China, que foi a maior compradora de frango brasileiro de 2021 a 2024
Produção chinesa cresce mais de 9% no ano enquanto consumo não acompanha; chineses preferem asa e pé, e o peito sobra para exportação. Brasil embarcou recorde de 5,3 milhões de toneladas em 2025.
China, que foi a maior compradora de frango brasileiro de 2021 a 2024, virou exportadora líquida em 2025 e pode competir com o Brasil no Oriente Médio, na Ásia e na África na próxima década, diz Rabobank; compras chinesas caíram 55,5%
A China está produzindo cada vez mais carne de frango, e o excedente começou a ser vendido a outros países — movimento que pode transformar um dos grandes compradores do frango brasileiro em concorrente do Brasil no mercado internacional, principalmente no Oriente Médio, na Ásia e na África. A análise é de Chenjun Pan, especialista do Rabobank, banco especializado em agronegócio, em entrevista à Reuters durante passagem pelo escritório da instituição em São Paulo. A China tornou-se exportadora líquida de carne de frango em 2025 — passou a vender ao exterior mais do que compra —, e a tendência é de que os embarques continuem crescendo. As informações são do g1.
"Potencialmente, não agora, mas talvez na próxima década, possa haver alguma competição no Oriente Médio, na Ásia e na África" entre o frango chinês e o brasileiro, afirmou Pan. O Brasil é o maior exportador mundial: em 2025, embarcou recorde de 5,3 milhões de toneladas. A China exportou pouco mais de 1 milhão de toneladas e ficou em quinto lugar entre os maiores exportadores — ao mesmo tempo em que segue como um dos principais compradores do frango brasileiro.
De maior cliente a sexta posição
De janeiro a julho de 2026, a China foi o principal destino do frango brasileiro, com 355,8 mil toneladas — só em julho, 70,5 mil, também o maior volume do mês. Mas a trajetória é de queda: o país foi o principal destino por quatro anos seguidos, de 2021 a 2024, e em 2025 as compras caíram 55,5%, para 250,3 mil toneladas, o que levou a China à sexta posição entre os compradores. A combinação de produção interna crescente e menor necessidade de importar explica o recuo — e antecipa o cenário em que a China deixa de comprar e passa a vender nos mesmos mercados.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o alerta do Rabobank é o mais importante para o agro brasileiro em anos. "A China fez com o frango o que fez com o aço, com o carro e com o painel solar: começou comprando, aprendeu, escalou e virou exportadora. A diferença é que o frango brasileiro é o melhor do mundo em custo — milho e soja na porta da granja, clima, escala, sanidade. A China não tem isso; tem subsídio e vontade política. Na próxima década, a disputa no Oriente Médio vai ser entre o frango brasileiro barato e o frango chinês subsidiado. O Brasil ganha em custo; precisa não perder em sanidade e em diplomacia", avalia.
Produção acima do consumo
O avanço chinês tem explicação simples: a produção cresce mais rápido que o consumo. No primeiro semestre de 2026, a produção de frango na China aumentou mais de 9% em relação ao mesmo período de 2025; no ano anterior, o crescimento havia sido de cerca de 7%. "Está muito, muito forte o crescimento. O aumento da demanda é forte, mas não tão forte quanto o crescimento da produção", disse Pan. O resultado é sobra — e a sobra vai para o exterior.
Asa e pé: o gosto que cria excedente
Há uma particularidade do consumidor chinês que ajuda a explicar a exportação: os chineses preferem cortes como asas e pés de frango, e o peito tem menor procura no mercado doméstico. "Os chineses não gostam de carne de peito por uma questão de hábito alimentar. Eles gostam de comer asas e pés", afirmou Pan. Cada frango produz um peito — e, se o mercado interno não o quer, ele precisa ser exportado. A China já vendia produtos processados havia anos; agora ganha espaço na carne in natura, como o peito, exatamente o corte que o Brasil exporta em volume para o Oriente Médio e a Ásia.
Os destinos chineses — e os limites
Entre os destinos da produção chinesa estão Rússia, Hong Kong, Coreia do Norte e países do Oriente Médio — alguns dos mercados em que o Brasil também atua. A concorrência, porém, tem limites: União Europeia, Japão e Coreia do Sul não aceitam carne de frangos vacinados contra a gripe aviária, prática adotada na China, o que restringe o acesso da produção chinesa a esses mercados de alto valor. O Brasil, que não vacina e mantém status sanitário reconhecido, preserva vantagem nesses destinos — desde que mantenha o controle da doença, como no surto de 2025 que suspendeu temporariamente embarques.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a sanidade é o ativo que decide. "O frango chinês não entra na Europa, no Japão e na Coreia porque é vacinado contra gripe aviária. O brasileiro entra porque não é. Essa é a barreira que protege os melhores mercados do Brasil — e é uma barreira que depende de o Brasil nunca precisar vacinar. Um surto grande de gripe aviária em granja comercial no Paraná ou em Santa Catarina muda tudo. A defesa sanitária é a política industrial do frango brasileiro; cortar orçamento da Agricultura nessa área é entregar mercado para a China", observa.
Por que a China quer frango: a peste suína
O aumento da produção de frango integra estratégia mais ampla da China para reduzir a dependência da carne suína. O país é o maior consumidor mundial de carne de porco; entre 2019 e 2021, a peste suína africana provocou forte redução da oferta e disparada de preços, o que tornou o frango mais atrativo e estimulou investimentos em capacidade. A participação do frango no mercado chinês de carnes chegou a 28%, segundo Pan. A proteína interessa ao governo também porque exige menos milho e farelo de soja por unidade produzida do que a suína — o que reduz a necessidade de importar grãos.
Efeito sobre a soja brasileira
A consequência indireta atinge outro produto brasileiro: a soja. Se o consumo chinês migra do porco para o frango — mais eficiente na conversão de ração — e a produção suína recua, a demanda chinesa por farelo de soja cresce menos. Para Pan, a mudança de hábitos e a expectativa de queda na produção de carne suína devem limitar o crescimento da demanda chinesa por soja — o principal item da pauta agrícola brasileira para a China. É o elo entre o frango e o grão: a China produzir mais frango é, ao mesmo tempo, menos importação de carne e menos importação de soja.
Carne bovina: a oportunidade depois de 2028
Enquanto o frango chinês ganha espaço no exterior, a especialista vê potencial para outro produto brasileiro na China: a carne bovina. O mercado chinês enfrenta restrições de oferta, incluindo as tarifas extracota mais altas — a cota de 1,106 milhão de toneladas com sobretaxa de 55% que esgotou em agosto — para o Brasil e outros fornecedores. Segundo Pan, essas tarifas devem continuar até 2028; depois, o Brasil pode encontrar novas oportunidades. O consumidor chinês, avalia, busca cada vez mais produtos de maior valor agregado, e não apenas commodities — o que favorece cortes premium e marcas.
Halal: o mercado que decide
O Oriente Médio — o primeiro mercado citado pelo Rabobank como palco da futura concorrência — é o maior importador de frango do mundo em conjunto, e compra quase exclusivamente carne halal, abatida segundo os preceitos islâmicos e certificada por entidades reconhecidas. O Brasil construiu ao longo de décadas a maior indústria de frango halal fora do mundo muçulmano, com certificadoras, abatedouros dedicados e relação de confiança com Arábia Saudita, Emirados, Egito e Iraque. A China, para competir ali, precisará replicar essa cadeia — e a confiança religiosa não se compra com subsídio. É a vantagem menos visível e mais durável do frango brasileiro.
O Brasil: escala e dependência
Com 5,3 milhões de toneladas exportadas em 2025, o Brasil responde por mais de um terço do comércio mundial de frango, com plantas concentradas no Paraná, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, em Goiás e em São Paulo, e mais de 150 destinos. A diversificação é maior que a da carne bovina — a China não chega a 10% dos embarques —, o que torna a queda de 55% nas compras chinesas administrável. A ameaça do Rabobank é de longo prazo: não é perder o cliente chinês, mas encontrá-lo do outro lado do balcão nos mercados árabes e asiáticos.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o setor tem dez anos para se preparar. "O Rabobank disse 'talvez na próxima década'. É tempo. O que o Brasil faz com ele? Três coisas: mantém o status sanitário a qualquer custo, abre mercados que ainda não compram frango brasileiro — Índia, Indonésia, Nigéria — e sobe na cadeia: frango processado, marca, halal certificado para o Oriente Médio. Quem vende commodity compete por preço, e a China subsidiada ganha em preço. Quem vende produto compete por confiança, e aí o Brasil tem quarenta anos de vantagem", analisa.
A análise do Rabobank sobre a avicultura chinesa foi apresentada em entrevista à Reuters. Os dados de exportação brasileira de frango são da Associação Brasileira de Proteína Animal e do Mdic.