IBGE conta 2 milhões de trabalhadores de aplicativo no Brasil
Pnad 2025 mostra 1,1 milhão em transporte de passageiros e 585 mil em entregas; contingente cresceu 36,8% desde 2022. Renda mensal de R$ 3.147 ficou estagnada enquanto a dos demais subiu 4,1%.
IBGE conta 2 milhões de trabalhadores de aplicativo no Brasil: jornada de 44,7 horas semanais, só 34% contribuem ao INSS, informalidade de 72% e renda por hora 12% menor que a dos demais — e apenas 1 em 5 motociclistas tem cobertura previdenciária
O Brasil tinha cerca de 2 milhões de pessoas exercendo trabalho principal ou secundário por meio de aplicativos de serviços em 2025, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (4) pelo IBGE. O grupo reúne motoristas, entregadores e outros profissionais cadastrados em plataformas como Uber, 99 e iFood. Mais da metade — 1,1 milhão, ou 53,9% — atuava no transporte particular de passageiros; em seguida vêm entregas de comida e produtos (585 mil, 29,9%), serviços gerais (313 mil, 16%) e táxi (232 mil, 11,8%), com sobreposição entre atividades. Os dados são da Pnad Contínua, que investigou o tema também em 2022 e 2024. As informações são da Folha de S.Paulo.
O retrato é de jornada mais longa e proteção menor: os trabalhadores plataformizados têm semanas mais extensas do que os demais profissionais e contribuem menos para a Previdência. O IBGE afirma que os aplicativos geram renda para muitas pessoas e oportunidade de novos mercados e redução de custos para empresas, mas representam "um desafio importante no que se refere às condições laborais".
1,8 milhão no trabalho principal: +36,8% em três anos
Dos 2 milhões, 1,8 milhão (92,1%) usava os aplicativos como trabalho principal — contingente que cresceu 36,8% em relação a 2022, quando era de 1,3 milhão: 486 mil pessoas a mais em três anos, o equivalente a mais de seis Maracanãs. Outros 182 mil usavam os apps como trabalho secundário, para complementar a renda de outro emprego, e 28 mil nas duas condições. Foi a primeira vez que o IBGE incluiu o trabalho secundário na pesquisa, o que impede comparar o total com anos anteriores. Os 2 milhões representavam 1,9% da população ocupada de 14 anos ou mais (102,4 milhões) — 2,4% no Sudeste, 1,4% no Sul e no Norte — e superam a população inteira de Curitiba.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o número que define a pesquisa é o crescimento. "Meio milhão de pessoas a mais em três anos trabalhando por aplicativo como ocupação principal — e a renda por hora estagnada. É a lei da oferta: cada novo motorista divide a mesma corrida. O IBGE está dizendo que os apps funcionam como colchão de desemprego — 0,5 ponto a menos na taxa, segundo a 4intelligence —, mas colchão que afunda: quanto mais gente entra, menos cada um ganha. E dois em cada três não pagam INSS. É uma geração inteira de trabalhadores que vai chegar aos 65 anos sem aposentadoria", avalia.
44,7 horas por semana
Os profissionais com trabalho principal nos apps tinham jornada média de 44,7 horas semanais em 2025 — 5,4 horas a mais do que a média dos demais ocupados do setor privado (39,3 horas). É jornada acima do limite constitucional de 44 horas, sem hora extra, sem adicional noturno, sem descanso remunerado: quem dirige por aplicativo trabalha mais para ganhar o mesmo, e a "flexibilidade" que 26,8% apontam como motivo para estar ali é, na prática, liberdade para trabalhar mais.
INSS: 34%, e 19% entre motociclistas
A cobertura previdenciária era de apenas 34% entre quem usa os aplicativos como trabalho principal — quase metade dos 63% entre os profissionais do setor privado fora das plataformas. A informalidade alcança 72,1% dos trabalhadores de app, contra 42,7% fora deles. O dado mais grave está entre os motociclistas: só 19,4% estavam cobertos pela Previdência em 2025 — um em cada cinco —, contra 37,1% dos não plataformizados. Entre motoristas de carro, 25,5% dos vinculados a apps contribuíam, contra 59,2% da categoria fora das ferramentas. "Uma pequena parcela desses plataformizados tinha acesso à seguridade social, embora eles estejam expostos a acidentes de trânsito e outros riscos", resume o IBGE.
Renda: R$ 16,20 por hora, 12% a menos
A renda média do trabalho por hora foi de R$ 16,20 para os trabalhadores de apps em 2025 — 12% abaixo dos R$ 18,40 dos não plataformizados do setor privado. A diferença é puxada pela camada mais escolarizada: quem tem ensino superior completo ganha R$ 27,70 por hora nos apps, 25,3% menos que os R$ 37,10 de quem tem o mesmo diploma fora deles. Já no grupo sem instrução ou com fundamental incompleto, os apps pagam 11,5% a mais (R$ 12,60 contra R$ 11,30). A renda mensal do trabalho principal foi de R$ 3.147, praticamente igual aos R$ 3.148 dos demais — mas estagnada em relação a 2024, enquanto a dos outros ocupados subiu 4,1% em termos reais.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a pesquisa desmonta dois mitos ao mesmo tempo. "O primeiro é que app é bico de estudante: 92% usam como trabalho principal, 47% têm de 25 a 39 anos, 62% têm ensino médio completo. É a classe trabalhadora jovem do Brasil. O segundo é que app paga bem: paga igual ao emprego formal por mês — R$ 3.147 — trabalhando cinco horas a mais por semana, sem férias, sem 13º, sem INSS. E o diplomado ganha 25% menos que o diplomado com carteira. O aplicativo é o emprego formal com os direitos retirados. O IBGE mediu; falta o Congresso ler", observa.
Por que estão lá: flexibilidade, falta de emprego, renda
A Pnad de 2025 investigou os motivos: flexibilidade foi a razão mais apontada (26,8%), seguida pela falta de outro emprego (24,6%) e pela renda maior do que em outros trabalhos disponíveis (20,8%). Um em cada quatro está no app porque não achou outra coisa — o retrato de um mercado de trabalho que gera ocupação sem gerar emprego. Gustavo Geaquinto Fontes, analista do IBGE, afirma que a Pnad não identificou ganhos salariais entre condutores de carros e motos em 2025, e aponta como explicação possível o aumento da oferta de trabalho nas plataformas.
Quem são: homens, jovens, ensino médio
Homens são 84,4% dos que usam apps como trabalho principal — proporção muito superior aos 58,2% da população ocupada fora das plataformas. A faixa de 25 a 39 anos concentra 47%, enquanto fora dos apps o grupo mais numeroso é o de 40 a 59 anos. Mais da metade (62,5%) tem ensino médio completo ou superior incompleto. É a força de trabalho jovem, masculina e de escolaridade média que, em outra década, estaria em emprego formal de comércio, indústria ou serviços.
O efeito no desemprego
Segundo estimativa do economista Bruno Imaizumi, da 4intelligence, as atividades via aplicativos reduzem a taxa de desemprego do Brasil em 0,5 ponto percentual — impacto que ele considera relevante e que tende a crescer com a entrada de mais empresas no mercado. É o lado positivo que o IBGE reconhece: sem os apps, meio ponto a mais de desemprego. O lado negativo é o que a pesquisa detalha — jornada, renda estagnada, ausência de proteção.
Regulamentação: o projeto parado
O governo enviou ao Congresso em 2024 projeto de lei complementar para regulamentar o trabalho de motoristas de aplicativo, com contribuição previdenciária compartilhada, remuneração mínima por hora e limite de jornada — negociado com as plataformas e com parte das entidades de trabalhadores. O texto não avançou na Câmara, e os entregadores ficaram de fora. Os dados de 2025 mostram o custo da paralisia: mais 486 mil pessoas no setor sem que a regra tenha mudado. A União Europeia aprovou diretiva sobre trabalho em plataformas em 2024; o Brasil segue com a discussão travada.
Acidentes e o risco sem rede
O IBGE destaca a exposição a acidentes de trânsito — e os números de motociclistas, com 19% de cobertura previdenciária, são o retrato do risco sem rede: o entregador que se acidenta sem contribuir ao INSS não tem auxílio-doença, nem aposentadoria por invalidez, nem pensão para a família. O SUS atende; a renda para. É o custo que hoje recai sobre o trabalhador e, indiretamente, sobre o sistema público de saúde — e que a regulamentação pretendia dividir com as plataformas.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a pesquisa é a agenda que a eleição deveria ter. "Dois milhões de pessoas, 72% informais, um em cinco motoboys com INSS. Isso é maior que a categoria dos bancários, dos metalúrgicos, dos professores da rede estadual de São Paulo. E não tem sindicato, não tem convenção, não tem lei. O projeto do governo parou na Câmara porque as plataformas não quiseram pagar e os trabalhadores não quiseram perder a 'flexibilidade'. Enquanto isso, 486 mil entraram. Quem for eleito em outubro vai governar um país em que o emprego que mais cresce é o que não tem direito nenhum. O IBGE deu o número; a política deve a resposta", analisa.
Os dados sobre trabalho por meio de aplicativos integram a Pnad Contínua 2025, divulgada pelo IBGE em 4 de setembro de 2026. O projeto de regulamentação do trabalho de motoristas de aplicativo segue em tramitação na Câmara dos Deputados.