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Trabalho

Trabalhador de aplicativo tem jornada 5,4 horas maior por semana e ganha, em média, R$ 3.147 por mês

Motoristas de carro e moto, três quartos dos plataformizados, não tiveram ganho real; 20,8% dizem trabalhar por app porque a renda é maior, como Pedro Ivo, 18, que "quadruplicou" o que.

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— Foto: Marina ponchio / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Trabalhador de aplicativo tem jornada 5,4 horas maior por semana e ganha, em média, R$ 3.147 por mês — R$ 1 a menos que os demais empregados do setor privado: a vantagem salarial que existia em 2022, quando o plataformizado recebia R$ 3.115 contra R$ 2.847 dos outros, desapareceu em três anos, porque a renda dos demais ocupados cresceu 10,6% e a de quem trabalha por app praticamente não avançou, segundo levantamento experimental do IBGE divulgado nesta sexta-feira

O jovem Pedro Ivo, de 18 anos, começou a trabalhar com entregas em aplicativos no início deste ano, depois de deixar um emprego de jovem aprendiz. "Eu recebia um pouco menos de um salário mínimo e o dinheiro meio que não dava para quase nada", conta; segundo ele, o cálculo fez sentido: "Valeu a pena. A renda acho que quadruplicou do que eu tinha para hoje". Assim como ele, 20,8% dos trabalhadores de plataformas digitais no Brasil trabalham com essa motivação: afirmam que o rendimento é maior do que em outros trabalhos. As informações são da BBC News Brasil.

Mas nos últimos três anos a renda média dos trabalhadores que atuam por meio de plataformas digitais se igualou à dos demais trabalhadores do setor privado — e com um porém: a jornada semanal de quem trabalha por apps é, em média, 5,4 horas maior. Os dados foram divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira (4 de setembro), num levantamento experimental que o instituto faz para obter um raio-x do setor, com informações levantadas no terceiro trimestre de 2025. De 2022 a 2025, o rendimento dos trabalhadores de aplicativos registrou pequena oscilação, enquanto o dos demais ocupados cresceu 10,6%: em 2025, quem trabalhou em apps recebia, em média, R$ 3.147 por mês, e os demais, R$ 3.148; quando a primeira pesquisa da série foi realizada, em 2022, a média mensal era de R$ 3.115 para quem trabalhava em apps, contra R$ 2.847 dos outros — a vantagem salarial desapareceu. Em um ano, a renda de quem estava ocupado no setor privado aumentou 4,1%, devido, entre outros fatores, a um mercado de trabalho aquecido e a uma taxa de desocupação baixa, explica Gustavo Geaquinto, analista do IBGE, enquanto a renda dos trabalhadores de aplicativos praticamente não avançou em termos reais. "A estabilidade do rendimento médio desses trabalhadores, em parte, vai refletir o fato de que não foi registrado nesse mesmo período nenhum ganho real no rendimento dos motoristas de automóveis ou motocicleta por aplicativo; cerca de três quartos do total dos plataformizados estão nessas duas categorias", diz o analista. "O que pode estar acontecendo especificamente nessas plataformas? Não se sabe. Pode ter a ver com a oferta de trabalho aumentando nessas plataformas. Podem ter várias questões. Mas essas duas categorias não tiveram um ganho salarial real nesse período." Na terça-feira (1º de setembro), entregadores de aplicativos realizaram manifestações por melhores condições de trabalho e reajuste nos repasses que recebem das plataformas.

A ilusão da renda maior: como três anos de mercado aquecido apagaram a vantagem do aplicativo

O dado do IBGE é o mais importante já produzido sobre a economia das plataformas no Brasil porque desmonta, com números, o argumento central das empresas e de parte dos próprios trabalhadores — o de que o app paga mais que o emprego formal: em 2022, era verdade, com R$ 268 de vantagem mensal; em 2025, a paridade nominal (R$ 3.147 contra R$ 3.148) esconde uma derrota por hora, já que o plataformizado trabalha 5,4 horas a mais por semana — cerca de 23 horas a mais por mês, ou três dias úteis — para receber o mesmo, sem 13º, férias, FGTS, INSS patronal, vale-transporte ou seguro contra acidente, e ainda arcando com combustível, manutenção e depreciação do veículo, que o rendimento bruto não desconta; a explicação do IBGE — nenhum ganho real para motoristas de carro e moto, três quartos do universo de 2 milhões de pessoas que a mesma pesquisa contou — aponta para a lógica do modelo: quando o desemprego cai e os salários formais sobem, as plataformas não acompanham, porque o preço da corrida e da entrega é definido por algoritmo para o menor valor que ainda atrai oferta suficiente de trabalhadores, e a oferta cresce a cada demissão, a cada aprendiz que, como Pedro Ivo, calcula que quadruplicou a renda sem calcular as horas. A hipótese do analista — "oferta de trabalho aumentando" — é a que a literatura econômica confirma: mais motoristas dividindo o mesmo volume de corridas significa mais horas paradas e menos renda por hora, e as plataformas, que fixam a tarifa, capturam o ganho de produtividade; o resultado é que o trabalho por app, vendido como flexibilidade e autonomia, funciona como o teto salarial do setor privado — nunca abaixo do que o emprego formal paga, para manter a atração, nunca acima, para maximizar margem. O momento político é o que dá relevância ao número: os entregadores protestaram na terça por reajuste de repasses; a Câmara discute o projeto de regulamentação de motoristas de aplicativo, travado desde 2024 entre a proposta do governo — piso por hora, contribuição previdenciária, sem vínculo — e a resistência das plataformas e de parte dos trabalhadores, que temem perder a flexibilidade; e a PEC do fim da escala 6x1, que avançou na CCJ do Senado nesta semana, é vista pelos plataformizados como direito de quem tem carteira, não deles. Para o Brasil, que tem no app a maior porta de entrada de jovens no mercado, o dado do IBGE é a régua: renda igual, jornada maior, direitos nenhum — e a próxima pergunta, que o instituto promete responder na série, é quantos deixam o app quando o emprego formal chama.

Para , editor do portal, a paridade de R$ 1 é o número mais eloquente do ano. "Em 2022 o app pagava R$ 268 a mais; em 2025 paga R$ 1 a menos, com 5,4 horas a mais por semana e zero direitos. O mercado formal subiu 10,6%; o algoritmo, nada. Pedro Ivo quadruplicou a renda porque saiu de aprendiz — não porque o app é generoso. O portal registra o dado do IBGE porque ele encerra o debate ideológico: a plataforma não paga mais; paga igual e cobra mais horas, e quando a oferta de motoristas cresce, paga menos por hora. É o teto do setor privado, não o piso. A regulamentação parada na Câmara é sobre isso: um piso por hora que o algoritmo não possa furar", avalia.

Os números: R$ 3.147 contra R$ 3.148

Renda média mensal dos trabalhadores de plataformas em 2025: R$ 3.147; dos demais empregados do setor privado: R$ 3.148; em 2022, R$ 3.115 contra R$ 2.847; crescimento dos demais em três anos: 10,6%, e 4,1% no último ano; dos plataformizados: oscilação sem ganho real. Dados do 3º trimestre de 2025, levantamento experimental do IBGE.

5,4 horas a mais por semana

A jornada média dos trabalhadores de app supera em 5,4 horas a dos demais ocupados — cerca de 23 horas mensais, ou três dias úteis — sem que a renda acompanhe; por hora, o plataformizado ganha menos que a média dos brasileiros, e ainda arca com combustível, manutenção e depreciação, não descontados do rendimento bruto.

Motoristas: três quartos sem ganho real

Motoristas de carro e moto por aplicativo são cerca de 75% dos 2 milhões de plataformizados e não tiveram ganho real entre 2022 e 2025; o IBGE aponta o aumento da oferta de trabalhadores nas plataformas como hipótese — mais motoristas dividindo as mesmas corridas, com tarifa fixada por algoritmo.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o dado explica o protesto de terça. "Os entregadores pararam pedindo reajuste de repasse porque sentem o que o IBGE mediu: o preço da entrega não sobe há três anos, e o custo deles — gasolina, moto, comida — subiu. A plataforma não é patrão, diz a lei; mas fixa o preço, o tempo e a rota, e captura a produtividade. O portal registra que 20,8% trabalham por app achando que ganham mais, e o instituto mostra que não ganham — trabalham mais. A regulamentação precisa de piso por hora e de transparência do algoritmo; sem isso, cada novo desempregado que entra na plataforma reduz a renda de quem já está", observa.

Por que o app não acompanha o mercado

Com a tarifa definida por algoritmo para o menor valor que mantém oferta suficiente, as plataformas não repassam o aquecimento do mercado; o desemprego baixo eleva os salários formais, mas a entrada contínua de trabalhadores nos apps amplia a oferta e pressiona a renda por hora — o mecanismo que o IBGE levanta como hipótese e a literatura econômica descreve.

O que não entra na conta: direitos e custos

Sem 13º, férias, FGTS, INSS patronal, vale-transporte ou seguro contra acidentes, a renda de R$ 3.147 do plataformizado não é comparável à de R$ 3.148 do celetista; descontados combustível, manutenção e depreciação do veículo, a renda líquida por hora fica ainda mais abaixo da média dos brasileiros.

A regulamentação parada: piso por hora e previdência

O projeto do governo para motoristas de aplicativo — remuneração mínima por hora, contribuição ao INSS, sem vínculo empregatício — está travado na Câmara desde 2024, entre a resistência das plataformas e o receio de parte dos trabalhadores de perder flexibilidade; o dado do IBGE reforça o argumento do piso.

Pedro Ivo e os 20,8%: a percepção e a medida

Um em cada cinco plataformizados diz trabalhar por app porque ganha mais; para quem vem do salário mínimo ou do aprendizado, como Pedro Ivo, a renda de fato sobe — mas a comparação com o emprego formal equivalente, e não com o que se ganhava antes, é a que o IBGE faz, e nela a vantagem desapareceu.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a pesquisa deveria estar na mesa de quem discute a 6x1. "O Senado avança na PEC do fim da escala 6x1 para quem tem carteira, e 2 milhões de brasileiros trabalham 5,4 horas a mais por semana, sem carteira, ganhando o mesmo — e ninguém fala deles. O IBGE mediu: o app virou o emprego de entrada da juventude, e paga como o mercado formal pagava em 2022, congelado. O portal registra Pedro Ivo, que fez a conta certa para a vida dele, e a conta errada que o país está fazendo: chamar de autonomia uma jornada maior por renda igual. Regulamentar não é acabar com o app; é impedir que o algoritmo seja o único a decidir quanto vale uma hora de trabalho", analisa.

O levantamento experimental do IBGE sobre trabalhadores de plataformas digitais, com dados do terceiro trimestre de 2025, foi divulgado em 4 de setembro de 2026 e detalhado pela BBC News Brasil: a renda média mensal de R$ 3.147 igualou-se à dos demais empregados do setor privado (R$ 3.148), com jornada semanal 5,4 horas maior, após três anos em que os demais ocupados tiveram alta de 10,6% e os plataformizados não registraram ganho real.

Fontes e referências

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