Nestlé vai construir fábrica de fórmulas infantis em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro
Mercado brasileiro de fórmulas é hoje atendido parcialmente por importados; "área de Nutrição e Saúde está entre as quatro prioridades estratégicas", diz o CEO Marcelo Melchior; obras começam em 2027.
Nestlé vai construir fábrica de fórmulas infantis em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, com investimento de R$ 600 milhões: unidade automatizada produzirá Nestogeno, Nestonutri, Ninho 1+ e Ninho 3+ a partir de 2028, gerará 700 empregos nas obras e 100 postos diretos na operação, e usará biometano no lugar do GLP — parte de um plano de R$ 2 bilhões em nutrição e saúde no Brasil até 2028
A Nestlé vai construir em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, uma fábrica de fórmulas infantis com investimento de R$ 600 milhões. A unidade, focada na área de Nutrição e Saúde, deve gerar cerca de 700 empregos diretos e indiretos durante as obras, previstas para começar em 2027, e 100 postos de trabalho diretos quando entrar em operação, a partir de 2028. A planta será automatizada e produzirá inicialmente as fórmulas Nestogeno, Nestonutri, Ninho 1+ e Ninho 3+. As informações são do G1.
Segundo a Nestlé, a fábrica usará biometano como parte da transição energética, substituindo o gás liquefeito de petróleo em processos industriais como câmaras, fornos e caldeiras. O empreendimento integra um plano de investimentos de R$ 2 bilhões da companhia na área de Nutrição e Saúde no Brasil até 2028; inicialmente, a unidade deverá ampliar o abastecimento do mercado brasileiro, hoje atendido parcialmente por produtos importados. "A área de Nutrição e Saúde está entre as quatro prioridades estratégicas de crescimento da Nestlé globalmente e também no Brasil. Ela reúne algumas das categorias de maior valor agregado da companhia, apoiadas por forte investimento em pesquisa, desenvolvimento e tecnologias de produção", afirma Marcelo Melchior, CEO da Nestlé Brasil.
Por que fórmulas infantis — e por que no Brasil
Fórmulas para lactentes e crianças pequenas são um dos produtos de maior margem e regulação mais rigorosa da indústria de alimentos: exigem ambiente farmacêutico, rastreabilidade total e aprovação da Anvisa, e boa parte do consumo brasileiro vem de fábricas da Nestlé na Europa e na América Latina — o que encarece o produto, expõe a variações cambiais e a rupturas logísticas como as da pandemia. Produzir no país reduz custo, aproxima a oferta de um mercado de cerca de 2,5 milhões de nascimentos por ano e permite à empresa disputar com Danone — Aptamil, Milnutri — e com marcas de laboratórios. A escolha do Triângulo Mineiro segue a lógica de proximidade com a bacia leiteira — Minas é o maior produtor de leite do país — e com a malha rodoviária que liga o Centro-Oeste a São Paulo; Ituiutaba, com cerca de 100 mil habitantes, já abriga indústrias de laticínios e grãos e ganha, com a Nestlé, seu maior investimento privado em décadas.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o anúncio combina três tendências. "Primeira: nacionalização de produto importado de alta margem — fórmula infantil feita aqui em vez de trazida da Suíça ou do México, com dólar a mais de cinco reais. Segunda: interiorização da indústria — Ituiutaba, não Campinas ou São Paulo, porque o leite, o milho e a terra estão em Minas e a mão de obra custa menos. Terceira: biometano no lugar do GLP, porque o comprador europeu e o investidor exigem descarbonização. Seiscentos milhões, 700 empregos na obra, 100 na operação — a automação explica a diferença. É investimento pequeno para a Nestlé e enorme para uma cidade de 100 mil habitantes. O prefeito que conseguiu isso vai ser reeleito", avalia.
Nestogeno, Nestonutri, Ninho 1+ e 3+: os produtos
Nestogeno e Nestonutri são fórmulas para lactentes, sujeitas à Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes, que restringe publicidade e promoção; Ninho 1+ e 3+ são compostos lácteos para crianças acima de um ano, categoria de maior volume e menos restrição. A fábrica começará por esses quatro e pode ampliar a linha.
Biometano: a energia da fábrica
Produzido a partir de biogás de aterros, vinhaça de usinas de cana ou dejetos agropecuários e purificado a padrão de gás natural, o biometano substitui GLP e gás natural fóssil em caldeiras e fornos com emissão líquida próxima de zero; o Triângulo Mineiro e o interior paulista concentram usinas de cana que passaram a fornecer o combustível, e a Nestlé já o usa em outras unidades.
700 empregos na obra, 100 na operação: a conta da automação
Fábricas de fórmula infantil são altamente automatizadas — mistura, secagem, envase e inspeção sem contato humano, por exigência sanitária —; por isso, o número de postos diretos na operação é baixo em relação ao investimento, e a maior parte do emprego local vem da construção e da cadeia de fornecedores, transporte e serviços.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o plano de R$ 2 bilhões é o dado a acompanhar. "Seiscentos milhões em Ituiutaba são parte de dois bilhões em nutrição e saúde até 2028 — o resto vai para outras fábricas, pesquisa e talvez aquisições. A Nestlé está apostando que o brasileiro vai pagar por fórmula, suplemento e nutrição clínica como paga por café e chocolate. É a mesma lógica global: envelhecimento, saúde, produto de valor agregado. Para Minas, é a confirmação de que o Triângulo virou polo de alimentos — Uberlândia, Uberaba, Patos de Minas, agora Ituiutaba. Para o governo federal, é investimento estrangeiro chegando apesar do juro alto. Para a criança que toma fórmula, é preço menor daqui a dois anos, se o câmbio ajudar", observa.
Anvisa e a lei das fórmulas: o que a fábrica precisa cumprir
Fórmulas infantis são regidas pela Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes, a Lei 11.265, de 2006, e por resoluções da Anvisa que definem composição, rotulagem, registro obrigatório e restrições à publicidade — o objetivo é proteger o aleitamento materno e garantir segurança a bebês que dependem do produto; a fabricação exige ambiente controlado, semelhante ao farmacêutico, com rastreabilidade de cada lote e testes microbiológicos. A planta automatizada de Ituiutaba precisará de licenciamento sanitário e registro dos produtos antes de operar, o que explica o cronograma de dois anos entre obra e produção.
Importação hoje: de onde vêm as fórmulas
Parte relevante das fórmulas vendidas no Brasil é produzida em unidades da Nestlé na Europa e na América Latina e importada — o que sujeita o preço ao câmbio, ao frete e a eventuais rupturas de abastecimento, como as vividas na pandemia e em crises logísticas. A fábrica mineira nacionaliza a produção das marcas de maior volume, reduz a dependência de importação e, segundo a empresa, deve inicialmente atender ao mercado interno, com possibilidade de exportar à América do Sul no futuro.
Ituiutaba: a cidade
Município do Pontal do Triângulo, a cerca de 130 quilômetros de Uberlândia, com economia de agropecuária, laticínios e comércio regional; a chegada da Nestlé é o maior anúncio industrial de sua história e deve puxar fornecedores e serviços. A prefeitura e o governo de Minas negociaram incentivos e infraestrutura, segundo a empresa.
Nestlé no Brasil: a presença
Com mais de 20 fábricas no país e dezenas de milhares de funcionários, a Nestlé opera aqui há mais de cem anos — de Araras, no interior paulista, onde tem uma de suas maiores unidades de bebidas e achocolatados, a Feira de Santana e Caçapava. A nova planta mineira será a primeira dedicada exclusivamente a fórmulas infantis no país.
Mercado de fórmulas: quem disputa
Nestlé e Danone dividem a maior parte do mercado brasileiro, com marcas como Nan, Nestogeno, Aptamil e Milnutri; laboratórios como Abbott e marcas próprias completam. A produção nacional da Nestlé pressiona custos e pode reordenar preços numa categoria em que a família gasta centenas de reais por mês.
2027 e 2028: o cronograma
Licenciamento e projeto em 2026, início das obras em 2027, conclusão e operação a partir de 2028 — prazo que a empresa considera compatível com a complexidade sanitária da planta. A contratação para a obra deve começar no primeiro semestre de 2027.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o anúncio é bom para o Brasil por uma razão simples. "Fórmula infantil é produto que o país importa, paga caro e não pode ficar sem. Fabricar aqui, com leite mineiro e biometano da cana, é segurança alimentar e industrial ao mesmo tempo. A Nestlé escolheu o Brasil porque o mercado é grande e a matéria-prima está do lado; escolheu Ituiutaba porque a cidade quis. Setecentos empregos numa obra e cem numa fábrica automatizada parece pouco, mas é o tipo de emprego que fica — e que traz outros. Que Minas e o governo federal cuidem da estrada e da energia para que a fábrica abra em 2028, e não em 2030", analisa.
O anúncio da fábrica de fórmulas infantis da Nestlé em Ituiutaba, com investimento de R$ 600 milhões, obras a partir de 2027 e operação a partir de 2028, foi feito em 3 de setembro de 2026, segundo o G1. O projeto integra plano de R$ 2 bilhões da empresa em Nutrição e Saúde no Brasil até 2028.