Azzas 2154, dona de Farm, Hering, Animale e Schutz
'Cada companhia operará com administração separada e acesso independente ao mercado de capitais', dizem os sócios; a fusão foi concluída em 2024, e as mudanças no comando começaram nove meses depois.
Azzas 2154, dona de Farm, Hering, Animale e Schutz, anuncia cisão menos de dois anos após a fusão que criou um dos maiores grupos de moda do país: separação cria a Arezzo&Co, liderada pelo bloco de Alexandre Birman, e a SOMA, sob o bloco de Roberto Jatahy, ambas no Novo Mercado da B3, e a Farm será compartilhada numa sociedade com 57,4% da primeira e 42,6% da segunda — decisão vem após trocas no conselho, ação judicial de Jatahy contra Birman em maio e queda de 62,5% no lucro recorrente do segundo trimestre
A Azzas 2154, conglomerado de moda que reúne marcas como Farm, Hering, Animale e Schutz, será dividida menos de dois anos após sua criação. A separação, anunciada na quarta-feira (2 de setembro), criará duas empresas — Arezzo&Co, liderada pelo bloco de Alexandre Birman, e SOMA, sob comando do bloco de Roberto Jatahy —, ambas listadas no Novo Mercado da B3, com estruturas próprias de administração e governança. As informações são do G1.
A companhia surgiu em 2024, a partir da fusão entre a Arezzo&Co e o Grupo Soma, união que criou um dos maiores grupos de moda do país; desde então, a empresa passou por mudanças que culminaram na decisão de separar novamente os negócios. A operação prevê a criação de uma sociedade específica para reunir a Farm e suas extensões, com participação de 57,4% da Arezzo&Co e 42,6% da SOMA. No comunicado ao mercado, Birman e Jatahy afirmam que a separação permitirá estrutura mais adequada aos diferentes negócios: "A reorganização tem por propósito permitir que cada companhia resultante opere com administração separada, com foco em seus respectivos modelos de negócios e oportunidades de mercado, além de acesso direto e independente ao mercado de capitais e a outras fontes de financiamento". A decisão acontece após um período de divergências entre os dois grupos de acionistas e mudanças na estrutura de comando: ao longo do último ano, a Azzas passou por alterações no conselho de administração e na governança, em meio aos impasses entre os principais grupos de acionistas, com um processo judicial de Jatahy contra Birman em maio; as mudanças no alto escalão ganharam força em maio de 2025, apenas nove meses após a conclusão da fusão. A separação ocorre também em meio a resultados mais fracos: no segundo trimestre deste ano, o lucro líquido recorrente caiu 62,5% em relação ao mesmo período de 2025.
A fusão que não deu certo: como Arezzo e Soma viraram Azzas e voltaram a ser duas
Quando Arezzo&Co — a empresa de calçados e bolsas de Alexandre Birman, herdeiro da família fundadora, dona de Arezzo, Schutz, Anacapri, Alexandre Birman e Reserva — e Grupo Soma — a holding carioca de Roberto Jatahy, dona de Farm, Animale, Hering, Maria Filó e NV — anunciaram a fusão em fevereiro de 2024, o mercado a celebrou como a criação de um gigante de R$ 12 bilhões de receita, 34 marcas e 2 mil lojas, com sinergias de logística, compras e e-commerce estimadas em centenas de milhões de reais, e um nome, Azzas 2154, que somava as iniciais e os anos de fundação; o que os analistas apontavam como risco — dois fundadores com estilos opostos, o mineiro executivo e o carioca criativo, dividindo o comando — materializou-se em nove meses: disputas sobre quem controlava marcas, orçamento e conselho, saída de executivos, troca de presidentes do conselho, o processo judicial de Jatahy contra Birman em maio de 2026 e um resultado que desabou — lucro recorrente 62,5% menor no segundo trimestre, com Hering perdendo margem e as sinergias prometidas não aparecendo — enquanto a ação caía mais de metade desde a fusão. A cisão é a admissão do erro: cada bloco leva de volta o que trouxe — Birman, calçados e Reserva; Jatahy, Animale, Hering e as marcas de vestuário — e a Farm, a joia do grupo, a marca de estampas que virou fenômeno global com lojas em Nova York e Paris, fica compartilhada em sociedade com maioria da Arezzo&Co, arranjo que garante a Birman participação no ativo mais valioso e a Jatahy, criador da marca, gestão e 42,6%. Para o varejo brasileiro, é a segunda grande fusão a se desfazer em poucos anos, depois da Americanas com o B2W e do fracasso de Via com Casas Bahia, e a lição é a de sempre: sinergia em planilha não sobrevive a dois donos que não se entendem. Para as fábricas de Hering em Santa Catarina e para as 2 mil lojas — inclusive as de Campinas e Ribeirão que atendem o interior —, a separação traz incerteza de comando e, os sócios prometem, foco.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a cisão da Azzas é caso de estudo sobre fusão de fundadores. "Dois empresários brilhantes, duas empresas boas, uma fusão que fazia sentido no papel — e nove meses depois estavam brigando pelo conselho, um ano depois na Justiça, dois anos depois separados, com o lucro caindo 62% e a ação pela metade. Não foi o mercado, foi a governança: fusão de iguais com dois donos não tem dono. A Farm, que é o que vale, fica dividida — Birman com a maioria, Jatahy com a gestão —, o que promete a próxima briga. O portal registra e observa que o varejo de moda brasileiro perdeu dois anos de estratégia numa disputa de ego, enquanto Shein e os chineses tomavam o mercado. Que a separação devolva o foco que a fusão tirou", avalia.
As duas novas empresas
Arezzo&Co, com Birman: calçados, bolsas, Arezzo, Schutz, Anacapri, Reserva e maioria da Farm; SOMA, com Jatahy: Animale, Hering, Maria Filó, NV e 42,6% da Farm; ambas no Novo Mercado, com conselhos, diretorias e acesso ao mercado de capitais próprios — a estrutura de antes de 2024, ajustada.
Farm: a marca compartilhada
Criada por Jatahy e Marcello Bastos nos anos 1990, a Farm é a marca de maior crescimento e valor do grupo, com expansão internacional e licenciamentos; a sociedade específica — 57,4% Arezzo&Co, 42,6% SOMA — mantém a marca sob gestão do bloco criador com participação majoritária do outro, arranjo que exigirá acordo de acionistas detalhado.
Da fusão à briga: a cronologia
Fevereiro de 2024, anúncio; agosto de 2024, conclusão; maio de 2025, primeiras mudanças no comando; ao longo de 2025, trocas no conselho e saída de executivos; maio de 2026, ação judicial de Jatahy contra Birman; agosto de 2026, resultado do segundo trimestre com lucro 62,5% menor; setembro, cisão.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o resultado financeiro é a causa e a consequência. "Lucro caindo 62% não é só briga de sócio — é Hering perdendo margem, sinergia que não veio, e um grupo que gastou energia em disputa interna enquanto o consumo de moda desacelerava e a concorrência chinesa crescia. A cisão pode ser boa se cada lado voltar a operar o que sabe; pode ser ruim se a Farm, compartilhada, virar campo de batalha. O portal registra e lembra ao investidor: o mercado gostou da fusão em 2024 e vai gostar da cisão em 2026 — o que deveria ensinar algo sobre como o mercado avalia governança", observa.
O que os sócios prometem
Administração separada, foco nos modelos de negócio, acesso independente ao capital — o comunicado conjunto sugere que a separação é consensual e amigável; a ação judicial de maio, porém, mostra o grau de desgaste, e os termos financeiros da cisão — dívidas, marcas, sinergias desfeitas — serão detalhados aos acionistas.
Hering e as fábricas: o impacto industrial
A Hering, com fábricas em Santa Catarina e milhares de empregos, vai para a SOMA de Jatahy; a marca, comprada pela Arezzo em 2021 e integrada ao grupo na fusão, perdeu margem nos últimos trimestres e é o ativo que mais precisa de gestão focada — o argumento que a cisão invoca.
Fusões que se desfazem: o padrão brasileiro
Americanas e B2W, Via e Casas Bahia, e agora Azzas — o varejo brasileiro coleciona uniões que prometeram escala e entregaram disputa; fusões entre fundadores com participações semelhantes e culturas distintas são as mais frágeis, e o mercado de capitais, que premia o anúncio, raramente pune a execução até o resultado cair.
O consumidor e as lojas: o que muda
Nada imediato: as marcas seguem operando, as lojas abertas, o e-commerce funcionando; a médio prazo, cada empresa define estratégia própria de preço, expansão e coleções — e a Farm, compartilhada, terá de conciliar dois acionistas em cada decisão de crescimento.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a Azzas é um nome que nasceu grande e morreu jovem. "Dois anos, 34 marcas, um nome inventado, uma fusão comemorada e uma cisão anunciada com o mesmo comunicado educado — é o ciclo completo de uma ideia que só fazia sentido para quem não teria de conviver com ela. O portal registra a separação e a Farm dividida em 57 e 43 — número que promete voltar às páginas de negócios. Que Birman e Jatahy, separados, vendam roupa; juntos, venderam manchete", analisa.
O anúncio da cisão da Azzas 2154 em duas empresas — Arezzo&Co, sob o bloco de Alexandre Birman, e SOMA, sob o bloco de Roberto Jatahy —, com a Farm compartilhada em sociedade de 57,4% e 42,6%, foi feito ao mercado em 2 de setembro de 2026 e noticiado pelo G1; a fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma havia sido concluída em 2024, e o lucro recorrente do grupo caiu 62,5% no segundo trimestre de 2026.