Emprego forte nos EUA derruba Ibovespa em mais de 1%, mas Bolsa recupera tudo e fecha estável
Payroll de agosto criou 162 mil vagas, quase o triplo do esperado, e elevou apostas de alta de juros pelo Fed; Ibovespa oscilou 3.200 pontos e fechou em queda de 0,02%.
O mercado esperava a criação de cerca de 55 mil empregos nos Estados Unidos em agosto. Vieram 162 mil. A surpresa do payroll — principal relatório oficial sobre o mercado de trabalho americano — aumentou as apostas em uma alta de juros pelo Federal Reserve, pressionou Wall Street, fortaleceu o dólar e provocou uma sexta-feira (4) de montanha-russa na Bolsa brasileira, segundo reportagem do InfoMoney. O Ibovespa chegou a cair mais de 1%, recuperou todas as perdas, virou para alta e terminou o pregão praticamente no zero a zero: baixa de apenas 0,02%, aos 185.147 pontos.
A amplitude do movimento chama atenção. Depois de fechar a quinta-feira aos 185.188 pontos, o índice mergulhou até 183.251 pontos na abertura, tocou a máxima de 186.544 pontos ao longo da manhã e perdeu fôlego novamente à tarde. Foram mais de 3.200 pontos entre a mínima e a máxima de um único dia — uma oscilação que, em um pregão sem grandes eventos domésticos, expõe o quanto o humor dos investidores brasileiros está atrelado ao que acontece na economia americana.
O que o payroll mostrou
Além dos 162 mil empregos criados — quase três vezes os 55 mil previstos pelo consenso de mercado, e acima também dos 56 mil projetados pelos economistas consultados pela Reuters —, a taxa de desemprego nos Estados Unidos permaneceu em 4,1%, em linha com o esperado. O ganho médio por hora trabalhada avançou 0,3% em agosto, também como projetado. Em 12 meses, porém, os salários subiram 3,1%, ligeiramente acima da expectativa de 3,0%.
O número que realmente mudou o tom do mercado foi, portanto, a geração de vagas. Rafael Perretti, economista e analista da Clear Corretora, destacou ao InfoMoney que desemprego e salário ficaram próximos das projeções, enquanto a criação de empregos surpreendeu fortemente. Segundo ele, um mercado de trabalho mais firme pode dar ao Fed maior espaço para manter o foco no combate à inflação. "O primeiro impacto para o mercado foi uma forte queda para o Ibovespa e uma forte retomada em relação ao dólar", afirmou.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a reação inicial foi um reflexo condicionado. "Emprego forte nos Estados Unidos significa consumo aquecido, que significa inflação persistente, que significa juro alto por mais tempo. Essa cadeia o mercado repete de olhos fechados. A queda de 1% na abertura não foi análise, foi reflexo. A análise veio depois, quando os investidores olharam para o Brasil e viram que os fundamentos domésticos não tinham mudado", avalia.
O que é o payroll e por que ele move mercados
O payroll — formalmente, o relatório de emprego não agrícola — é divulgado mensalmente pelo Departamento do Trabalho dos Estados Unidos e mede quantas vagas foram criadas ou destruídas na economia americana no mês anterior, além da taxa de desemprego e da evolução dos salários. É o indicador de maior impacto imediato sobre os mercados globais porque resume, em um único número, a temperatura da maior economia do mundo e serve de bússola para as decisões do Federal Reserve sobre juros. Um dado muito acima do esperado, como o de agosto, sinaliza economia aquecida e reduz a chance de cortes de juros; um dado fraco tem o efeito oposto.
As apostas para o Fed mudaram na hora
A leitura de que o Fed ganha espaço para apertar a política monetária apareceu imediatamente nas probabilidades de mercado. Segundo a ferramenta FedWatch, da CME, a chance de uma alta de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro — que levaria a taxa básica para a faixa de 3,75% a 4,00% — subiu de 49,4% para 58,6% após a divulgação do relatório. A probabilidade de manutenção dos juros entre 3,50% e 3,75% caiu de 50,6% para 41,4%.
Os títulos do Tesouro americano também reagiram. O rendimento do Treasury de dois anos, papel bastante sensível às expectativas para os juros de curto prazo, subiu cerca de quatro pontos-base, para 4,377%. Movimentos nos Treasuries curtos são acompanhados de perto porque funcionam como uma aposta direta do mercado sobre o que o banco central fará nas próximas reuniões.
Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, afirmou que o payroll mais forte reforça a perspectiva de juros americanos elevados por mais tempo — um cenário que, em geral, tende a reduzir o apetite por ativos de risco de economias emergentes, como o Brasil. Era justamente essa a preocupação que aparecia antes da divulgação: André Moraes, analista, fundador e CEO da Trade ao Vivo e chairman da BFR Investimentos, já havia alertado que um payroll muito forte poderia aumentar a percepção de pressão inflacionária e elevar a possibilidade de juros mais altos nos Estados Unidos.
Por que o Brasil resistiu
A trajetória do Ibovespa se destacou porque ocorreu em um ambiente externo claramente adverso. O rendimento dos Treasuries subiu, o dólar avançou e os três principais índices de Nova York fecharam no vermelho. Ainda assim, o mercado brasileiro encontrou compradores ao longo do dia. Para os especialistas ouvidos pelo InfoMoney, a explicação passa pela combinação de um choque externo que perdeu força com o passar das horas e de fatores domésticos que continuaram sustentando o interesse por ativos brasileiros.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a recuperação diz mais sobre o Brasil do que sobre os Estados Unidos. "Quando a Bolsa cai 1% na abertura e fecha no zero num dia em que Nova York termina no vermelho, é porque há dinheiro esperando qualquer recuo para entrar. Isso não acontece por acaso. O investidor estrangeiro e o local estão enxergando valor na Bolsa brasileira aos 185 mil pontos, e um dado de emprego americano, por mais forte que seja, não muda essa tese de um dia para o outro", observa.
Esse comportamento — quedas rapidamente compradas — é o que analistas técnicos chamam de suporte de demanda: um nível de preços no qual os compradores consistentemente superam os vendedores. A capacidade do Ibovespa de recuperar 3.200 pontos em poucas horas sugere que esse suporte esteve ativo na sexta-feira.
Dólar e Treasuries: o outro lado da moeda
Enquanto a Bolsa se recuperava, o câmbio manteve a tendência ditada pelo exterior. O dólar ganhou força globalmente após o payroll, e a moeda brasileira acompanhou o movimento — um padrão típico de dias em que o mercado revisa para cima a expectativa de juros nos Estados Unidos. Juros americanos mais altos tornam os Treasuries mais atraentes e reduzem o incentivo para que investidores mantenham dinheiro em moedas de países emergentes.
A combinação de Bolsa estável e dólar mais forte não é contraditória. Ela indica que o investidor de renda variável enxergou oportunidade nas ações brasileiras, enquanto o fluxo de câmbio seguiu a lógica do diferencial de juros. Os dois mercados reagem ao mesmo dado por canais diferentes.
O que vem pela frente
A reunião do Federal Reserve em setembro se tornou o evento central do calendário. Com a probabilidade de alta de juros agora acima de 58%, o mercado passa a operar com esse cenário como base, e novos dados de inflação americana até lá terão peso redobrado. Uma leitura de preços acima do esperado consolidaria a aposta na alta; um número benigno poderia reequilibrar as probabilidades.
Para o Brasil, o impacto de um Fed mais duro é ambíguo. Por um lado, juros americanos mais altos pressionam o câmbio e reduzem o fluxo para emergentes. Por outro, o Banco Central brasileiro, que opera sua própria trajetória de juros, precisa calibrar a Selic considerando o diferencial com os Estados Unidos — e um Fed mais restritivo limita o espaço para cortes domésticos.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a sexta-feira foi um ensaio do que os próximos meses reservam. "O mercado vai viver de dado em dado até setembro. Payroll, inflação americana, ata do Fed — cada número vai gerar um pregão como o de hoje. O que a sessão mostrou é que o Ibovespa tem lastro para absorver o choque, mas ninguém deve confundir resiliência com imunidade. Se o Fed subir os juros e sinalizar mais altas, a conversa muda", analisa.
Ao final do dia, o Ibovespa terminou 41 pontos abaixo do fechamento anterior — uma diferença estatisticamente irrelevante para um índice que oscilou 3.200 pontos na sessão. Na prática, a Bolsa brasileira terminou exatamente onde começou, depois de uma sexta-feira em que os Estados Unidos deram o tom e o Brasil, ao menos desta vez, escolheu não segui-lo.
Adriano Jose Reis Martins resume: "Foi um dia de teste de estresse involuntário. O mercado brasileiro passou. A questão é quantos testes desses ele vai enfrentar até o Fed decidir o que fazer".