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Finanças

EUA criam 162 mil vagas em agosto, quase três vezes mais que o previsto, e desemprego fica em 4,1%

Julho foi revisado de perda de 23 mil para ganho de 21 mil; mercados davam 52% de chance de aumento na reunião de setembro após Waller sinalizar preferência por manter.

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— Foto: Diego Delso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

EUA criam 162 mil vagas em agosto, quase três vezes mais que o previsto, e desemprego fica em 4,1%: mercado de trabalho estável mantém aberta a possibilidade de alta de juros pelo Fed em setembro; hipoteca de 30 anos vai a 6,71%, maior em um ano

A criação de vagas nos Estados Unidos acelerou acentuadamente em agosto: a economia abriu 162 mil postos fora do setor agrícola, quase três vezes a previsão de 56 mil dos economistas consultados pela Reuters, enquanto a taxa de desemprego se manteve em 4,1%. O dado de julho foi revisado de uma perda de 23 mil vagas para um ganho de 21 mil. O relatório do Escritório de Estatísticas do Trabalho, divulgado nesta sexta-feira (4), indica um mercado de trabalho ainda estável — e mantém em aberto a possibilidade de o Federal Reserve elevar os juros na reunião de 15 e 16 de setembro. As informações são da Folha de S.Paulo.

As estimativas dos analistas variavam de uma perda de 25 mil empregos a um ganho de 121 mil — o resultado superou até a projeção mais otimista. O dinamismo do mercado havia desacelerado após uma disparada na primavera, em parte pelo choque nos preços do petróleo e pelas tensões na cadeia de oferta decorrentes da guerra liderada pelos EUA contra o Irã.

O Fed diante do dado

Antes do relatório, os mercados haviam reduzido as apostas em alta de juros: o diretor do Fed Christopher Waller afirmou na quinta-feira (3), em evento da Reuters, que estava inclinado a defender a manutenção da taxa neste mês caso os próximos dados confirmassem que as pressões inflacionárias estão diminuindo. A probabilidade de aumento na reunião de setembro, medida pela ferramenta FedWatch da CME, caiu de 63,2% na quarta para cerca de 52% — e o payroll forte de sexta tende a reacender a discussão. Um mercado de trabalho que cria 162 mil vagas não pede corte; a dúvida é se pede alta.

Para , editor do portal, o dado complica a vida do Fed. "O banco central americano estava em posição confortável: emprego esfriando, inflação cedendo, Waller sinalizando pausa. Aí vem agosto com 162 mil vagas e julho revisado para cima. O mercado de trabalho não está fraco — e, com a guerra do Irã pressionando petróleo e a tarifa pressionando preço, o Fed não tem como relaxar. A reunião de setembro virou moeda no ar: metade do mercado aposta em alta. Para o Brasil, que precisa do Fed parado para o Banco Central cortar a Selic, é notícia ruim", avalia.

Por que o Fed pensa em subir, não em cortar

A situação de 2026 inverte o roteiro de 2024 e 2025, quando o debate era sobre o ritmo dos cortes. A inflação americana voltou a subir com as tarifas de importação — que encarecem bens de consumo — e com o petróleo, pressionado pelo conflito com o Irã e pelo bloqueio do Estreito de Ormuz. O Fed, cuja meta é 2%, vê a inflação afastar-se dela e um mercado de trabalho que não dá sinal claro de enfraquecimento — combinação que justifica juro mais alto. A falta de orientações prospectivas do banco central, apontada por economistas, amplia a incerteza: sem saber o que o Fed fará, o mercado precifica o pior.

Treasuries e hipotecas: o efeito já chegou

As preocupações com inflação e a ausência de sinalização do Fed elevaram os rendimentos dos títulos do Tesouro americano — os Treasuries —, o que economistas consideram um problema para o banco central: juros longos altos apertam as condições financeiras antes mesmo de qualquer decisão. O efeito mais visível está no mercado imobiliário: a taxa fixa das hipotecas de 30 anos passou de 6,71% nesta semana, a máxima em mais de um ano, segundo a Freddie Mac — o que prejudica ainda mais um setor já em dificuldade, com vendas de imóveis usados em baixa e construção desacelerando.

A guerra do Irã na economia

O conflito com o Irã, iniciado em 2026, é o choque de oferta que atravessa todos os dados: petróleo mais caro eleva combustível e transporte, o bloqueio de Ormuz interrompe fertilizantes e derivados, e a incerteza freia investimento. A "disparada" do emprego na primavera e a desaceleração posterior refletem esse ciclo — contratações antecipadas, depois cautela. Agosto sugere que as empresas retomaram contratações apesar do cenário, o que é bom para a atividade e ruim para a inflação.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o número esconde composição. "Cento e sessenta e dois mil vagas com desemprego parado em 4,1% significa que a força de trabalho cresceu junto — gente voltando a procurar emprego. É sinal de confiança. Mas o Fed vai olhar salário: se a hora trabalhada subiu forte, é inflação de demanda somada à de oferta, e aí a alta em setembro vira provável. O relatório de sexta é o tipo de dado que dá razão aos dois lados — e o Fed, sem orientação clara, vai decidir na reunião com a inflação de agosto na mão", observa.

O que muda para o Brasil

Juros americanos mais altos por mais tempo têm efeito direto sobre o Brasil: atraem capital para os Treasuries, pressionam o real — que fechou a sexta a R$ 5,13, em alta — e limitam o espaço do Banco Central para cortar a Selic, hoje em 14%, sem provocar fuga de capital. O boletim Focus já projeta Selic de 12% só no fim de 2027; um Fed em alta empurra essa curva. Para exportadores, o dólar forte ajuda; para a inflação de importados e para a dívida pública, atrapalha.

Waller: a voz da pausa

Christopher Waller, diretor do Fed desde 2020 e nome cotado para a presidência do banco central quando o mandato de Jerome Powell terminar, tornou-se em 2026 o principal defensor de que a inflação puxada por tarifas é "pontual" — um ajuste de nível de preços, não uma espiral — e de que o Fed não deveria reagir subindo juros. Sua declaração de quinta-feira, de que se inclinava a manter a taxa se os dados confirmassem a queda das pressões, moveu os mercados. O payroll de sexta é o dado que ele pediu — e que não confirma o esfriamento. A posição de Waller na reunião de setembro, e o quanto ela convence os demais membros, é o que definirá o resultado.

Revisões: julho não foi negativo

A revisão de julho — de menos 23 mil para mais 21 mil vagas — é relevante em si: o dado original havia alimentado a narrativa de mercado de trabalho em contração, usada por quem defendia cortes de juros. Revisões grandes são comuns no payroll, calculado por pesquisa amostral com empresas e ajustado nos meses seguintes, mas a direção — para cima — reforça a leitura de estabilidade. Dois meses seguidos positivos, com agosto forte, encerram a tese de recessão iminente que circulava no verão americano.

Payroll: como o dado é feito

O relatório mensal de emprego — o "payroll" — combina duas pesquisas: a de estabelecimentos, que conta vagas em cerca de 120 mil empresas e órgãos públicos e produz o número de postos criados, e a de domicílios, que entrevista 60 mil famílias e produz a taxa de desemprego. Por isso os dois indicadores podem divergir — vagas fortes com desemprego estável, como em agosto — e por isso o número de vagas é revisado nos dois meses seguintes, conforme mais empresas respondem. É o indicador mais aguardado dos mercados globais na primeira sexta-feira de cada mês, e o que mais move dólar, juros e bolsas em minutos.

Setembro: a decisão

A reunião de 15 e 16 de setembro do Comitê Federal de Mercado Aberto terá, além do payroll, o índice de preços ao consumidor de agosto, a ser divulgado na semana anterior. Se a inflação confirmar a alta puxada por tarifas e petróleo, a combinação com emprego forte torna a elevação provável; se ceder, Waller e os que preferem a pausa ganham argumento. O mercado, dividido ao meio, aguarda — e o dólar, os Treasuries e as bolsas oscilarão com cada dado até lá.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o Fed está preso entre Trump e a inflação. "O presidente quer juro baixo e tarifa alta — duas coisas que não cabem juntas, porque tarifa é inflação. O Fed, pressionado publicamente pela Casa Branca, precisa provar que é independente subindo o juro quando a inflação sobe, mesmo em ano eleitoral de meio de mandato. Cento e sessenta e duas mil vagas dão ao banco central a cobertura para fazer isso: 'a economia aguenta'. Se subir em setembro, será a primeira alta contra a vontade explícita de um presidente em décadas. O mundo inteiro vai assistir — e o real vai sentir", analisa.

O Federal Reserve decide sobre a taxa de juros na reunião de 15 e 16 de setembro. O índice de preços ao consumidor dos EUA referente a agosto será divulgado na semana anterior à decisão.

Fontes e referências

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