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Finanças

"Focamos no futuro financeiro do Instituto Inhotim", diz a diretora-presidente Paula Azevedo

Instituto completa 20 anos mantendo gratuidade às quartas e no último domingo — 'a cobrança de ingresso muda a cor da fila', cita ela de Ricardo Ohtake; o plano nasceu de um chamado do.

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— Foto: Carlos Varela / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

"Focamos no futuro financeiro do Instituto Inhotim", diz a diretora-presidente Paula Azevedo, que chegou em 2022 para garantir a perenidade do maior museu ao ar livre do mundo depois de 16 anos de dependência dos aportes do fundador Bernardo Paz: com orçamento global de R$ 90 milhões, metade via Lei Rouanet e receita própria de 18%, o projeto Inhotim 2030 quer chegar a um terço de receita própria, um terço de doações e um terço de sustentação própria, com reserva de emergência de um ano de operação

Paula Azevedo chegou ao Instituto Inhotim em 2022 para garantir a saúde financeira da entidade. O plano está no projeto Inhotim 2030, voltado a organizar a governança, a sustentabilidade e a preservação do maior museu ao ar livre do mundo — que, durante 16 anos, dependeu apenas dos aportes de seu criador, o empresário do setor de mineração Bernardo Paz. As informações são da coluna Painel S.A., da Folha.

Ela assumiu a direção-presidência também para diversificar a receita, sem deixar de oferecer gratuidades às quartas e no último domingo de cada mês; ao defender a medida, cita frase de Ricardo Ohtake, presidente do conselho do Instituto Tomie Ohtake: "a cobrança de ingresso muda a cor da fila". Sobre a origem do projeto: "Começou em 2022, a partir de um chamado do Bernardo Paz para pensarmos na perenidade financeira do instituto, independentemente dos aportes pessoais dele, que eram muito expressivos e atrelados à sua coleção privada. Chegamos em 2026 com a comemoração dos 20 anos do Instituto Inhotim fortemente focados na nossa visão de futuro". Sobre o orçamento e o modelo ideal: "Nosso orçamento global é de R$ 90 milhões. Atualmente, 50% vêm de aportes via Lei Rouanet, que segue sendo uma ferramenta fundamental. Mas buscamos a diversificação. O modelo ideal que almejamos para o equilíbrio financeiro é a divisão em três partes iguais: 1/3 de receita própria, 1/3 de doações e 1/3 de sustentação financeira própria. Hoje, nossa receita própria está em 18% e nosso plano é elevá-la para próximo de 30%, mantendo entre 35% e 38% via Lei Rouanet e o restante pulverizado em outras fontes. Estamos construindo reserva de caixa de emergência equivalente a um ano de operação para nos proteger contra crises econômicas, aliada a um contínuo exercício de controle de custos".

De coleção particular a instituição: como Inhotim sobreviveu a Brumadinho, à queda do fundador e à Rouanet

Inhotim nasceu em 2006 como o jardim de um homem — Bernardo Paz, magnata do minério de ferro que transformou sua fazenda em Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, num parque de 140 hectares de jardins botânicos com mais de 4 mil espécies e galerias de arte contemporânea de escala mundial, de Tunga a Doris Salcedo, de Cildo Meireles a Olafur Eliasson — e por 16 anos foi financiado pelo bolso dele, o que garantiu ambição e produziu fragilidade: quando Paz foi condenado em 2017 por lavagem de dinheiro ligada ao instituto — sentença depois anulada — e sua empresa, a Itaminas, sofreu com a queda do minério, o museu descobriu que não tinha modelo; e quando a barragem da Vale rompeu em Brumadinho, em janeiro de 2019, a 10 quilômetros dali, matando 272 pessoas, Inhotim fechou por semanas, perdeu visitantes por anos e virou, para a cidade enlutada, o único motor econômico que restava. A chegada de Paula Azevedo, em 2022, com o Inhotim 2030 é a tentativa de fazer o que museus americanos fizeram há um século e os brasileiros quase nunca fazem: separar a instituição do fundador, criar governança com conselho independente, endowment — a "sustentação financeira própria" do terço que ela descreve — e receita própria de ingressos, loja, restaurante, locação e turismo, reduzindo a dependência da Lei Rouanet, que hoje paga metade dos R$ 90 milhões e que oscila com cada governo; a reserva de um ano de operação, a meta de 30% de receita própria e a manutenção da gratuidade — argumento de Ohtake sobre "a cor da fila", que Azevedo adota para que o museu não seja só de quem pode pagar R$ 100 de ingresso — são as peças de um plano que outras instituições culturais brasileiras, do Masp ao Museu do Amanhã, observam. Para Brumadinho, que vive de Inhotim e de mineração e que nesta semana viu o ex-presidente da Vale assumir a CSN, o museu é a economia que não depende de barragem; para o país, é o teste de se cultura de ponta pode se sustentar sem um mecenas ou sem o Estado — ou com os dois em dose menor.

Para , editor do portal, a entrevista descreve a profissionalização que a cultura brasileira precisava. "Inhotim foi por 16 anos o brinquedo de um bilionário — genial, único, e frágil: quando o dono teve problema com a Justiça e com o minério, o museu ficou sem chão, e quando a barragem rompeu ao lado, ficou sem público. Paula Azevedo está fazendo o que todo museu sério faz: governança, endowment, receita própria, reserva de emergência, e Rouanet como uma perna, não como muleta. Um terço, um terço, um terço é o modelo do MoMA; no Brasil, é revolução. O portal registra os 20 anos e a frase sobre a cor da fila — gratuidade não é gentileza, é política — e observa que Araras, a 500 quilômetros, manda ônibus de escola para Inhotim; que o museu esteja de pé em 2030 é interesse de todo o interior", avalia.

Os números: R$ 90 milhões, 50% Rouanet, 18% receita própria

Orçamento global de R$ 90 milhões, metade via incentivo fiscal da Lei Rouanet, 18% de receita própria — ingressos, loja, restaurante, eventos —, e o restante em doações e outras fontes; a meta é 30% de receita própria, 35% a 38% de Rouanet e o resto pulverizado, com reserva de caixa de um ano de operação.

Inhotim 2030: governança, sustentabilidade, preservação

Projeto lançado em 2022 a pedido de Bernardo Paz, estrutura conselho, transparência, plano de manutenção do acervo e dos jardins, diversificação de receita e endowment; a meta de três terços é o modelo de museus internacionais e o antídoto à dependência de um único financiador.

"A cobrança de ingresso muda a cor da fila"

A frase de Ricardo Ohtake, citada por Azevedo, resume a decisão de manter gratuidade às quartas e no último domingo do mês mesmo sob pressão por receita: o público pagante é mais branco e mais rico, e o museu — em Brumadinho, cidade operária — quer o contrário; é escolha de missão que o plano financeiro preserva.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a dependência da Rouanet é o ponto delicado. "Metade de R$ 90 milhões via renúncia fiscal é dinheiro público — e o governo que cortou a Rouanet em 2019 pode voltar em 2027. Azevedo sabe, por isso quer reduzir para um terço e criar endowment. É prudente e é lento: endowment se constrói em décadas, e Inhotim tem quatro anos de plano. O portal registra a meta e a realidade: enquanto o museu não tiver reserva própria, cada eleição é risco. Que o Brasil aprenda com Inhotim a financiar cultura como se financia universidade — com patrimônio, não com favor", observa.

Bernardo Paz e os 16 anos de mecenato

O empresário criou o instituto em 2006 com a própria coleção e o financiou até 2022; condenado em 2017 por lavagem em decisão depois anulada, afastou-se da gestão e pediu o plano de perenidade; sua coleção segue atrelada ao museu, e a separação entre fundador e instituição é o núcleo do Inhotim 2030.

Brumadinho: o museu e a barragem

A tragédia de 2019, a 10 quilômetros, matou 272 pessoas e derrubou o turismo por anos; Inhotim, maior empregador não minerário da cidade, tornou-se símbolo de reconstrução; a coincidência de a semana trazer o ex-presidente da Vale ao comando da CSN e a diretora de Inhotim falando de futuro é o retrato de Brumadinho em 2026.

Receita própria: ingressos, loja, hospedagem, eventos

Elevar de 18% para 30% exige mais visitantes pagantes, produtos, gastronomia, locação para eventos e projetos de hospedagem no entorno — sem comprometer a gratuidade; o turismo internacional, que a pandemia interrompeu, é o segmento que o instituto mais quer recuperar.

Modelos internacionais: o terço que sustenta

MoMA, Getty e Tate vivem de endowment, receita própria e doações em proporções semelhantes ao modelo que Azevedo almeja; no Brasil, museus dependem de incentivo fiscal ou de orçamento público; Inhotim, Masp e Instituto Tomie Ohtake são os que mais avançaram na diversificação — e os que mais sofrem quando a Rouanet oscila.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a entrevista é sobre maturidade institucional. "Vinte anos depois, Inhotim deixa de ser o sonho de um homem e vira instituição com plano, reserva e meta — sem perder a fila colorida das quartas de graça. É o que a cultura brasileira precisa fazer para não morrer com o mecenas nem com o ministro. O portal registra o Inhotim 2030 e sugere a quem nunca foi: vá numa quarta, de graça, e veja o que um museu pode ser quando alguém decide que ele tem de durar", analisa.

A entrevista de Paula Azevedo, diretora-presidente do Instituto Inhotim, sobre o projeto Inhotim 2030 e o plano de diversificação financeira do museu, que completa 20 anos com orçamento de R$ 90 milhões e metade da receita via Lei Rouanet, foi publicada na coluna Painel S.A., da Folha, em 5 de setembro de 2026; o instituto, em Brumadinho, Minas Gerais, mantém gratuidade às quartas e no último domingo de cada mês.

Fontes e referências

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