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Economia

Livro "Entre Crises" explora o paradoxo brasileiro

Weller e Zamberlan Pereira, da FGV, dizem que o contraste entre período áureo e décadas de estagnação é simplista; a ideia do livro nasceu depois da pandemia.

Capa do artigo Livro "Entre Crises" explora o paradoxo brasileiro
— Foto: Bruna Grando (Projeto Mais+) / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Livro "Entre Crises" explora o paradoxo brasileiro: entre 1981 e 2023, o PIB per capita cresceu menos de 1% ao ano, contra mais de 4% entre 1941 e 1980 — mas em 1980, após o "milagre", a expectativa de vida era de 62,5 anos, a mesma dos Estados Unidos de 1940, e nas "décadas perdidas" o país reduziu a pobreza extrema de 45% da população, em 1984, para menos de 10%, em 2014; professores da FGV contam a história da política econômica do fim da ditadura ao governo Dilma

O mais novo manual de história econômica na praça, escrito por uma dupla de professores da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas, traz novidades importantes sobre o passado recente do país. Leonardo Weller e Thales Zamberlan Pereira, autores de "Entre Crises", buscam convencer o leitor de que está errado o contraste simplista — ainda muito repetido — entre um período áureo de desenvolvimento econômico, que vai da década de 1930 ao fim da ditadura, e décadas perdidas, desde então, nas quais o país teria feito pouco mais do que patinar. As informações são da Folha.

É verdade que, comparando as taxas de crescimento do PIB per capita e da produtividade nos dois períodos, não há dúvida de que elas avançaram bem mais no miolo do século 20: entre 1981 e 2023, o PIB per capita cresceu em média menos de 1% ao ano, enquanto nas quatro décadas entre 1941 e 1980 a renda havia avançado a mais de 4% ao ano. Como relativizar diferenças dessa magnitude? Esses números, por mais impressionantes, não contam toda a história: apesar do veloz crescimento das décadas anteriores, em 1980 a expectativa de vida do brasileiro era de 62,5 anos — a mesma dos Estados Unidos em 1940 —, e essa diferença de quatro décadas na evolução da expectativa de vida tinha se mantido constante desde 1940, quando começa a série do IBGE; apesar de todo o crescimento, o avanço social foi lento. O contrário aconteceu no período seguinte: apesar da produtividade que andava de lado, o Brasil reduziu radicalmente a pobreza — em 1984, 45% da população vivia com renda que não permitia comprar uma cesta de alimentos capaz de suprir o consumo mínimo de calorias; três décadas depois, em 2014, menos de 10% estavam abaixo dessa linha. O livro se propõe a explicar o aparente paradoxo: como um período de baixo crescimento, encapsulado entre duas das maiores crises da história — a da dívida, no início dos anos 1980, e a do governo Dilma, na década de 2010 — foi também a época em que o Brasil virou outro país, muito menos desigual socialmente? Weller disse ter tido clareza sobre o enquadramento do livro logo depois da pandemia.

Crescer sem incluir, incluir sem crescer: os dois Brasis que o livro compara

O "milagre" de 1968 a 1973, com PIB crescendo 10% ao ano, e a industrialização de Vargas a Geisel produziram a oitava economia do mundo em 1980 — e um país em que metade da população era pobre, a mortalidade infantil passava de 80 por mil, o analfabetismo alcançava um quarto dos adultos e a concentração de renda estava entre as piores do planeta, porque o modelo, sob ditadura, crescia pelo investimento estatal e pela repressão salarial, sem previdência universal, saúde pública ou educação de massa; a redemocratização inverteu a lógica com a Constituição de 1988 — SUS, Previdência rural, assistência social, vinculação de recursos à saúde e à educação —, o Plano Real de 1994 acabou com a inflação que corroía a renda dos pobres, o salário mínimo dobrou em termos reais entre 1995 e 2014, o Bolsa Família alcançou 14 milhões de famílias e a escolaridade média subiu de quatro para nove anos — tudo numa economia que cresceu pouco, gastou muito e pagou juros altos, e que quebrou duas vezes, em 1982 e em 2015. A tese de Weller e Pereira, historiadores econômicos da FGV com trabalhos sobre dívida, bancos e o século 19, é que a comparação por PIB esconde a escolha política feita em 1988: distribuir antes de crescer, ou crescer distribuindo pouco; e que o custo dessa escolha — produtividade estagnada, carga tributária de 33% do PIB, dívida crescente — é o preço do avanço social, não um fracasso à parte. O enquadramento pós-pandemia, citado por Weller, é revelador: a covid mostrou que o SUS, o auxílio emergencial e a rede de proteção construídos nas "décadas perdidas" são o que separou o Brasil de uma catástrofe maior — e que o debate sobre crescimento precisa incluir o que o país decidiu comprar com o crescimento que não teve.

Para , editor do portal, o livro corrige uma narrativa que atravessa a política brasileira. "A direita diz que o Brasil parou depois de 1980 e precisa voltar a crescer como na ditadura; a esquerda diz que a democracia trouxe justiça social. Os dois têm o número certo e a conclusão errada. O Brasil da ditadura crescia 4% ao ano e tinha expectativa de vida de país africano; o Brasil da democracia cresce 1% e tirou 35% da população da fome. Não é acidente: é o que a Constituição de 1988 mandou fazer, e custou produtividade, imposto e juro. A pergunta que o livro coloca é se dá para ter os dois — crescer e incluir —, e a resposta honesta é que ninguém tentou de verdade. O portal registra e recomenda a quem vai votar em outubro: cada candidato promete um dos dois lados; o livro mostra por que os dois lados existem", avalia.

Os números do contraste

PIB per capita: mais de 4% ao ano entre 1941 e 1980, menos de 1% entre 1981 e 2023; expectativa de vida: 62,5 anos em 1980, igual à americana de 1940; pobreza alimentar: 45% em 1984, menos de 10% em 2014. Os dados, do IBGE e de séries históricas, sustentam a tese de que crescimento e avanço social se desencontraram nos dois períodos.

1941-1980: o crescimento que não incluiu

Industrialização, Brasília, milagre, Itaipu — o Estado investiu, a economia cresceu, e a renda concentrou-se; sem saúde pública universal, previdência ampla ou escola para todos, o brasileiro médio de 1980 vivia como o americano de 1940. O livro descreve o modelo e seu esgotamento na crise da dívida.

1981-2014: a inclusão sem crescimento

Constituição de 1988, Real, salário mínimo, Bolsa Família, expansão do ensino — políticas que tiraram dezenas de milhões da pobreza enquanto a produtividade estagnava; o período termina na crise de 2015-16, a maior recessão da história recente, que o livro trata como o fechamento do ciclo aberto em 1982.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o paradoxo tem uma explicação que o livro deve enfrentar. "O Brasil escolheu, em 1988, gastar em gente antes de gastar em máquina — e é uma escolha legítima que salvou vidas. Mas gastar em gente sem produtividade significa financiar com imposto e dívida, e é daí que vêm os 33% de carga e os juros de 14% que o país discute hoje. A questão não é reverter a escolha; é como fazer a economia crescer com ela. Nenhum governo desde Itamar conseguiu — nem FHC, nem Lula, nem Dilma, nem Bolsonaro. O portal registra o livro como leitura obrigatória para quem quer entender por que Araras tem SUS, escola e Bolsa Família e, ao mesmo tempo, indústria que não cresce", observa.

Weller e Pereira: os autores

Historiadores econômicos da FGV EESP, com pesquisas sobre dívida externa, sistema bancário, escravidão e o século 19; "Entre Crises" é o primeiro manual da dupla sobre o período contemporâneo e chega às universidades como alternativa aos livros de história econômica que param no Real ou tratam a redemocratização como fracasso.

Da crise da dívida à crise de Dilma: o arco do livro

Moratória de 1987, hiperinflação, Collor, Real, âncora cambial e crise de 1999, metas de inflação, boom das commodities, Lula, crise de 2008, Dilma e a nova matriz econômica, recessão de 2015-16 — o livro percorre a política econômica de cada governo e a relaciona aos indicadores sociais, que melhoram apesar dos ciclos.

A pandemia como ponto de partida

Weller relata que o enquadramento surgiu após a covid: a rede de proteção construída nas décadas de baixo crescimento — SUS, assistência, Cadastro Único — foi o que permitiu ao país responder à emergência; a percepção de que o "fracasso" econômico escondia um sucesso social orientou o livro.

O debate para 2026

Com a eleição em outubro e candidatos prometendo ou "voltar a crescer" ou "manter as conquistas", o livro oferece o contexto que a campanha não dá: os dois objetivos foram, historicamente, alternativos — e o desafio do próximo governo é o que nenhum anterior resolveu: conciliá-los.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o número mais importante do livro é o da expectativa de vida. "Em 1980, no auge do milagre, o brasileiro vivia 62 anos, como o americano de 1940. Hoje vive 76. Isso é o que as 'décadas perdidas' compraram com o crescimento que não tiveram — quatorze anos de vida por pessoa. Quem chama isso de fracasso está medindo com a régua errada. O portal registra a tese de Weller e Pereira e a pergunta que fica: agora que o país vive mais e come, como faz para produzir mais? Ninguém respondeu, e é a pergunta da eleição", analisa.

O livro "Entre Crises", de Leonardo Weller e Thales Zamberlan Pereira, professores da Escola de Economia de São Paulo da FGV, sobre a história da política econômica brasileira do fim da ditadura ao governo Dilma e o paradoxo entre baixo crescimento e avanço social, foi resenhado pela Folha em 4 de setembro de 2026.

Fontes e referências

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