Deflação de 0,40% no IPCA-15 é alívio com data para acabar
"Haverá uma alta importante ali na esquina, em setembro", diz Fábio Romão, da 4intelligence; Tendências projeta IPCA de 5,3% em 2026. Dívida acima de 95% do PIB alimenta temor de dominância fiscal.
Deflação de 0,40% no IPCA-15 é alívio com data para acabar: bônus de Itaipu na conta de luz explica a queda, e economistas apontam três fatores que ainda tiram o sono — El Niño nos alimentos, serviços a 5,1% e petróleo a US$ 95 — com risco de estagflação
Os sinais de arrefecimento nos índices de preços trazem alívio ao consumidor, e o mercado se animou com a deflação de 0,40% do IPCA-15, a prévia da inflação oficial. Mas economistas alertam para o caráter temporário do movimento, beneficiado pelo bônus de Itaipu nas tarifas de energia elétrica — e temem piora à frente que não só dificultaria a queda dos juros como abriria caminho para estagflação, cenário que combina preços altos e economia fraca. "Não vamos poder pensar que a inflação está sendo contida, então está tudo bem. Não é bem essa leitura. Haverá uma alta importante, ali na esquina, em setembro, que vamos saber no começo de outubro", diz Fábio Romão, economista sênior da 4intelligence e especialista em inflação. As informações são do InfoMoney.
Silvio Campos Neto, sócio e economista da Tendências Consultoria, também avalia que a queda do IPCA cheio de agosto é pontual — resultado da devolução do bônus de energia e de um período favorável aos produtos agrícolas, sem repetição prevista nos meses seguintes. A Tendências projeta inflação de 5,3% em 2026 e 4,2% em 2027; a 4intelligence, 5,1% e 4,5%. Ambas acima do teto da meta, de 4,5%.
Por que caiu: Itaipu e a safra
O bônus de Itaipu é a devolução aos consumidores de saldo acumulado pela binacional, creditado nas contas de luz de uma só vez — o que derruba o item "energia elétrica residencial" no mês do crédito e o devolve ao patamar normal no mês seguinte. É efeito contábil, não estrutural: a tarifa não caiu, foi abatida uma vez. Somado a um período favorável para hortifrúti e proteínas, que tiveram deflações pontuais em julho e agosto, produziu o IPCA-15 negativo. Retirado o bônus, o índice de setembro deve voltar a subir — a "alta importante ali na esquina" de que fala Romão.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a leitura correta é a que a Folha e o InfoMoney fizeram no mesmo dia. "O IPCA-15 negativo é manchete boa e economia ruim: a inflação não caiu, a conta de luz foi abatida uma vez. O Banco Central sabe disso e não vai cortar juro por causa de bônus de Itaipu. O que importa é o núcleo — que está abaixo de 4% na média móvel, sinal genuinamente bom — e os serviços, que ainda rodam a 5%. O consumidor sente alívio em setembro e susto em outubro. Quem acha que a inflação foi vencida vai descobrir na próxima conta de luz que ela só tirou férias", avalia.
Fator 1: alimentos e o El Niño
Um dos fatores que impedem a melhora na percepção do custo de vida é o patamar que a alimentação atingiu desde o início da pandemia. Mesmo com deflações pontuais em julho e agosto, o nível acumulado continua consumindo parte relevante da renda familiar. "Não é uma evolução moderada de curto prazo que vai tirar essa percepção do consumidor de que a alimentação ficou mais cara. É mais caro, agora, comprar no mercado do que era no começo de 2020. Isso é evidente", afirma Romão. Para os próximos meses, o principal risco é o El Niño, que deve afetar a produção agrícola no último trimestre de 2026 e no primeiro semestre de 2027 — seca no Norte e Nordeste, chuva em excesso no Sul —, dificultando uma desaceleração mais robusta do IPCA.
Fator 2: serviços a 5,1%
Os serviços são a outra frente de resistência. O grupo subiu 6,01% em 2025 e mostrou moderação recente, o que levou a 4intelligence a revisar para 5,1% a projeção de alta em 2026 — patamar ainda desconfortável para o Banco Central. Embora a média móvel trimestral dos núcleos tenha recuado para abaixo de 4%, os serviços seguem como principal ponto de atenção e justificam cautela na condução dos juros. É o componente mais ligado ao mercado de trabalho — salários, aluguéis, alimentação fora de casa — e o que responde mais lentamente à Selic.
Fator 3: petróleo a US$ 95
A instabilidade global chega à inflação brasileira principalmente pelo petróleo. Com o Brent em US$ 95 por barril, custos de produção e transporte sobem internamente, e há limites para o governo conter o repasse nos combustíveis, sobretudo com as crises no Leste Europeu e no Estreito de Ormuz. Campos Neto acrescenta que subvenções temporárias não barram os efeitos indiretos: transporte e fertilizantes acabam contaminados, o que obriga o Banco Central a monitorar de perto a commodity e o câmbio. "Se o conflito entre os Estados Unidos e o Irã voltar a escalar e isso bater no petróleo e no câmbio, você pode ter uma inflação mais alta, mesmo com a atividade perdendo força", afirma Romão — a definição de estagflação.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o terceiro fator é o que o Brasil não controla. "Alimento e serviço são problemas domésticos, com solução doméstica — safra, juro, salário. Petróleo a US$ 95 é guerra no Golfo, e o Brasil só assiste. A Petrobras pode segurar o preço por um tempo, como fez em 2022, e o custo aparece no balanço e no diesel do caminhoneiro. Se Ormuz fechar de novo, a inflação sobe com a economia caindo — e aí o Banco Central fica sem instrumento: subir juro não faz o petróleo baixar. É o cenário que os economistas chamam de estagflação e que o governo, em ano de eleição, chama de azar", observa.
A desaceleração que chegou cedo
O pano de fundo é uma economia que perde ritmo mais rápido do que o mercado esperava: a projeção de crescimento para 2026 caiu de 2% para 1,7% depois que o consumo recuou mesmo com estímulos fiscais. Para Campos Neto, um processo desinflacionário consistente exige esfriamento mais amplo da atividade, o que ainda não ocorreu por completo. "A gente ainda está naquele processo de desacelerar a economia, desacelerar o consumo para que, aí sim, a inflação possa cair e os juros, efetivamente, também entrem em uma trajetória mais intensa de queda", avalia. É o remédio amargo da política monetária: a inflação cai quando a economia esfria — e a economia está esfriando.
O fiscal: dívida acima de 95%
A questão fiscal é mais um vetor de pressão. Para os economistas, a ausência de uma âncora fiscal crível é o maior obstáculo à convergência da inflação no longo prazo, porque a percepção de risco mantém os juros longos pressionados independentemente da Selic. Carlos Primo Braga, ex-diretor de política econômica e dívida do Banco Mundial e professor da Fundação Dom Cabral, aponta o endividamento como raiz: a dívida bruta já supera 95% do PIB, fruto de despesas que crescem acima das receitas desde 2023. Em entrevista ao InfoMoney, classificou o Orçamento de 2027 como "uma obra de ficção".
Dominância fiscal: quando o juro não funciona
Combinada a uma inflação persistentemente próxima do teto da meta — hoje 3%, com tolerância de 1,5 ponto —, a fragilidade fiscal eleva as chances de dominância fiscal, situação em que a política monetária perde eficácia: cada alta de 1 ponto na Selic acrescenta de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões ao custo da dívida, segundo o Banco Central, e o mercado passa a temer que o juro alto piore o fiscal em vez de conter a inflação. "A única solução é realmente você pegar e apertar o freio com relação à política fiscal", diz Braga. Sem ajuste nas despesas obrigatórias — tema que os principais candidatos evitam por razões eleitorais —, o país caminha para crescimento menor em 2027, com inflação resistente.
O que o consumidor deve esperar
Na prática: a conta de luz de setembro volta ao normal; o supermercado segue caro, com risco de alta no verão por causa do El Niño; combustível depende do Golfo; serviços — aluguel, restaurante, escola — seguem subindo perto de 5%. A Selic deve cair devagar, e o crédito continuará caro. O alívio de agosto é real, mas breve. A recomendação dos economistas é não confundir o bônus de Itaipu com virada — e não planejar orçamento familiar em cima de um mês de deflação.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o diagnóstico é político. "Três economistas, três consultorias, uma conclusão: a inflação só cai de verdade quando o fiscal for arrumado, e nenhum candidato quer falar de despesa obrigatória em ano de eleição. Lula não vai cortar, Flávio não vai dizer onde. O Banco Central segura a Selic alta para compensar, a dívida cresce R$ 50 bilhões por ponto, e o país entra em 2027 com juro alto, crescimento baixo e inflação no teto. O IPCA-15 negativo é a foto bonita de um filme ruim. Quem ganhar em outubro herda o roteiro", analisa.
O IPCA-15 de agosto, com deflação de 0,40%, foi divulgado pelo IBGE. O IPCA cheio de setembro, que refletirá o fim do bônus de Itaipu, será conhecido no início de outubro.