Brasil tem 2 milhões de pessoas trabalhando por aplicativos, a imensa maioria por conta própria
Levantamento experimental inclui pela primeira vez quem usa apps como renda complementar; plataformizados são 1,9% dos ocupados, três em cada quatro em transporte.
Brasil tem 2 milhões de pessoas trabalhando por aplicativos, a imensa maioria por conta própria, com jornadas mais longas e ganho por hora menor que os demais ocupados do setor privado: Pnad do IBGE mostra 1,2 milhão em transporte de passageiros — 1,1 milhão em Uber e 99 —, 376 mil entregadores de iFood, Rappi e Zé Delivery e 313 mil em serviços profissionais; entre os que têm o app como ocupação principal, o número cresceu 9,1% em um ano e 36,8% em três, com entregadores em alta de 18,6%
Cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos no país em 2025 — a imensa maioria por conta própria, com jornadas semanais mais longas que os demais ocupados no setor privado e ganhando menos por hora trabalhada. A constatação faz parte de uma edição sobre trabalho por meio de plataformas digitais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgada nesta sexta-feira (4 de setembro) pelo IBGE. As informações são da Agência Brasil.
O IBGE buscou informações de pessoas com 14 anos ou mais que utilizam aplicativos para serviços de transporte e entregas — os "plataformizados", na classificação do instituto: o contingente de 1,959 milhão representava 1,9% do total de ocupados. Cerca de 1,2 milhão utilizam apps de transporte de passageiros, praticamente seis em cada dez plataformizados (58,9%) — 1,1 milhão em plataformas como Uber e 99 e 232 mil exclusivamente em apps de táxi. Um em cada cinco (19,2%) era entregador de apps de comida e produtos — 376 mil pessoas trabalhando para Rappi, iFood, Zé Delivery e outros. O IBGE mapeou ainda a categoria de apps de serviços gerais ou profissionais, que inclui designers, tradutores e até telemedicina — quando o médico usa a plataforma para captar pacientes —: 313 mil pessoas, 16% do total. A atividade de transporte, armazenagem e correios concentra 75% dos plataformizados — de cada quatro, três atuam nela. A pesquisa é experimental, em fase de teste, e já foi realizada em 2022 e 2024; diferentemente de 2025, as edições anteriores buscaram apenas quem tinha os apps como ocupação principal, deixando de fora quem os usava como renda complementar — por isso, o número de 2 milhões não é comparável. Considerando apenas a ocupação principal, o número de 2025 chega a 1,8 milhão, comparável: crescimento de 9,1% em um ano e de 36,8% em três. Entre 2024 e 2025, o número de entregadores cresceu 18,6% — a única ocupação com variação de dois dígitos.
O retrato que a Pnad confirma: mais horas, menos por hora, sem proteção
O que o IBGE mede pela primeira vez com abrangência nacional é o que motoristas e entregadores dizem há uma década: o trabalho por aplicativo é longo — jornadas acima das 44 horas semanais são comuns, com motoristas de Uber e 99 relatando 50 a 60 horas para compensar a queda do valor por corrida —, é mal pago por hora — o ganho líquido, descontados combustível, manutenção, aluguel do veículo e a taxa da plataforma, fica frequentemente abaixo do salário mínimo por hora — e é desprotegido: conta própria significa sem INSS recolhido, sem férias, sem 13º, sem seguro-acidente, sem FGTS, com o risco do trânsito e do assalto por conta do trabalhador. O crescimento de 36,8% em três anos entre os que têm o app como ocupação principal, e de 18,6% em um ano só entre entregadores, mostra que a plataforma virou a porta de entrada — e muitas vezes a única — do mercado de trabalho para jovens sem qualificação formal, migrantes, desempregados da indústria e do comércio e aposentados que complementam renda; os 313 mil em serviços profissionais indicam que a lógica chega a médicos, designers e tradutores. O número de 2 milhões — 1,9% dos ocupados — parece pequeno diante de 100 milhões de trabalhadores, mas é maior que o de toda a indústria automobilística e sua cadeia, e concentra-se nas grandes cidades e nas médias, como Araras, onde motoristas de 99 e entregadores de iFood são parte visível da rua. A pesquisa chega em ano eleitoral e com o projeto de regulamentação dos motoristas de aplicativo — enviado ao Congresso em 2024 com contribuição previdenciária e remuneração mínima por hora — parado, sem consenso entre plataformas, trabalhadores e governo. Os dados do IBGE dão ao debate o que faltava: tamanho, perfil e tendência.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a pesquisa nomeia uma classe trabalhadora que a lei ainda finge não ver. "Dois milhões de brasileiros trabalham mais horas, ganham menos por hora e não têm nenhum direito — e o Estado só agora conta quantos são. Motorista de 99 em Araras roda dez horas para tirar R$ 150, paga gasolina, aluguel do carro e a taxa da plataforma, e se bater ou for assaltado está por conta própria. É o emprego que a indústria não oferece mais e que o comércio não paga. O IBGE mostra que cresce 9% ao ano, 18% entre entregadores, e que já chega a médico e designer. O projeto de regulamentação está parado desde 2024 porque as plataformas não querem custo e os trabalhadores não querem virar CLT com jornada controlada. O portal registra o número e a pergunta: quem vai representar 2 milhões de pessoas que não têm sindicato, patrão nem contrato?", avalia.
Os números: 1,959 milhão e 1,9% dos ocupados
Do total, 1,2 milhão em transporte de passageiros (1,1 milhão em Uber, 99 e similares; 232 mil em apps de táxi), 376 mil entregadores, 313 mil em serviços gerais ou profissionais; 75% na atividade de transporte, armazenagem e correios. Contando só a ocupação principal, 1,8 milhão — base comparável com 2022 e 2024.
Crescimento: 9,1% em um ano, 36,8% em três
A alta entre os que vivem do app como ocupação principal é consistente e acima do crescimento do emprego total; entregadores lideram, com 18,6% em um ano — reflexo da expansão do delivery, do e-commerce e da entrada de novas plataformas, como a Keeta, que o Cade analisou.
Conta própria: o que significa na prática
Sem vínculo, o trabalhador é responsável por veículo, combustível, manutenção, seguro e previdência; a plataforma define preço, distribui corridas e pode desativar a conta; é a autonomia sem os direitos do autônomo tradicional — e o cerne do debate regulatório.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, os 313 mil em serviços profissionais são o dado novo. "Todo mundo pensa em motorista e entregador, mas a Pnad mostra 313 mil pessoas — médico, designer, tradutor, professor particular — que captam cliente por plataforma. É a 'uberização' subindo na escala de qualificação: o profissional liberal que vira fornecedor de app, com a plataforma ficando com a taxa e definindo a regra. Daqui a três edições, esse número vai ser o que mais cresce. O portal registra e alerta: a regulamentação que se discute é só para motorista; o resto do trabalho plataformizado está sem lei nenhuma", observa.
Jornadas mais longas, ganho por hora menor
O IBGE confirma: plataformizados trabalham mais horas por semana que os demais ocupados do setor privado e recebem menos por hora — combinação que explica o abandono frequente da atividade e a rotatividade alta; o rendimento bruto pode parecer razoável, mas o líquido, descontados custos, fica próximo ou abaixo do mínimo.
Pesquisa experimental: o que ainda falta medir
A edição de 2025 é a terceira e a primeira a incluir renda complementar; o IBGE ainda testa metodologia e pretende consolidar o módulo; faltam dados sobre rendimento líquido, acidentes, tempo na atividade e perfil regional detalhado — informações que o debate regulatório precisa.
A regulamentação parada
O projeto enviado pelo governo em 2024 previa contribuição previdenciária compartilhada, remuneração mínima por hora trabalhada e representação sindical para motoristas de aplicativo; enfrentou resistência de plataformas e de parte dos próprios trabalhadores, que temem perder flexibilidade, e não avançou. Entregadores ficaram de fora desde o início.
Araras e o interior: o app como emprego local
Em cidades médias, o motorista de 99 e o entregador de iFood substituíram o táxi, o motoboy de empresa e parte do emprego no comércio; a renda circula localmente, mas a taxa vai para a plataforma; a Pnad, ao medir o fenômeno nacionalmente, permite às prefeituras ver o tamanho do setor — e pensar em políticas locais, de pontos de apoio a seguro.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a pesquisa deveria reabrir o debate no Congresso. "O IBGE deu o número: 2 milhões, crescendo 9% ao ano, com jornada maior e renda menor. O governo mandou projeto em 2024 e ele morreu na gaveta; as plataformas lucram, os trabalhadores se viram, e o INSS não recebe nada de 2 milhões de contribuintes potenciais — que vão se aposentar pelo BPC, pagos por todos. Não é ideologia; é conta. O portal registra a Pnad e cobra: alguma proposta, de qualquer candidato, para quem vive do celular e da moto", analisa.
Os dados da edição sobre trabalho por meio de plataformas digitais da Pnad Contínua, que apontam cerca de 2 milhões de trabalhadores por aplicativos no Brasil em 2025, foram divulgados pelo IBGE em 4 de setembro de 2026 e noticiados pela Agência Brasil; a pesquisa é experimental e teve edições anteriores em 2022 e 2024.