BNDES eleva teto de financiamento a motoristas de app para R$ 200 mil
Elevação do teto foi autorizada pelo MDIC e pela Fazenda; com o novo limite, SUVs e sedãs médios passam a caber no programa.
BNDES eleva de R$ 150 mil para R$ 200 mil o teto do financiamento a taxistas e motoristas de aplicativo no Move Brasil: juros ficam em até 11,5% ao ano para mulheres e 12,6% para os demais motoristas e cooperativas — programa criado em maio por medidas provisórias de Lula prevê R$ 30 bilhões em crédito para carro novo e flexibiliza regras de mototáxi, motofrete e entrega por moto
O BNDES elevou de R$ 150 mil para R$ 200 mil o valor máximo que taxistas e motoristas de aplicativo podem solicitar em financiamentos do Move Brasil. A elevação do teto foi autorizada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e pelo Ministério da Fazenda; o governo já havia aprovado a mudança em 20 de agosto. Segundo o banco, os juros e o spread bancário foram mantidos em até 11,5% ao ano para mulheres e até 12,6% ao ano para os demais motoristas e cooperativas. As informações são da Folha.
Em maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou medidas provisórias voltadas aos trabalhadores por aplicativo e aos taxistas, com crédito de R$ 30 bilhões para a aquisição de carros novos com juros menores e a flexibilização de regras para os serviços de mototáxi, motofrete e entrega por motocicleta. O Move Brasil é o guarda-chuva dessas medidas: linha de financiamento operada pelo BNDES por meio de bancos e cooperativas, com taxa abaixo da praticada no mercado — onde o crédito para veículos supera 20% ao ano —, destinada a profissionais que usam o carro como instrumento de trabalho. Com o teto de R$ 150 mil, o programa cobria hatches, sedãs compactos e SUVs de entrada; a R$ 200 mil, passa a alcançar SUVs médios, sedãs e híbridos, e montadoras que haviam reposicionado tabelas para caber no limite anterior — caso da Toyota com o Yaris Cross — ganham margem para vender versões mais caras dentro do programa.
Move Brasil: o que é e para quem
Lançado em maio de 2026 por medidas provisórias, o Move Brasil reúne três frentes: crédito de R$ 30 bilhões via BNDES para taxistas, motoristas de aplicativo e cooperativas comprarem carros novos com juros reduzidos; regras nacionais mais flexíveis para mototáxi, motofrete e entregas por moto — atividades regulamentadas de forma desigual pelos municípios —; e incentivos à renovação de frota com veículos mais eficientes, em linha com o programa Mover, de 2024, que condiciona benefícios fiscais a metas de eficiência energética e produção local. O público-alvo — cerca de 900 mil motoristas de aplicativo e 400 mil motociclistas plataformizados, além de taxistas — é o mesmo que o IBGE mediu nesta semana com baixa cobertura previdenciária e renda apertada; para o governo, o crédito barato é política social e industrial ao mesmo tempo, num ano eleitoral em que o motorista de app virou eleitor disputado.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a elevação do teto conta uma história de preço. "O programa nasceu com limite de 150 mil porque o governo queria carro popular para trabalhador; três meses depois sobe para 200 mil porque não há mais carro novo decente a 150. SUV compacto custa 130, 140, 150; híbrido passa de 170. O motorista de aplicativo que roda 12 horas por dia quer carro que não quebre e que tenha revenda — e isso, em 2026, custa perto de 200 mil. Juros de 11,5% e 12,6% ao ano são metade do mercado; é subsídio, e é para quem trabalha. A crítica justa é outra: o programa financia carro, não Previdência — e o IBGE acabou de mostrar que 75% dos motoristas de app não têm INSS", avalia.
11,5% e 12,6%: as taxas e a comparação
O crédito para veículos no mercado bancário gira entre 20% e 30% ao ano para pessoas físicas; o Move Brasil, com funding do BNDES e spread limitado, oferece 11,5% para mulheres — recorte de gênero que o governo adotou para estimular a entrada de motoristas — e 12,6% para os demais, em prazos de até cinco anos. Para um carro de R$ 150 mil, a diferença de juros representa dezenas de milhares de reais ao longo do contrato.
R$ 30 bilhões: de onde vem e quanto já saiu
Os recursos vêm do BNDES, com equalização de juros pelo Tesouro, e são repassados por bancos públicos, privados e cooperativas de crédito habilitados; o governo não divulgou o volume já contratado, mas montadoras relatam aumento das vendas diretas a motoristas desde junho. O teto maior deve acelerar a demanda por modelos entre R$ 150 mil e R$ 200 mil.
Mototáxi, motofrete e entregas: a outra frente
As medidas provisórias de maio criaram regras nacionais para o transporte de passageiros e cargas por motocicleta, hoje regulado município a município — São Paulo, por exemplo, proibiu o mototáxi por aplicativo em 2025 e enfrentou disputa judicial com as plataformas —; o objetivo é dar segurança jurídica à atividade e incluir os motociclistas no crédito para moto nova. É a parte do programa que mais gera controvérsia com prefeituras.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o programa é política eleitoral com fundamento econômico. "Motorista de aplicativo é a maior categoria profissional nova do Brasil — 900 mil, segundo o IBGE, mais 400 mil motociclistas — e vota. Dar a eles crédito de carro a juro civilizado em ano de eleição é óbvio; o que não é óbvio é que também é bom para a indústria: 30 bilhões em carro novo é demanda que sustenta fábrica e emprego. A elevação para 200 mil favorece as montadoras que têm SUV e híbrido — Toyota, Honda, VW, os chineses. O risco é o de sempre: carro financiado em 60 meses para renda instável; se a plataforma cortar a tarifa, o motorista fica com a parcela e sem o carro", observa.
Quem é o motorista de aplicativo em 2026
A Pnad Contínua divulgada pelo IBGE nesta semana conta 905 mil motoristas de aplicativo no país, com crescimento de 26% em três anos, apenas 25,5% de cobertura previdenciária e rendimento por hora inferior ao dos motoristas fora das plataformas; parte relevante roda com carro alugado — locadoras como Localiza e Movida criaram planos específicos para a categoria, com mensalidades de R$ 2 mil a R$ 3 mil —, e é esse público que o Move Brasil tenta converter em proprietário: com parcela equivalente ao aluguel, o motorista passa a ter patrimônio ao fim de cinco anos. O teto de R$ 200 mil amplia a escolha para carros mais confortáveis e econômicos, como híbridos, que reduzem o gasto com combustível — o maior custo de quem roda mais de 40 horas por semana.
Taxistas: os beneficiários históricos
Taxistas já contam há décadas com isenção de IPI e de ICMS na compra de carro novo, renovável a cada dois ou três anos; o Move Brasil acrescenta o crédito barato e amplia o benefício a motoristas de aplicativo, categoria que os taxistas veem como concorrência desleal. O programa tenta equilibrar as duas ao oferecer as mesmas condições.
Montadoras: o efeito nas tabelas
Para caber no teto de R$ 150 mil, fabricantes reposicionaram versões — o Yaris Cross XR voltou a R$ 149.990 em junho — e criaram configurações específicas para vendas diretas; com R$ 200 mil, a estratégia muda: versões híbridas e SUVs médios entram no programa, e a disputa por motoristas de app passa a incluir carros de maior margem.
Mover: o programa-mãe
Criado em 2024, o Mover — Mobilidade Verde e Inovação — concede créditos financeiros a montadoras que investem em pesquisa e eficiência, e condiciona benefícios a metas de descarbonização; o Move Brasil, de 2026, é o braço voltado ao consumidor profissional. Os nomes parecidos confundem, mas os públicos são distintos.
Como pedir o financiamento
O motorista deve comprovar a atividade — registro de taxista ou cadastro ativo em plataforma —, escolher um banco ou cooperativa habilitado pelo BNDES, apresentar orçamento de carro novo de até R$ 200 mil e passar por análise de crédito; o prazo é de até 60 meses, e o carro fica alienado ao banco até a quitação.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia deve ser lida junto com a pesquisa do IBGE. "Na mesma semana, o IBGE diz que o motorista de app trabalha 45 horas e não tem Previdência, e o BNDES eleva o teto do carro que ele pode financiar para 200 mil. O governo está resolvendo o problema do carro, que é o que a montadora pede, e adiando o da proteção social, que é o que o trabalhador precisa. O crédito é bom e o juro é justo; falta a outra metade — contribuição na fonte, seguro contra acidente, regra para a plataforma. Um programa que só financia veículo cria motorista com carro novo e aposentadoria nenhuma", analisa.
A elevação do teto de financiamento do Move Brasil para R$ 200 mil, com juros de até 11,5% ao ano para mulheres e 12,6% para os demais motoristas, foi anunciada pelo BNDES e noticiada pela Folha em 3 de setembro de 2026. O programa foi criado por medidas provisórias assinadas em maio de 2026.