Nissan testa em São Paulo o NX8, SUV médio-grande anti-BYD desenvolvido com a Dongfeng
Flagra em ruas paulistanas indica que o modelo é cotado para renovar a linha da marca na região até 2027; versão 100% elétrica existe na China, e a Nissan ainda não confirmou o lançamento no Brasil.
Nissan testa em São Paulo o NX8, SUV médio-grande anti-BYD desenvolvido com a Dongfeng: 4,87 m, porta-malas de 773 litros, duas telas de 15,6", geladeira na cabine e autonomia estendida de até 1.450 km com motor 1.5 turbo gerador e bateria de 43,2 kWh
A Nissan segue firme no desenvolvimento do NX8, SUV médio-grande criado em parceria com a chinesa Dongfeng — e o carro já foi flagrado rodando pelas ruas de São Paulo, pelo perfil @carsbystef, sinal de que a marca se prepara para competir com rivais como a BYD no mercado brasileiro. O modelo integra a renovação do portfólio regional da Nissan até o fim de 2027 e mede 4,87 metros de comprimento, com entre-eixos de 2,92 metros e porta-malas de 773 litros. A Nissan ainda não oficializou o lançamento no Brasil; a circulação do protótipo indica que planeja fazê-lo. As informações são do Canaltech.
O maior diferencial é a configuração de autonomia estendida — REEV —, em que as rodas são tracionadas exclusivamente pelo motor elétrico, enquanto um propulsor 1.5 turbo a gasolina atua apenas como gerador para recarregar a bateria de 43,2 kWh. A solução livra o motorista da dependência de pontos de recarga em viagens longas e oferece alcance combinado de até 1.450 quilômetros. No mercado chinês, o modelo também tem variante 100% elétrica.
Cabine: duas telas de 15,6" e geladeira
O interior do NX8 aposta em tecnologia e conforto: duas telas de 15,6 polegadas — painel e central multimídia —, painel com realidade aumentada para navegação, bancos traseiros multifuncionais e um refrigerador embutido na cabine. É o pacote que os SUVs chineses de porte médio-grande oferecem no Brasil — BYD Song Plus e Tan, GWM Haval H9, Denza B5 — e que as marcas tradicionais, com interiores mais sóbrios, têm dificuldade de igualar. A Nissan, ao desenvolver o carro com a Dongfeng, adota o padrão chinês de equipamento.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o NX8 é a Nissan admitindo que precisa de um carro chinês para enfrentar os chineses. "A Nissan tem fábrica em Resende, o Kicks e o Versa — e nada acima disso. A BYD e a GWM chegaram com SUV médio-grande híbrido, tela grande, geladeira, 1.400 km de autonomia, e o consumidor que comprava Nissan foi para lá. A resposta é o NX8, feito com a Dongfeng — a sócia chinesa da Nissan há 20 anos —, com a mesma receita: REEV, bateria grande, cabine de nave. Se vier com preço competitivo e produção ou montagem local, é o melhor produto que a Nissan traz ao Brasil em uma década", avalia.
REEV: como funciona
A arquitetura de autonomia estendida difere do híbrido convencional: o motor a combustão nunca move as rodas — funciona apenas como gerador, em regime constante e eficiente, para carregar a bateria que alimenta o motor elétrico. O resultado é a sensação de dirigir um elétrico — torque instantâneo, silêncio, resposta linear — com a segurança de um tanque de gasolina. Com 43,2 kWh de bateria, o NX8 deve rodar mais de 200 km em modo elétrico puro antes de o gerador entrar; com o tanque cheio, os 1.450 km de alcance combinado equivalem a São Paulo–Brasília sem parar. É a mesma tecnologia do Leapmotor C10, da Stellantis, e a que o mercado brasileiro absorve com mais facilidade, pela infraestrutura de recarga ainda limitada.
Dongfeng: a parceira chinesa
A Dongfeng é uma das maiores montadoras estatais da China e sócia da Nissan em joint venture desde 2003 — a Dongfeng Nissan produz milhões de carros por ano para o mercado chinês. A parceria para o NX8 usa a plataforma e a engenharia de eletrificação da Dongfeng, muito mais avançadas que as da Nissan em REEV, com design e marca japoneses. É o modelo que outras montadoras tradicionais adotam para não perder a corrida elétrica: Stellantis com Leapmotor, Volkswagen com Xpeng, Toyota com GAC. A Nissan, em crise global e em reestruturação, precisa da Dongfeng para ter produto competitivo rapidamente.
773 litros: o SUV de família
Com 4,87 metros e porta-malas de 773 litros, o NX8 se posiciona acima do Kicks e do X-Trail, no segmento dos SUVs médio-grandes de sete lugares ou de cinco com grande bagageiro — o território do Toyota SW4, do Jeep Commander, do Haval H9 e do BYD Tan. É o carro da família que viaja, do executivo que quer espaço e da frota corporativa premium. O entre-eixos de 2,92 m garante espaço traseiro generoso, e os bancos multifuncionais — reclináveis, deslizantes — reforçam a proposta de conforto.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o segmento é o mais disputado de 2027. "SUV grande híbrido é onde a margem está: R$ 250 mil, R$ 300 mil por unidade, e o brasileiro de alta renda comprando. A BYD tem o Tan e o Denza B5, a GWM tem o H9, a Toyota vai ter o SW4 híbrido, a Stellantis prepara o Commander eletrificado. O NX8 chega nessa briga com 1.450 km de autonomia e geladeira — argumentos que vendem. O que decide é preço e assistência: a Nissan tem rede no Brasil inteiro, que os chineses ainda constroem. Se o NX8 vier com preço de Haval H9 e rede de Nissan, tem chance real", observa.
Kait, Kicks e a renovação da Nissan
O NX8 é a ponta de cima de uma renovação que começou com o Kait — o SUV compacto lançado para rivalizar com o Volkswagen Tera e o Renault Kardian — e que deve incluir novas gerações do Kicks e do Versa até 2027. A Nissan do Brasil, com fábrica em Resende e participação de mercado em queda nos últimos anos, aposta na eletrificação e no padrão chinês de equipamento para recuperar espaço. O NX8, se confirmado, seria o primeiro modelo REEV da marca no país e o topo da gama.
1.450 km: o argumento contra a ansiedade
O alcance combinado é o número que a Nissan vai colocar no anúncio, e por boa razão: a principal objeção do brasileiro ao carro eletrificado é a viagem longa sem carregador. Com 1.450 km — bateria mais tanque —, o NX8 cobre a distância entre capitais sem abastecer e roda a semana urbana só na bateria. É o mesmo argumento que fez do BYD Song Plus e do Haval H6 os híbridos mais vendidos do país, e que a Nissan, sem híbrido de autonomia estendida até agora, não podia usar.
Flagra: o que o protótipo revela
O carro visto em São Paulo rodava sem camuflagem pesada, o que indica fase avançada de testes — homologação, calibração para combustível e clima brasileiros, avaliação de rede. Protótipos em teste no país precisam de aprovação do Inmetro para emissões e consumo, do Contran para segurança e da própria marca para durabilidade; o flagra em via pública costuma anteceder em seis a doze meses o lançamento. Se o cronograma "até o fim de 2027" se confirmar, o NX8 deve ser apresentado oficialmente em 2027.
Nissan em crise: o contexto global
O NX8 chega num momento delicado para a marca. A Nissan atravessa desde 2024 uma das piores crises de sua história — prejuízo bilionário, fechamento de fábricas no Japão e no exterior, corte de milhares de empregos e a tentativa fracassada de fusão com a Honda —, resultado de portfólio envelhecido, atraso na eletrificação e perda de mercado na China e nos EUA. A parceria com a Dongfeng para produtos REEV e elétricos é parte do plano de recuperação: usar a engenharia da sócia chinesa para ter carros competitivos sem o custo de desenvolvê-los sozinha. Para a operação brasileira, o NX8 é a chance de mostrar que a marca ainda tem futuro na região — e o teste de se a matriz manterá o investimento.
Importado ou nacional
A questão em aberto é a origem: importado da China, com imposto de importação crescente, ou montado em Resende, com componentes chineses. A segunda opção é a que faz sentido para preço e para o Mover — o programa de incentivos que exige produção local — e é a que a Nissan adotou com o Kait. Montagem local de um SUV grande REEV exigiria investimento na fábrica fluminense, que hoje produz Kicks e Versa; a decisão diria muito sobre o compromisso da marca com o Brasil.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o NX8 é sintoma de uma indústria que mudou de mão. "Vinte anos atrás, a Nissan ensinava a Dongfeng a fazer carro. Hoje a Dongfeng entrega à Nissan a plataforma, a bateria e o REEV, e a Nissan coloca o logotipo. É a inversão completa — e não é só a Nissan: é a Stellantis com Leapmotor, a Volkswagen com Xpeng. O carro 'japonês' que vai enfrentar a BYD no Brasil é chinês por dentro. O consumidor não vai se importar se o produto for bom e a assistência funcionar. A indústria, sim: quem domina a tecnologia domina o século. E, em 2026, ela está em Wuhan, não em Yokohama", analisa.
A Nissan não confirmou oficialmente o lançamento do NX8 no Brasil nem divulgou preço ou data. O modelo integra o plano de renovação do portfólio da marca na região até o fim de 2027.