Trump assina decretos para conter preço recorde da carne nos EUA
Medidas chegam uma semana após o governo ampliar em 300 mil toneladas a cota de importação de carne magra com tarifa reduzida, decisão que pecuaristas criticam.
Trump assina decretos para conter preço recorde da carne nos EUA: pecuaristas poderão proteger rebanhos de lobos e processar carne na própria fazenda, e rótulo de origem volta à pauta; rebanho americano é o menor em 75 anos
O presidente Donald Trump assinou nesta sexta-feira (4), no Salão Oval, decretos destinados a ajudar pecuaristas americanos a proteger seus rebanhos de lobos-cinzentos, ampliar o processamento de carne nas próprias propriedades e avançar na adoção de rótulos com o país de origem. As medidas integram a investida do governo para reduzir os preços recordes da carne bovina nos Estados Unidos — num momento em que o rebanho do país caiu ao menor patamar em 75 anos, após secas e incêndios florestais. O decreto sobre rotulagem não restabelece a obrigatoriedade: Trump admitiu que são necessárias medidas adicionais, incluindo aprovação do Congresso. As informações são da Folha de S.Paulo.
A iniciativa ocorre enquanto o governo enfrenta pressões conflitantes: de um lado, consumidores diante da carne mais cara da história; de outro, pecuaristas que criticam o esforço de Trump para aumentar as importações. Na semana anterior, o governo ampliou temporariamente em 300 mil toneladas a cota de importação de carne bovina magra com tarifas reduzidas, argumentando que é preciso aumentar a oferta para baixar preços. Os produtores reagiram: mais importação pressiona os preços do gado americano e desestimula a recomposição do rebanho.
Lobos: a queixa antiga do Oeste
A medida sobre os lobos atende a uma reivindicação histórica dos pecuaristas dos estados do Oeste — Montana, Wyoming, Idaho, Colorado —, que afirmam que os lobos-cinzentos atacam o gado, sobretudo bezerros, provocando perdas e obrigando a gastar mais em monitoramento e proteção. Os lobos seguem protegidos pela Lei de Espécies Ameaçadas em grande parte do país, com proteções que variam por região; o decreto facilita ações de defesa dos rebanhos dentro dos limites legais. Para ambientalistas, é o primeiro passo para afrouxar a proteção de uma espécie reintroduzida a duras penas nos anos 1990.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, os decretos são política de gesto num problema de oferta. "Carne cara nos EUA tem uma causa: o menor rebanho em 75 anos, por seca, incêndio e custo de ração. Isso não se resolve com decreto sobre lobo ou com rótulo — leva anos de recomposição de matrizes. Trump precisa de alívio antes das eleições de novembro, e a única ferramenta rápida é importar mais, o que ele fez com a cota de 300 mil toneladas. Os decretos de hoje são o afago ao pecuarista que ficou bravo com a importação. É política de duas mãos: importa para o consumidor, decreta para o produtor", avalia.
Processar na fazenda
O decreto que facilita o processamento e a venda de alimentos provenientes das próprias propriedades mira a concentração da indústria frigorífica americana: quatro empresas — Tyson, JBS, Cargill e National Beef — abatem mais de 80% do gado do país, e o pecuarista depende delas para transformar o animal em carne. Permitir abate e venda direta em pequena escala, com regras sanitárias simplificadas, é bandeira antiga de produtores e de defensores de cadeias curtas — e uma forma de pressionar os frigoríficos, acusados de manter preços altos ao consumidor e baixos ao produtor.
Rótulo de origem: a história
A rotulagem obrigatória do país de origem para carnes bovina e suína existiu nos EUA até 2015, quando o Congresso a revogou após decisões da Organização Mundial do Comércio favoráveis ao Canadá e ao México, que a consideravam discriminatória. Desde então, o rótulo "Produto dos EUA" é voluntário, desde que cumpra as exigências federais. Pecuaristas querem a obrigatoriedade de volta, para diferenciar a carne nacional da importada — argumento que ganha força justamente quando o governo amplia importações. O decreto de Trump avança no tema sem restabelecer a obrigação, que depende do Congresso e voltaria a enfrentar contestação na OMC.
Importações: o Brasil na equação
A ampliação da cota de carne magra com tarifa reduzida interessa diretamente ao Brasil, maior exportador mundial e fornecedor relevante para os EUA de carne industrial — a usada em hambúrguer e processados. Com a cota chinesa esgotada e os frigoríficos brasileiros redirecionando volumes, o mercado americano é o destino natural — apesar das tarifas de 25% e 12,5% impostas em julho a produtos brasileiros. As 300 mil toneladas adicionais são oportunidade; a resistência dos pecuaristas americanos e a pauta da rotulagem são o risco de que ela seja temporária.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o Brasil entra pela porta dos fundos. "Os EUA taxam o Brasil em julho e ampliam a cota de carne em agosto — porque o hambúrguer americano precisa de carne magra que o rebanho de 75 anos atrás não fornece. O frigorífico brasileiro vende, o consumidor americano paga menos, o pecuarista de Montana reclama, e Trump assina decreto sobre lobo para acalmá-lo. É a contradição da política comercial: proteger o produtor e baixar o preço ao mesmo tempo, com importação do país que se taxa. O Brasil ganha no curto prazo; a rotulagem obrigatória, se voltar, é o instrumento para tirar esse ganho", observa.
Rebanho de 75 anos: como se chegou aqui
O rebanho bovino americano vem encolhendo desde 2019, por uma sequência de secas no Sul e no Oeste que reduziram pastagens e encareceram a ração, forçando pecuaristas a abater matrizes em vez de mantê-las. Incêndios florestais destruíram pastos e estruturas. Com menos vacas, nascem menos bezerros, e a recomposição leva ao menos três anos — o tempo de uma bezerra virar matriz e parir. O resultado é a menor oferta de gado em três quartos de século, o preço recorde no varejo e a dependência de importação para a carne industrial.
Inflação de alimentos e eleição
A carne é o item mais visível da inflação de alimentos nos EUA, e o preço do hambúrguer e do bife é tema de campanha — Trump prometeu baixar o custo de vida e enfrenta, em novembro, eleições de meio de mandato com o controle do Congresso em jogo. A combinação de importação ampliada e decretos para o produtor é a tentativa de mostrar ação nas duas pontas. O efeito sobre o preço, porém, depende da oferta global — e a alta mundial dos alimentos, apontada pela FAO, não ajuda.
Quatro frigoríficos: a concentração
O decreto sobre processamento na fazenda ataca uma estrutura que o próprio governo americano investiga há anos: a concentração do abate em Tyson, JBS — a brasileira, maior processadora de carne do mundo —, Cargill e National Beef. Com quatro empresas controlando mais de 80% do abate bovino, o pecuarista tem poucos compradores e pouco poder de negociação, enquanto o consumidor paga preços que os frigoríficos definem. O Departamento de Justiça e o de Agricultura abriram investigações sobre práticas de preço no setor; permitir abate e venda direta em pequena escala é a resposta estrutural — lenta, porque exige inspeção sanitária e investimento, mas que reduz a dependência dos gigantes. Para a JBS, presente nos dois lados — como frigorífico nos EUA e como exportadora no Brasil —, a política americana é ambígua: perde com a desconcentração, ganha com a cota de importação.
O que muda para o pecuarista brasileiro
Para o produtor brasileiro, os decretos são neutros; a cota é positiva. O que merece atenção é a rotulagem: se o Congresso americano restabelecer a obrigatoriedade, a carne brasileira passa a ser identificada no varejo — o que, num ambiente de nacionalismo comercial, pode reduzir a demanda. E a pressão dos pecuaristas americanos contra a importação tende a crescer se os preços do gado caírem. É um mercado que se abre por necessidade e pode se fechar por política, como o chinês se fechou por cota.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o episódio ilustra o limite dos decretos. "Trump assina, os pecuaristas aplaudem, e o rebanho continua sendo o menor em 75 anos. Nenhum dos três decretos produz um bezerro a mais. O que produz é o tempo — e o tempo não vota em novembro. Enquanto isso, a carne brasileira entra pela cota ampliada e ajuda a segurar o preço que Trump prometeu baixar. É o Brasil resolvendo, sem querer, o problema eleitoral americano — e sendo taxado por isso na mesma semana. O agro brasileiro deveria cobrar coerência de Washington, mas vai preferir vender", analisa.
Os decretos assinados por Donald Trump sobre proteção de rebanhos, processamento de carne e rotulagem de origem entram em vigor após publicação. A ampliação temporária da cota de importação de carne bovina magra, de 300 mil toneladas, já está em vigor.