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Desastres

Equipes resgatam sobreviventes no Nepal dez dias após deslizamento

Shah contou ter entoado o mantra hindu Mahamrityunjaya para manter a esperança; socorristas da Índia, da China e da Coreia do Sul escavam túneis soterrados desde 26 de agosto.

Capa do artigo Equipes resgatam sobreviventes no Nepal dez dias após deslizamento
— Foto: Vyacheslav Argenberg / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Equipes de resgate encontram sobreviventes no Nepal dez dias após o deslizamento que soterrou túneis de hidrelétricas no Himalaia: um cidadão chinês foi retirado com vida do túnel do projeto Alto Trishuli-1 neste sábado, uma nepalesa de 64 anos foi achada sob a lama da própria casa em Nuwakot, e dois trabalhadores — Sanjay Shah, 30, e Kabir Maharjan, 45 — saíram do túnel da Trishuli-3 na sexta após nove dias; buscas por mais de 5 mil desaparecidos continuam, e vítimas vivas são exceção

Equipes de resgate nepalesas conseguiram retirar neste sábado (5 de setembro) um homem chinês que estava preso desde o deslizamento de 26 de agosto, informou à AFP um porta-voz do Exército. "Um cidadão chinês acaba de ser resgatado de um túnel, no projeto hidrelétrico Alto Trishuli-1", afirmou o porta-voz Raja Ram Basnet. No mesmo dia, os resgatistas retiraram uma mulher nepalesa de 64 anos dos escombros de sua casa, soterrada pela lama no distrito de Nuwakot, ao norte da capital, Katmandu: "Uma equipe policial a encontrou enquanto realizava a limpeza da área. Ela foi levada de helicóptero a Katmandu para receber tratamento", disse à AFP o vice-superintendente de polícia Iqbal Hawari. Um vídeo da Força Policial Armada mostrou apenas parte da casa, com os andares inferiores submersos em uma espessa camada de lama. As informações são da Folha.

Na sexta-feira (4), os serviços de emergência resgataram com vida dois trabalhadores presos desde que o deslizamento de lama catastrófico atingiu a região do Himalaia, encontrados no túnel da hidrelétrica Trishuli-3. O primeiro resgate foi anunciado pelo ministro da Energia, Biraj Bhakta Shrestha; pouco depois, o ministro do Interior, Sudan Gurung, confirmou a retirada de uma segunda pessoa. Os sobreviventes foram identificados como Sanjay Shah, 30, encarregado de mecânica, e Kabir Maharjan, 45, supervisor, levados a um hospital em Katmandu. Durante os nove dias em que permaneceu no local, Shah disse ter conseguido manter contato com três ou quatro trabalhadores e afirmou que outras pessoas podem ter sido levadas pela força da água para áreas mais profundas do túnel, que é muito extenso; para manter a esperança, contou que entoou o mantra Mahamrityunjaya, uma oração hindu. Dezenas de socorristas nepaleses, com a ajuda de especialistas da Índia, da China e da Coreia do Sul, trabalham há dias na escavação de vários túneis soterrados após a enxurrada — estruturas em instalações de usinas hidrelétricas ou barragens em construção. As buscas por mais de 5 mil desaparecidos continuam, e a tendência é de que vítimas vivas sejam exceção.

Trishuli: o vale das hidrelétricas que a montanha engoliu

O rio Trishuli, que desce do Himalaia ao norte de Katmandu pelos distritos de Rasuwa e Nuwakot, é o coração da expansão hidrelétrica do Nepal — um país que tem no potencial de seus rios de montanha a principal aposta econômica, com dezenas de usinas em operação e construção financiadas por China, Índia e bancos multilaterais, e que exporta energia à Índia —, e foi exatamente esse vale que a enxurrada de 26 de agosto atingiu: chuvas de monção fora do padrão sobre encostas já instáveis desencadearam deslizamentos em cadeia e uma onda de lama, pedras e água que desceu o rio, soterrou vilas, estradas e os canteiros das usinas Alto Trishuli-1, em construção por consórcio coreano-nepalês, e Trishuli-3, além de outras barragens, prendendo centenas de trabalhadores — muitos chineses e indianos — em túneis de adução e de acesso com quilômetros de extensão. Os resgates de sábado e sexta são milagres estatísticos: túneis com bolsões de ar, água e algum acesso permitiram que Shah, Maharjan e o trabalhador chinês sobrevivessem nove e dez dias, mas o número de desaparecidos — mais de 5 mil, entre moradores de vilas soterradas, trabalhadores das usinas e viajantes na estrada para a China — indica uma das maiores tragédias da história do Nepal, comparável ao terremoto de 2015, que matou quase 9 mil. O país, um dos mais pobres da Ásia, com governo em crise política e capacidade limitada de resposta, depende de equipes da Índia, da China e da Coreia do Sul — os mesmos países que financiam as usinas — para escavar túneis com equipamento pesado; e o desastre reabre o debate sobre construir hidrelétricas em vales de alta montanha que as mudanças climáticas tornam cada vez mais instáveis, com monções mais intensas, geleiras que derretem e lagos glaciais que se rompem.

Para , editor do portal, os resgates são a única boa notícia de uma catástrofe que o mundo mal acompanha. "Mais de cinco mil desaparecidos no Nepal — e a notícia é o homem que saiu vivo de um túnel depois de dez dias, cantando um mantra para não enlouquecer. É comovente e é revelador: o vale onde o Nepal aposta seu futuro, com usinas financiadas por China e Coreia, foi engolido pela montanha numa monção que o clima tornou mais violenta. O Brasil conhece o roteiro — usina em vale de serra, chuva extrema, barragem, tragédia —, de Mariana a Brumadinho, ainda que por outra causa. O portal registra os nomes dos sobreviventes, Sanjay Shah e Kabir Maharjan, e a senhora de 64 anos sob a lama de Nuwakot, e lembra que o Himalaia é o lugar onde a mudança climática mata mais rápido — e mais longe das câmeras", avalia.

O cidadão chinês do Alto Trishuli-1

Trabalhador do consórcio que constrói a usina de 216 megawatts, ele ficou dez dias preso no túnel após o soterramento de 26 de agosto e foi retirado neste sábado por equipes do Exército nepalês; sua identidade não foi divulgada, e a China mantém especialistas no local para localizar outros funcionários desaparecidos.

A mulher de Nuwakot: sob a lama da própria casa

Aos 64 anos, ela sobreviveu dez dias nos escombros de sua casa, com os andares inferiores submersos em lama, e foi encontrada por policiais que limpavam a área; levada de helicóptero a Katmandu, é um dos raros casos de moradores de vilas soterradas encontrados com vida.

Shah e Maharjan: nove dias no túnel da Trishuli-3

O mecânico de 30 anos e o supervisor de 45 sobreviveram em bolsão de ar do túnel da usina, mantendo contato com outros trabalhadores que podem ter sido arrastados para o fundo; Shah entoou o Mahamrityunjaya, mantra hindu de proteção contra a morte, para manter a esperança — relato que correu o país.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a dependência de socorristas estrangeiros diz muito sobre o Nepal. "Índia, China e Coreia do Sul escavam os túneis porque são donas ou financiadoras das usinas — e porque o Nepal, entre a China e a Índia, sem saída para o mar e com governo instável, não tem equipamento nem gente para uma catástrofe desse tamanho. Cinco mil desaparecidos é mais que muitas guerras. O portal registra que o mundo, ocupado com Irã, Ucrânia e eleições, quase não olhou para o Himalaia — e que a monção de 2026, mais forte com o El Niño, ainda não acabou. Que os três resgatados sejam lembrete de que ainda há quem procurar", observa.

26 de agosto: a enxurrada

Chuvas extremas de monção sobre o Himalaia central desencadearam deslizamentos e uma onda de lama e detritos que desceu o vale do Trishuli, atingindo vilas, a rodovia para o Tibete e os canteiros de hidrelétricas; o número de desaparecidos superou 5 mil em dias, e o governo declarou emergência nos distritos afetados.

Hidrelétricas no Himalaia: a aposta e o risco

O Nepal tem potencial de dezenas de gigawatts e constrói usinas com capital chinês, indiano e coreano para exportar energia; vales estreitos, encostas instáveis, monções mais intensas e lagos glaciais em expansão tornam os projetos vulneráveis — e o desastre do Trishuli deve levar a revisão de licenças e de proteção de canteiros.

Índia, China e Coreia do Sul: a ajuda que escava

Equipes especializadas em resgate em túneis, com equipamento pesado e câmeras, apoiam os nepaleses; cada país tem cidadãos entre os desaparecidos nas usinas que financia; a cooperação, num vale disputado geopoliticamente entre Pequim e Nova Délhi, é rara e necessária.

Mais de 5 mil desaparecidos: a dimensão

Entre moradores de vilas soterradas, trabalhadores das obras e viajantes, o número aproxima a tragédia do terremoto de 2015, que matou quase 9 mil; a cada dia, a chance de encontrar sobreviventes diminui, e as buscas passam a ser de recuperação — com exceções como as deste fim de semana.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a história do mantra é a que fica. "Nove dias no escuro, dentro de uma montanha, com água subindo e colegas sumindo no fundo do túnel, e um mecânico de 30 anos repete uma oração contra a morte até que alguém o ouça. Ele saiu. A senhora de 64 anos saiu da lama da própria casa. O chinês saiu depois de dez dias. São três entre cinco mil, e são a razão de continuar cavando. O portal registra o Nepal esquecido e a lição que serve para Petrópolis e para Suichuan: onde a montanha e a chuva se encontram, o tempo de resgate é medido em esperança", analisa.

Os resgates de sobreviventes no Nepal dez dias após o deslizamento de 26 de agosto de 2026 — um cidadão chinês no túnel do projeto Alto Trishuli-1, uma mulher de 64 anos em Nuwakot e dois trabalhadores na Trishuli-3 — foram noticiados pela Folha em 5 de setembro, com base em informações da AFP; mais de 5 mil pessoas seguem desaparecidas.

Fontes e referências

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