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Embaixadora do Brasil nos EUA segue no cargo apesar do visto revogado

Visto foi revogado em 4 de agosto na disputa pelo agrément; diplomata não é "persona non grata", mas precisará de novo visto se sair do país.

Capa do artigo Embaixadora do Brasil nos EUA segue no cargo apesar do visto revogado
— Foto: José Cruz/Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 br)

Um mês depois de ter o visto revogado pelo governo Trump, a embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, segue no cargo em Washington com exposição reduzida: Itamaraty descreve "compasso de espera" — sem novas pressões americanas, mas sem reversão da medida — enquanto o indicado de Trump para Brasília, Daniel Perez, se prepara para assumir sem o aval de Lula

Um mês após ter o visto revogado pelo governo Donald Trump, a embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, continua exercendo normalmente suas funções em Washington, embora tenha reduzido a exposição pública em meio à crise diplomática entre os dois países. Fontes do Itamaraty afirmam que a postura também se relaciona ao período eleitoral brasileiro, quando diplomatas tendem a reduzir aparições para evitar que suas atividades sejam interpretadas como participação na campanha; ainda assim, interlocutores dizem que Viotti tem preferido não se expor em ocasiões em que, em circunstâncias normais, compareceria. As informações são da Folha.

A avaliação é que, desde a medida contra a diplomata, Washington não adotou novas ações para aumentar a pressão — mas tampouco reverteu a restrição imposta no início de agosto. Dentro da diplomacia brasileira, a situação é descrita como compasso de espera, com a percepção de que a relação parou de se deteriorar após a retomada do contato direto entre Lula e Trump por telefonema; apesar da sensação de cenário mais positivo do que há um mês, há cautela diante da imprevisibilidade do governo republicano. O Departamento de Estado revogou o visto de Viotti em 4 de agosto, em meio à disputa sobre a concessão do agrément — o aval do país anfitrião — a Daniel Perez, indicado por Trump para a embaixada dos Estados Unidos em Brasília; antes do anúncio, Viotti teve reunião no Departamento de Estado e foi avisada de que teria o visto alterado caso o Brasil não concedesse o aval. O Departamento afirmou que ela não havia sido declarada "persona non grata", o que lhe permitiu permanecer: na prática, a embaixadora pode continuar no país e exercer suas funções, mas precisará de novo visto caso deixe o território americano e queira retornar. Em paralelo, o indicado de Trump se prepara para Brasília sem o aval de Lula.

Da tarifa de 50% ao visto da embaixadora: dois anos de crise

A relação entre Brasília e Washington entrou em colapso em julho de 2025, quando Trump impôs tarifa de 50% a produtos brasileiros citando o julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo, aplicou a Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes e revogou vistos de ministros do STF e de autoridades do governo; o encontro casual entre Lula e Trump na Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025, e o telefonema seguinte abriram uma trégua parcial — tarifas sobre alguns produtos foram reduzidas, e canais técnicos reabertos. A disputa de 2026 é de outra natureza: Trump indicou Daniel Perez, aliado do bolsonarismo, para a embaixada em Brasília; o Brasil, como todo país tem direito, demorou a conceder o agrément; Washington respondeu punindo a embaixadora brasileira com a revogação do visto — pressão inédita entre os dois países, que sinaliza que o novo embaixador americano chegará à capital brasileira sem o aval formal do governo Lula. A cinco semanas da eleição em que Lula enfrenta Flávio Bolsonaro, cada gesto de Washington é lido como interferência, e é por isso que Viotti trabalha "fora dos holofotes".

Para , editor do portal, a situação de Viotti é um retrato preciso do que restou da relação. "A embaixadora do Brasil não pode sair dos Estados Unidos, porque não volta; o embaixador americano vai chegar ao Brasil sem o aval do presidente brasileiro. É um impasse de manual — e é onde os dois países decidiram ficar até outubro. Trump 'morde e assopra': elogia a 'boa relação' com o Brasil sem citar Lula e mantém a punição à diplomata. Lula fala ao telefone e não cede o agrément. O Itamaraty chama de compasso de espera; o nome certo é congelamento até a eleição. Se Flávio ganhar, Perez chega com tapete vermelho e Viotti volta; se Lula ganhar, a disputa recomeça em janeiro. Enquanto isso, uma embaixadora de carreira, ex-representante na ONU, trabalha em silêncio numa capital que a puniu por fazer seu trabalho", avalia.

Agrément: a regra que Washington tentou forçar

Pela Convenção de Viena, um país precisa aceitar previamente o embaixador que outro pretende enviar — o agrément —, e pode recusá-lo ou demorar sem justificativa; é prerrogativa de soberania usada com discrição por todos os governos. A pressão americana para obtê-lo por meio de punição à embaixadora brasileira é rara entre países que mantêm relações normais e foi lida no Itamaraty como coerção.

Daniel Perez: o indicado

Aliado de Trump com ligações com o bolsonarismo, Perez foi indicado para Brasília no início de 2026; sem o agrément, pode chegar como encarregado de negócios ou aguardar, e o Departamento de Estado sinaliza que ele "se prepara" para assumir. Um embaixador sem aval é anomalia que limita seu acesso ao governo anfitrião.

"Persona non grata" x revogação de visto: a diferença

Declarar um diplomata persona non grata obriga o país de origem a retirá-lo; revogar o visto, como fez Washington, mantém a embaixadora no posto, mas a aprisiona no território — não pode viajar ao Brasil para consultas, nem a terceiros países, sem risco de não voltar. É punição calibrada para pressionar sem romper.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o telefonema entre Lula e Trump é o que sustenta o equilíbrio. "Depois da tarifa, da Magnitsky e do visto, os dois presidentes voltaram a falar diretamente — e isso parou a queda. Não resolveu nada: a tarifa parcial continua, o visto continua, o agrément continua pendente. Mas o canal existe, e, num governo tão imprevisível quanto o de Trump, canal direto é o único seguro. O Itamaraty está certo em não fazer barulho: em ano eleitoral, qualquer ruído vira palanque para os dois lados. O que o portal observa é que Trump não incluiu o Brasil na viagem de Rubio pela região — Colômbia, Peru, Equador, todos governos de direita. O recado é claro e a resposta de Brasília, até outubro, é silêncio", observa.

Maria Luiza Viotti: quem é a embaixadora

Diplomata de carreira, ex-representante permanente do Brasil na ONU — onde presidiu o Conselho de Segurança — e ex-chefe de gabinete do secretário-geral António Guterres, Viotti é uma das figuras mais respeitadas do Itamaraty e assumiu Washington em 2023; a punição a ela foi vista como ataque à instituição, não à pessoa.

Eleição brasileira: por que a discrição

Diplomatas brasileiros reduzem aparições públicas no período eleitoral para não parecer que promovem o governo; no caso de Viotti, a cautela é dupla — evitar atritos com Washington e evitar que sua presença em eventos seja explorada por campanhas. A embaixada mantém a agenda técnica e comercial normalmente.

Trump e o Brasil: o "morde e assopra"

Nesta semana, Trump disse manter "boa relação" com o Brasil, sem citar Lula, e elogiou países da região que "estão indo para a direita"; a Folha registra que energia, narcotráfico e influência política são os vetores de sua política latino-americana — e que o Brasil, maior economia da região, está fora do roteiro de Rubio. O visto de Viotti é peça dessa engrenagem.

O que pode acontecer depois de outubro

Vitória de Lula: negociação sobre o agrément e o visto recomeça, provavelmente com concessões mútuas; vitória de Flávio Bolsonaro: Perez é aceito, a punição a Viotti perde sentido e a embaixadora pode ser substituída pelo novo governo. Em ambos os casos, o compasso de espera termina em janeiro.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a notícia é sobre o preço da soberania. "O Brasil demorou a aceitar um embaixador — direito de qualquer país — e a resposta foi punir a nossa embaixadora. Washington faz isso porque pode e porque o Brasil não retaliou. Lula escolheu o telefone em vez do confronto, e está certo em ano de eleição; mas a conta fica em aberto. Viotti trabalha em Washington sem poder sair; Perez chega a Brasília sem ser aceito. Dois embaixadores em situação irregular entre as duas maiores democracias das Américas. É o estado da relação em setembro de 2026, e o portal registra com a esperança de que, em janeiro, alguém a conserte", analisa.

A situação da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, um mês após a revogação de seu visto pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos em 4 de agosto de 2026, foi relatada pela Folha em 4 de setembro de 2026; a medida ocorreu em meio à disputa sobre o agrément a Daniel Perez, indicado de Donald Trump para a embaixada em Brasília.

Fontes e referências

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