17 Black e semanas após eleições em que o governo Muscat foi reeleito — e enquanto ela respondia a 36 processos de difamação movidos por políticos e empresários.

Fenech: o magnata, a 17 Black e a prisão no iate

Herdeiro do grupo Tumas, com hotéis, casinos e participação na usina Electrogas, Fenech foi identificado em 2018 como dono da 17 Black, offshore de Dubai que Galizia ligara a pagamentos a assessores do governo; preso em novembro de 2019 ao tentar deixar Malta de iate, foi indiciado como mandante com base na delação do intermediário Melvin Theuma.

O júri: 8 a 1 e a testemunha que não convenceu

Oito horas de deliberação, nove jurados, absolvição por 8 votos a 1 nas duas acusações; a defesa desmontou a credibilidade de Theuma — gravações seletivas, versões contraditórias, imunidade — e apontou ausência de prova direta de pagamento; a promotoria pode recorrer, e a família cobra investigação de outros possíveis mandantes.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o caso é sobre um Estado que falhou antes da bomba. "O inquérito público de 2021 disse com todas as letras: Malta criou a atmosfera de impunidade que permitiu o assassinato. Trinta e seis processos de difamação contra uma jornalista em nove meses — é assédio judicial como política de Estado, e é o que se faz no Brasil com jornalista de interior que investiga prefeitura. Daphne morreu porque ninguém a protegeu, e o mandante escapou porque a prova depende de um delator conveniente. O portal registra a absolvição e a pergunta da família: se não foi ele, quem foi? Malta não tem resposta, e a Europa, que tanto protestou, também não", observa.

Muscat, Schembri e a queda do governo

As revelações de 2019 sobre ligações entre Fenech e o gabinete do primeiro-ministro provocaram protestos em massa; Muscat renunciou em janeiro de 2020; seu chefe de gabinete, Keith Schembri, foi indiciado por lavagem e corrupção em outros casos; nenhum dos dois foi acusado pelo assassinato, e o inquérito público responsabilizou o Estado pela "atmosfera de impunidade".

Os condenados: quem executou

Os irmãos Degiorgio e Vincent Muscat, executores, confessaram e cumprem penas; em junho de 2025, dois homens foram condenados à perpétua por fornecer a bomba; o intermediário Theuma tem imunidade; com a absolvição de Fenech, o crime tem executores, fornecedores e intermediário condenados — e mandante nenhum.

Panama Papers e o Running Commentary

Galizia integrou o consórcio que revelou os Panama Papers em 2016, expondo offshores de ministros malteses; seu blog, com audiência superior à dos jornais, atacava corrupção em todos os partidos e tornou-a alvo de processos, ameaças e, por fim, da bomba; jornalistas de 18 países continuaram suas investigações no Projeto Daphne.

Jornalistas assassinados: o padrão global

Em mais de 80% dos assassinatos de jornalistas no mundo, os mandantes nunca são condenados, segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas; Khashoggi, Marielle Franco, Ján Kuciak na Eslováquia e Daphne em Malta seguem o roteiro — executores punidos, mandantes livres ou julgados tarde; a absolvição de Fenech reforça a estatística.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a decisão de Valletta tem lição direta para o jornalismo brasileiro. "Daphne foi processada 36 vezes em nove meses antes de ser morta — assédio judicial que quebra o jornalista pequeno antes de qualquer bomba. No Brasil, o jornalista de cidade média que investiga licitação conhece o método. O portal, que publica sobre Araras e sobre poder, registra a absolvição de Fenech e o que ela ensina: a investigação sobre quem manda matar jornalista precisa de prova que não dependa só de delator — e de um Estado que queira encontrá-la. Malta não quis; nove anos depois, o resultado é 8 a 1", analisa.

A absolvição do magnata maltês Yorgen Fenech da acusação de ter encomendado o assassinato da jornalista Daphne Caruana Galizia, morta por uma bomba em seu carro em outubro de 2017, foi decidida por júri em Valletta em 2 de setembro de 2026, por 8 votos a 1, e noticiada pela Folha; cinco pessoas já foram condenadas pela execução do crime, e a família da jornalista afirma que as falhas institucionais seguem sem resposta.

Fontes e referências

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