Portugal abre negociações com Air France-KLM e Lufthansa pela privatização da TAP
Empresas apresentaram ofertas em 29 de julho; TAP foi nacionalizada em 2020 com ajuda de 3,2 bilhões de euros e tem 7.700 funcionários e cem aviões Airbus.
Portugal abre negociações com Air France-KLM e Lufthansa pela privatização da TAP, maior operadora europeia nas rotas para o Brasil; governo quer "propostas melhores" antes de escolher finalista
O governo de Portugal informou nesta sexta-feira (4) que abriu negociações com a Air France-KLM e com a Lufthansa para a privatização da TAP, a companhia aérea de bandeira portuguesa e principal operadora europeia nas rotas para o Brasil. O anúncio foi feito pelo ministro da Presidência, António Leitão Amaro, ao fim de reunião do Conselho de Ministros: as duas empresas, que apresentaram ofertas no fim de julho, serão chamadas a conversar para que o Estado obtenha "propostas melhores". Após essas negociações, que podem durar "algumas semanas", o governo escolherá uma das duas para uma "negociação final". As informações são da Folha de S.Paulo.
"A oferta da Air France-KLM, apresentada em 29 de julho, assume a forma de um plano estratégico que abrange todas as atividades da TAP: transporte de passageiros, carga, programa de fidelidade e manutenção aeronáutica", divulgou o conglomerado franco-holandês. A Lufthansa, que já havia manifestado interesse na companhia em rodadas anteriores, não detalhou publicamente sua proposta.
Por que a TAP está à venda
A privatização é o desfecho de um resgate. Em 2020, com a pandemia de Covid-19 paralisando a aviação, o Estado português nacionalizou a TAP em caráter emergencial — recomprando a participação privada que havia vendido em 2015 — para evitar a falência. Em troca de ajuda pública de 3,2 bilhões de euros (cerca de R$ 19 bilhões), a companhia foi obrigada a implementar um plano de reestruturação a partir de 2021, sob supervisão da Comissão Europeia, que impôs cortes de frota, de rotas e de pessoal como condição para autorizar o auxílio estatal.
Com a reestruturação concluída e a TAP de volta ao lucro, o governo decidiu vender parte do capital — o modelo anunciado prevê a alienação de participação, com o Estado mantendo fatia minoritária e garantias sobre o hub de Lisboa e as rotas estratégicas, entre elas as que ligam Portugal ao Brasil e à África lusófona. É a condição política da venda: a TAP não pode deixar de ser portuguesa no que importa.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o interesse dos dois gigantes é estratégico, não financeiro. "A TAP tem 7.700 funcionários e cem aviões — é pequena para Air France-KLM e Lufthansa. O que ela tem de valioso é Lisboa como porta para o Brasil e para a África, e os direitos de voo que vêm com a bandeira portuguesa. Quem comprar ganha o corredor Atlântico Sul que nenhum dos dois grupos domina hoje. Para o passageiro brasileiro, a pergunta é o que muda na rota São Paulo–Lisboa quando o dono passa a ser Paris ou Frankfurt", avalia.
A TAP e o Brasil
A TAP é, há décadas, a companhia europeia com mais voos para o Brasil: opera de Lisboa e Porto para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Salvador, Natal, Belém, Porto Alegre e outras cidades, com frequências diárias nos principais destinos. Lisboa funciona como hub entre o Brasil e a Europa, com conexões para dezenas de cidades europeias — e a companhia disputa com Latam, Azul e as europeias tradicionais o tráfego de brasileiros para o continente. Qualquer mudança de controle afeta diretamente oferta, preço e conexões para o passageiro brasileiro.
Air France-KLM x Lufthansa: os dois candidatos
A Air France-KLM, controladora das companhias francesa e holandesa, opera hubs em Paris e Amsterdã e tem forte presença no Brasil via Air France, com voos para São Paulo, Rio e outras capitais. Incorporar a TAP lhe daria um terceiro hub no sul da Europa e domínio do corredor lusófono. A Lufthansa, maior grupo aéreo europeu, controla Swiss, Austrian, Brussels e, mais recentemente, participação na ITA Airways italiana; a TAP seria sua entrada no Atlântico Sul, onde é relativamente fraca. Os dois grupos têm histórico de aquisições de companhias de bandeira em dificuldade — e de negociações duras com governos sobre garantias de emprego e rotas.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o governo português joga bem ao manter os dois na mesa. "Negociar com dois compradores ao mesmo tempo é a forma de elevar o preço e as garantias. Lisboa quer dinheiro, mas quer mais: manter o hub, as rotas para o Brasil e a África, os empregos e a manutenção em Portugal. Cada um dos dois grupos vai prometer mais que o outro nas próximas semanas. Depois vem a negociação final — e é aí que as promessas viram contrato. O que Portugal aprendeu em 2015 é que vender mal custa caro: teve que recomprar cinco anos depois", observa.
A privatização de 2015 e o retorno ao Estado
A TAP já foi privatizada uma vez. Em 2015, o governo português vendeu 61% da companhia ao consórcio Atlantic Gateway, do empresário brasileiro-americano David Neeleman — fundador da Azul — e do português Humberto Pedrosa. O Estado retomou parte do controle no ano seguinte, com mudança de governo, e em 2020 recomprou a participação privada para viabilizar o resgate. Neeleman deixou a empresa. É esse histórico que explica a cautela atual: a venda a um grande grupo europeu, e não a um investidor financeiro, é vista como garantia de continuidade operacional.
O que muda para o passageiro
No curto prazo, nada: a TAP segue operando normalmente, com a mesma malha e o mesmo programa de fidelidade. No médio prazo, a integração a um grande grupo tende a trazer código compartilhado ampliado, acesso a mais destinos via conexão e, possivelmente, entrada na aliança global do comprador — SkyTeam, no caso da Air France-KLM, ou Star Alliance, à qual a TAP já pertence, no caso da Lufthansa. O risco, apontado por analistas, é a racionalização de rotas: um comprador pode preferir concentrar o tráfego Brasil–Europa em seu próprio hub, reduzindo a oferta de Lisboa. As garantias que o governo português negocia servem exatamente para impedir isso.
Star Alliance ou SkyTeam: o efeito nas milhas
A TAP integra a Star Alliance, a mesma aliança da Lufthansa — o que tornaria a integração com o grupo alemão mais simples para o passageiro: acúmulo e resgate de milhas, salas VIP e conexões continuariam no mesmo ecossistema. A Air France-KLM, por sua vez, lidera a SkyTeam; uma aquisição pelo grupo franco-holandês provavelmente levaria a TAP a trocar de aliança, como aconteceu com a ITA Airways ao entrar no grupo Lufthansa. Para o brasileiro que acumula milhas no programa da TAP ou em parceiros como Latam Pass, Smiles e TudoAzul, a mudança de aliança altera com quem as milhas conversam — detalhe que pesa na escolha de companhia para quem voa com frequência à Europa.
Empregos e a pressão sindical
Os sindicatos de pilotos, tripulantes e pessoal de terra da TAP acompanham a privatização com desconfiança: a reestruturação de 2021 já cortou salários e postos, e a entrada de um grupo estrangeiro traz o temor de novas racionalizações — transferência de manutenção para hubs do comprador, redução da frota baseada em Lisboa, perda de rotas. O governo português promete garantias contratuais de emprego e de permanência da sede e da manutenção em Portugal, mas a experiência europeia mostra que garantias desse tipo têm prazo e que, passado ele, a lógica do grupo prevalece. É um dos pontos centrais da negociação das próximas semanas.
Reestruturação: o que a Comissão Europeia impôs
O plano aprovado por Bruxelas em 2021 exigiu redução de frota, devolução de slots — direitos de pouso e decolagem — em Lisboa a concorrentes, cortes de pessoal com renegociação de acordos coletivos e limite ao crescimento até o fim do período de reestruturação. A TAP cumpriu o plano, voltou ao lucro e recuperou capacidade. A privatização é o passo que a Comissão considera natural: auxílio estatal em aviação é autorizado como exceção, com a expectativa de que a empresa volte ao mercado.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o desfecho interessa ao Brasil mais do que parece. "Um em cada três brasileiros que voa para a Europa passa por Lisboa, e a TAP é a razão. Se o comprador mantiver e ampliar o hub, o Brasil ganha mais oferta e mais concorrência com Latam e Azul; se encolher Lisboa, perde. O governo brasileiro não tem assento na mesa, mas as companhias brasileiras e a Anac deveriam acompanhar de perto: a malha Brasil–Europa vai ser redesenhada pelo resultado dessa negociação", analisa.
O governo português deve concluir a fase de negociações paralelas com Air France-KLM e Lufthansa nas próximas semanas e anunciar o candidato escolhido para a negociação final. A conclusão da privatização depende de aprovação das autoridades de concorrência da União Europeia.