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Finanças

Os 0,1% mais ricos do Brasil ampliaram sua fatia da renda nacional para recorde de 13,1% em 2024

Arrecadação de IR sobre renda fixa saltou 325% entre 2020 e 2024, para R$ 92,1 bi; "quanto mais eu subo os juros, mais renda o detentor da LFT tem", disse Galípolo.

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— Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Os 0,1% mais ricos do Brasil ampliaram sua fatia da renda nacional para recorde de 13,1% em 2024, contra 10,2% em 2020, apesar da agenda de Lula para os mais pobres: juros altos e dívida atrelada à Selic explicam um terço do ganho

Os brasileiros mais ricos passaram a concentrar uma fatia recorde da renda nacional durante o governo Lula, segundo dados extraídos de declarações de Imposto de Renda — um contraponto ao esforço do presidente de convencer os eleitores de que os ganhos econômicos foram amplamente distribuídos. Estimativas do pesquisador Sergio Gobetti, com base na abertura de dados pela Receita Federal, mostram que os 0,1% mais ricos elevaram sua participação na renda nacional para 13,1% em 2024, ante 10,2% em 2020. No mesmo período, o Banco Central elevou a Selic de 2% para 12,25% — e, como metade da dívida pública é atrelada à taxa básica, a alta dos juros se converteu diretamente em renda para quem detém títulos. As informações são da Folha de S.Paulo, com base em análise da Reuters.

Lula tem apontado a queda da desigualdade — o coeficiente de Gini atingiu o menor nível da série histórica em 2024 — e a alta do emprego como evidências de que sua administração prioriza os mais pobres. Os dados tributários pintam um quadro mais complexo: juros elevados, em parte consequência do aumento dos gastos públicos, alimentaram um boom da renda financeira que beneficiou de forma desproporcional os mais ricos, mesmo enquanto o mercado de trabalho, os ganhos salariais reais e os programas sociais melhoraram a base da distribuição.

O paradoxo da Selic

O mecanismo é direto. Cerca de metade da dívida pública brasileira está em Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), títulos pós-fixados cujo rendimento acompanha a Selic. Quando o Banco Central sobe os juros para conter a inflação, o Tesouro paga mais a quem detém esses papéis — bancos, fundos e, majoritariamente, famílias de alta renda. "Quanto mais eu subo os juros, mais renda o detentor da LFT tem", resumiu o presidente do BC, Gabriel Galípolo, ao Senado em maio. O esforço para reduzir a inflação, portanto, também ajuda os mais ricos a ampliar sua fatia da renda nacional — um paradoxo que a política monetária não consegue evitar enquanto a dívida for indexada à taxa básica.

Para , editor do portal, o dado explica uma contradição da economia brasileira. "O governo gasta para ajudar os pobres; o gasto pressiona a inflação; o BC sobe a Selic; a Selic paga o rico que tem LFT. O ciclo fecha com o pobre recebendo Bolsa Família e o rico recebendo juro — e a fatia do rico crescendo mais. Não é conspiração; é aritmética de dívida pós-fixada. Enquanto metade da dívida for LFT, toda política de estabilização será, simultaneamente, uma política de transferência para cima. Lula reduziu o Gini e aumentou a fatia dos 0,1%. As duas coisas são verdade", avalia.

Os números: 325% a mais de imposto sobre renda fixa

Uma análise da Reuters sobre o Imposto de Renda retido na fonte constatou que a arrecadação sobre rendimentos de fundos de investimento e outros ativos de renda fixa disparou 325% entre 2020 e 2024, alcançando R$ 92,1 bilhões — salto que superou com folga o avanço da arrecadação sobre rendimentos do trabalho. A Receita Federal reconheceu que a explosão ocorreu "principalmente em razão da elevação da taxa Selic". Segundo as estimativas de Gobetti, a renda financeira respondeu por quase um terço do aumento da participação dos 0,1% mais ricos na renda nacional entre 2020 e 2024.

Gini x IR: por que os dois discordam

O coeficiente de Gini, calculado a partir de pesquisas domiciliares como a Pnad, capta bem a renda do trabalho — e é por isso que caiu com o emprego em alta e o salário mínimo valorizado. Mas subestima os ganhos financeiros, concentrados no topo e registrados de forma mais completa nas declarações de IR. "O Gini reflete apenas uma parte da sociedade, a parte que não é muito rica", explica Marcelo Medeiros, professor da Universidade de Illinois. "A desigualdade brasileira é determinada principalmente pela desigualdade que existe entre os ricos e entre os ricos e todo o restante da população." Os dois indicadores não se contradizem: medem partes diferentes da distribuição.

Dívida maior, LFT maior

O fenômeno antecede Lula — ocorreu também no governo Bolsonaro —, mas ganhou força com o crescimento da dívida e a maior dependência de títulos pós-fixados. Desde 2023, a dívida bruta subiu mais de 10 pontos percentuais do PIB, para 82,5%, e o Tesouro projeta que a participação das LFTs pode avançar quase 15 pontos, para recorde de até 53% neste ano. Juros altos incidem, assim, sobre um estoque maior de dívida e sobre uma parcela maior de papéis indexados à Selic. "A aritmética do endividamento não tem como ser contornada: ela joga na outra direção", disse Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial, para quem a política monetária teve de lidar com uma política fiscal "ultraexpansionista".

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o problema é a composição da dívida. "Todo país tem dívida; poucos têm metade dela pós-fixada. A LFT é herança da hiperinflação — o investidor só compra título brasileiro se o rendimento acompanhar a Selic. Cada vez que o Tesouro tenta alongar e prefixar, o mercado cobra prêmio, e o governo volta para a LFT. É por isso que o Brasil é o país em que subir juros enriquece o rico mais rápido. A solução é fiscal: dívida caindo, risco caindo, Tesouro conseguindo vender prefixado. Sem isso, o BC vai continuar transferindo renda para cima toda vez que combate inflação", observa.

O que o governo responde

O Ministério da Fazenda afirmou que juros mais elevados provavelmente contribuíram para o aumento da arrecadação sobre renda fixa, mas ponderou que os dados também refletem decisões de alocação de carteira e que, por si, não estabelecem relação causal definitiva. A pasta acrescentou que adota desde 2023 medidas de "maior justiça tributária" — a tributação de fundos exclusivos e de investimentos no exterior, a taxação de apostas, e a proposta de isenção de IR até R$ 5 mil compensada por tributação mínima dos mais ricos. O Banco Central não comentou.

2025 e 2026: o boom continua

Os dados detalhados das declarações de 2025 ainda não estão disponíveis, mas o boom da renda fixa não arrefece: a arrecadação sobre rendimentos de fundos e aplicações de renda fixa avançou mais 25% em relação a 2024. O BC iniciou ciclo de afrouxamento em março, mas mantém a Selic — hoje em 14% — em nível restritivo para levar a inflação, em 4,2%, à meta de 3%. Analistas veem menos espaço para cortes, e o boletim Focus projeta Selic de 12% ao fim de 2027 — o que significa que o impulso aos rendimentos dos mais ricos não deve desaparecer tão cedo.

Justiça tributária: o que está na mesa

A resposta estrutural discutida no Congresso é tributar mais a renda do capital. A proposta do governo de isentar do IR quem ganha até R$ 5 mil, com compensação por um imposto mínimo sobre rendas acima de R$ 600 mil anuais — incluindo dividendos, hoje isentos —, é o instrumento mais direto para reequilibrar a distribuição que os dados de Gobetti descrevem. Há também a discussão sobre tributar dividendos, como faz a maioria dos países da OCDE, e sobre reduzir a isenção de LCI, LCA e debêntures incentivadas, aplicações de renda fixa concentradas no topo. Nenhuma dessas medidas altera a mecânica da LFT — mas todas reduzem o efeito líquido.

Quem são os 0,1%

O grupo que concentra 13,1% da renda nacional corresponde a cerca de 150 mil declarantes — pessoas com renda anual na casa dos milhões de reais, composta majoritariamente por rendimentos de capital: juros de títulos e fundos, dividendos de empresas, aluguéis e ganhos com venda de ativos. É um perfil diferente do "rico" do imaginário — o executivo de salário alto — porque a renda do trabalho, mesmo elevada, é tributada na fonte a até 27,5%, enquanto dividendos são isentos e a renda fixa paga entre 15% e 22,5%. A distância entre os 0,1% e os 1% seguintes é maior que a distância entre estes e a classe média — e é nessa faixa estreita do topo que o efeito da Selic se concentra.

A eleição e o argumento

O dado chega em campanha, e os dois lados o usarão. Para a oposição, é a prova de que a política fiscal expansionista de Lula gerou juros altos que enriqueceram o topo; para o governo, é a prova de que o rentismo herdado — a dívida pós-fixada, a isenção de dividendos — precisa ser atacado com a reforma da renda que o Congresso resiste a aprovar. Os dois têm parte da razão: a fatia dos 0,1% subiu porque os juros subiram, e os juros subiram porque a dívida cresceu com o gasto — e porque a estrutura da dívida transforma cada ponto de Selic em renda concentrada.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o número deveria mudar o debate fiscal. "Discute-se corte de gasto como se fosse só questão de contas; é questão de distribuição. Cada real de déficit vira dívida, cada real de dívida em LFT vira juro para o topo. O ajuste fiscal, que a esquerda trata como austeridade contra os pobres, é também o único caminho para parar de transferir renda para os 0,1%. Lula tem o Gini para mostrar; tem também os 13,1% para explicar. Um governo que quer reduzir desigualdade precisa de dívida menor e de imposto sobre dividendo — as duas coisas, não uma", analisa.

As estimativas de concentração de renda a partir das declarações de Imposto de Renda são de Sergio Gobetti, com base em dados abertos da Receita Federal. Os dados detalhados das declarações de 2025 ainda não foram divulgados.

Fontes e referências

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