Trabalhador de aplicativo já ganha o mesmo que empregado do setor privado
Renda dos plataformizados ficou estagnada de 2022 a 2025 enquanto a dos demais subiu 10,6%; só 34% contribuem ao INSS e 72% estão na informalidade.
Trabalhador de aplicativo já ganha o mesmo que empregado do setor privado — R$ 3.147 contra R$ 3.148 —, mas trabalha 5,4 horas a mais por semana e recebe R$ 16,20 por hora, mostra IBGE
A vantagem salarial que atraía trabalhadores para os aplicativos desapareceu. Segundo levantamento experimental divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (4), com dados do terceiro trimestre de 2025, quem trabalha por meio de plataformas digitais recebia em média R$ 3.147 por mês — praticamente o mesmo que os demais empregados do setor privado, com R$ 3.148. A diferença é que os plataformizados cumpriram 44,7 horas semanais no trabalho principal, contra 39,3 dos demais: 5,4 horas a mais. Por hora trabalhada, receberam R$ 16,20, contra R$ 18,40. As informações são da BBC News Brasil.
Em 2022, quando a série começou, a situação era outra: R$ 3.115 para quem trabalhava em apps, contra R$ 2.847 dos outros — uma vantagem de quase 10%. De lá para cá, o rendimento dos plataformizados oscilou pouco, enquanto o dos demais ocupados cresceu 10,6% em termos reais. Só no último ano, a renda do setor privado subiu 4,1%, impulsionada por um mercado de trabalho aquecido e desemprego baixo; a dos aplicativos praticamente não se moveu.
Por que a renda parou
"A estabilidade do rendimento médio desses trabalhadores, em parte, vai refletir o fato de que não foi registrado nesse mesmo período nenhum ganho real no rendimento dos motoristas de automóveis ou motocicleta por aplicativo. Cerca de três quartos do total dos plataformizados estão nessas duas categorias", explica Gustavo Geaquinto, analista do IBGE. Sobre a causa, o instituto não conclui: "O que pode estar acontecendo especificamente nessas plataformas? Não se sabe. Pode ter a ver com a oferta de trabalho aumentando nessas plataformas. Podem ter várias questões."
A hipótese da oferta é a mais discutida por economistas: quanto mais gente entra nos aplicativos — e o contingente com plataformas como trabalho principal cresceu 36,8% desde 2022 —, mais motoristas e entregadores disputam as mesmas corridas, e as plataformas não precisam elevar o repasse para manter a frota disponível. É a lógica de um mercado sem piso: o preço do trabalho cai até onde alguém aceita.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o dado é a fotografia de uma promessa que envelheceu. "O aplicativo vendia liberdade e renda acima da média. A liberdade continua — o motorista escolhe a hora de ligar o app. A renda acima da média acabou: hoje ele ganha igual ao empregado com carteira, trabalhando cinco horas a mais e sem férias, 13º, FGTS ou INSS pago pelo patrão. Quando a pesquisa mostra R$ 16,20 por hora contra R$ 18,40, está dizendo que o trabalhador de app já é o mais barato do mercado formal-informal brasileiro", avalia.
Quem são os 2 milhões
O IBGE contou ao menos 2 milhões de pessoas trabalhando por plataformas digitais no terceiro trimestre de 2025 — motoristas de transporte de passageiros, entregadores e comerciantes. Mais da metade, 55,3%, está no Sudeste. Desses, 1,8 milhão têm a plataforma como trabalho único ou principal (92,1%). O transporte particular de passageiros concentra quase 1,2 milhão de pessoas, ou 58,9% do total; o setor de transporte, armazenagem e correios responde sozinho por 75% dos plataformizados. Os aplicativos de entrega reúnem 585 mil trabalhadores.
O perfil é majoritariamente masculino — 84,4% de homens, contra 58,2% no restante do setor privado — e de escolaridade intermediária: 62,5% têm ensino médio completo ou superior incompleto; 8,3% não têm instrução ou não concluíram o fundamental. Para esse grupo de menor escolaridade, curiosamente, a plataforma ainda paga melhor: o ganho por hora é 11,5% superior ao dos demais trabalhadores com a mesma formação. A vantagem que sumiu na média persiste na base.
Por que entram: flexibilidade e falta de opção
Pela primeira vez, o IBGE perguntou o motivo principal para trabalhar por aplicativo. A flexibilidade lidera, citada por 26,8% dos que têm a plataforma como fonte principal de renda. Logo atrás, a falta de outro trabalho: 24,6%. Em terceiro, a percepção de que o rendimento é maior do que em outros empregos, com 20,8% — o caso de Pedro Ivo, de 18 anos, ouvido pela BBC, que deixou um posto de jovem aprendiz com menos de um salário mínimo e diz que a renda "quadruplicou" com as entregas.
Os dois primeiros motivos, somados, dizem mais do que o terceiro: metade dos plataformizados está ali por liberdade de horário ou porque não achou outra coisa. É um retrato de mercado de trabalho que absorve pela porta dos aplicativos quem o emprego formal não absorve — jovens sem experiência, desempregados de longa duração, quem precisa conciliar com estudo ou cuidado.
Informalidade e previdência
Os números de proteção social são os mais contundentes. Em 2025, 62,4% dos ocupados no setor privado contribuíam para o INSS; entre os trabalhadores de aplicativo, apenas 34%. A informalidade era de 72,1% entre os plataformizados, contra 42,7% no restante. Dois em cada três motoristas e entregadores, portanto, não têm cobertura previdenciária — não contam tempo para aposentadoria, não têm auxílio-doença nem salário-maternidade, e um acidente de trânsito em serviço não gera benefício por incapacidade.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, esse é o custo escondido do modelo. "Trinta e quatro por cento contribuindo ao INSS significa que, daqui a vinte anos, dois terços dessa geração de motoristas chegarão à velhice sem aposentadoria contributiva — vão para o BPC, que é pago pelo Tesouro, ou seja, por todos. O aplicativo transfere o risco do trabalho para o trabalhador hoje e para o Estado amanhã. É a conta que o Congresso está sendo chamado a fechar, e é por isso que a regulamentação emperra: alguém tem que pagar", observa.
Dependência: um app, sem alternativa
O IBGE mediu também o grau de dependência em relação às plataformas, analisando quem define o valor do serviço, os prazos, a escolha de clientes e a influência sobre a jornada. "Mesmo na ausência de vínculos empregatícios formais com as empresas que pontuam em tais aplicativos, há evidências de certo grau de dependência da maior parte desses trabalhadores em relação às plataformas", afirma Geaquinto. Dos 1,8 milhão com a plataforma como renda principal, 62,7% atuavam exclusivamente por aplicativos; entre esses, 701 mil usavam um único app.
"Lembrando que trabalhar com um único aplicativo pode não ser uma escolha", pondera o analista. "Às vezes uma pessoa de uma cidade menor no interior só tem um aplicativo disponível. Ou até é um aplicativo local." A consequência é a vulnerabilidade ao bloqueio: o trabalhador desativado pela plataforma, muitas vezes sem explicação, perde a única fonte de renda de um dia para o outro.
O que é trabalho plataformizado
A definição do IBGE segue padrão internacional: plataforma digital é "qualquer interface digital que gere valor econômico ou social" e faça intermediação entre três agentes — a empresa dona da plataforma, o prestador do serviço e o usuário final. O elemento distintivo é o controle: além de conectar, a plataforma "fornece serviços e ferramentas que permanecem sob o controle da unidade econômica" e permite à empresa "exercer algum grau de controle sobre as atividades realizadas" — definir preço, distribuir corridas, avaliar, bloquear. É esse controle que distingue o motorista de app do taxista autônomo e que alimenta a discussão sobre vínculo.
Breque e regulamentação
Na terça-feira (1º), entregadores fizeram manifestações em várias cidades — o "breque dos apps" — pedindo, entre outros pontos, taxa mínima de R$ 10 nas entregas de até quatro quilômetros e mudanças no projeto de lei que regulamenta a categoria. O tema está no Congresso desde 2024, quando o governo enviou proposta de regulamentação para motoristas de transporte por aplicativo, com contribuição previdenciária compartilhada e remuneração mínima por hora trabalhada. Trabalhadores, empresas e governo não chegaram a acordo: as plataformas resistem a pisos e a contribuições, parte dos trabalhadores rejeita qualquer vínculo que reduza a flexibilidade, e o texto avança devagar.
A pesquisa do IBGE entra nesse debate com evidência nova: a renda por hora abaixo da média e a estagnação de três anos dão argumento a quem defende piso; a preferência declarada por flexibilidade dá argumento a quem rejeita o vínculo empregatício clássico. O desafio é um modelo intermediário — proteção sem carteira — que o Brasil ainda não construiu.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a pesquisa muda o tom da conversa. "Até agora o debate era ideológico: liberdade contra direitos. O IBGE colocou número na mesa: 44,7 horas por semana, R$ 16,20 por hora, 34% no INSS, renda parada há três anos. Não dá mais para dizer que o motorista de app é um empreendedor bem remunerado que escolheu não ter direitos. Ele é um trabalhador de jornada longa e renda média que o mercado formal não contratou. Regulamentar é reconhecer isso — e o dado agora existe", analisa.
O levantamento sobre trabalho por plataformas digitais é experimental e integra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE. A próxima edição deve incorporar dados de 2026.