Nepal terá de reconstruir 20 mil casas após colapso de geleira
"Prevemos que os recursos necessários para a reconstrução serão substanciais", disse o chanceler Shisir Khanal; esperanças de achar sobreviventes diminuem.
Nepal terá de reconstruir 20 mil casas depois que o colapso de uma geleira, em 26 de agosto, varreu vilarejos inteiros na fronteira com a China: ao menos 1.280 mortos — 1.259 no Nepal e 21 no lado chinês —, 5.624 desaparecidos, 7.500 casas "arrastadas pela água ou soterradas" e buscas por trabalhadores presos em túneis de hidrelétricas; em Katmandu, famílias visitam um mural de fotos no hospital à espera de notícias
O Nepal terá de reconstruir cerca de 20 mil casas em áreas devastadas pelas inundações, informaram as autoridades na quinta-feira (3 de setembro), enquanto equipes de resgate continuavam as buscas por trabalhadores presos em túneis de projetos hidrelétricos e por milhares de pessoas que permanecem desaparecidas. O colapso de uma geleira em 26 de agosto provocou uma enxurrada de gelo, rochas e lama que varreu a região fronteiriça com a China, destruindo vilarejos inteiros e deixando poucas casas de pé. As informações são da Folha.
"Nossas estimativas preliminares indicam que 7.500 casas foram completamente destruídas, arrastadas pela água ou soterradas por escombros e lama", disse à Reuters Dharma Raj Upreti, chefe da Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres; mesmo as casas que continuavam de pé não tinham condições de ser habitadas, e as autoridades estimam que cerca de 20 mil terão de ser reconstruídas em locais mais seguros. "Prevemos que os recursos necessários para a reconstrução serão substanciais", disse o ministro das Relações Exteriores, Shisir Khanal, a embaixadores em Katmandu. O desastre matou ao menos 1.280 pessoas — 1.259 no Nepal, segundo a polícia, e 21 no lado chinês, de acordo com a imprensa estatal — e ao menos 5.624 estão desaparecidas. Na capital, Sati Sigdel visita diariamente um mural do Hospital Universitário Tribhuvan coberto por centenas de fotografias — de parentes desaparecidos e de corpos encontrados e não identificados — na esperança de notícias de sua prima, Sweety Paithan: "Colocamos a foto dela há três dias, mas ainda não tivemos nenhuma notícia". As esperanças de encontrar sobreviventes diminuem a cada dia, mais de uma semana após o desastre, embora as buscas prossigam; na noite de quarta-feira, pessoas vindas de várias regiões do país examinavam as fotos e perguntavam aos guardas se tinham ouvido os nomes de seus parentes.
O que é o colapso de uma geleira — e por que o Himalaia vive isso cada vez mais
O que atingiu a fronteira nepalesa em 26 de agosto é o que glaciologistas chamam de inundação por rompimento de lago glacial: com o aquecimento, as geleiras do Himalaia recuam e deixam atrás de si lagos represados por morainas — barragens naturais de rocha e gelo — que crescem até que um deslizamento, um terremoto ou o próprio degelo as rompa, liberando em minutos milhões de metros cúbicos de água, gelo e sedimento vale abaixo. O Nepal tem mais de duas mil dessas lagoas e dezenas classificadas como perigosas; em 2024, o vilarejo de Thame, na região do Everest, foi parcialmente destruído por um rompimento, e em 2025 uma enxurrada na fronteira com o Tibete levou a principal ponte entre os dois países. O evento de agosto é, de longe, o mais mortal: 1.280 mortos confirmados e mais de 5.600 desaparecidos numa região de vales estreitos, estradas precárias e canteiros de obras de hidrelétricas — onde trabalhadores em túneis ficaram presos —, com o monitoramento por satélite insuficiente para alertar as aldeias a tempo. Cientistas apontam que o Himalaia aquece mais rápido que a média global e que o padrão de 2026, com El Niño se intensificando, agrava o degelo.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a tragédia nepalesa é notícia climática, não apenas humanitária. "Uma geleira desaba, 7.500 casas somem, 1.280 pessoas morrem e 5.600 desaparecem num vale entre o Nepal e a China — e a causa é a mesma que seca a Amazônia e alaga o Rio Grande do Sul: o planeta esquentou, o gelo derreteu, o lago estourou. O Himalaia é a caixa d'água de dois bilhões de pessoas e está derretendo em ritmo que os modelos de dez anos atrás não previam. O Nepal, um dos países mais pobres da Ásia, vai ter que reconstruir 20 mil casas em lugar mais alto com dinheiro que não tem. O mural de fotos no hospital de Katmandu é a imagem de 2026: gente procurando parente numa parede porque a montanha desceu. O portal registra — e liga os pontos com a OMM avisando de El Niño muito forte", avalia.
1.280 mortos, 5.624 desaparecidos: a dimensão
É o desastre natural mais letal do Nepal desde o terremoto de 2015, que matou cerca de 9 mil pessoas; o número de desaparecidos — quatro vezes o de mortos confirmados — indica que o balanço final pode ser muito maior, já que corpos foram levados pela enxurrada por dezenas de quilômetros ou soterrados sob metros de lama. Do lado chinês, no Tibete, 21 mortes foram registradas pela imprensa estatal.
Túneis de hidrelétricas: os trabalhadores presos
A região fronteiriça concentra projetos hidrelétricos — o Nepal exporta energia para a Índia e constrói usinas com investimento chinês e indiano —, e canteiros com túneis em escavação foram atingidos pela enxurrada; equipes tentam alcançar operários presos, muitos migrantes de outras regiões. É uma das frentes de busca mais difíceis, com acesso por estradas destruídas.
20 mil casas em outro lugar: o desafio da reconstrução
Reconstruir em "locais mais seguros" significa realocar vilarejos inteiros, com terras, escolas e templos, em vales onde o espaço plano é escasso; o governo estima custos "substanciais" e pede ajuda internacional — Índia, China, União Europeia e agências da ONU enviaram equipes e recursos. A experiência de 2015, quando a reconstrução levou anos e enfrentou corrupção, é a referência que o país tenta não repetir.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o mural do hospital diz mais que os números. "Sati Sigdel colocou a foto da prima numa parede há três dias e volta todo dia para ver se alguém sabe de algo. Multiplique por 5.600. Num país sem cadastro digital, sem DNA em escala, sem estrada para chegar aos vilarejos, a busca é isso: foto na parede e pergunta ao guarda. É a face do desastre que não cabe em estatística — e é a que o portal escolhe destacar, porque a montanha que desceu no Nepal tem a mesma origem da chuva que faltou em Manaus", observa.
Nepal e China: a fronteira atingida
A enxurrada cruzou a fronteira pelo vale de um rio que nasce no Tibete, atingindo dos dois lados; a cooperação entre Katmandu e Pequim em alerta precoce é limitada, e as autoridades nepalesas dependem de informação chinesa sobre lagos glaciais a montante. O episódio deve reabrir a discussão sobre monitoramento conjunto.
Sobreviventes dez dias depois: a exceção
Equipes de resgate encontraram sobreviventes dez dias após o desastre, segundo a Folha em reportagem de sexta-feira — casos raros que mantêm as buscas ativas, embora as autoridades admitam que as chances diminuem a cada dia. Militares nepaleses e equipes estrangeiras operam com helicópteros e cães farejadores.
O Himalaia que derrete: o contexto científico
Estudos do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas apontam que as geleiras do Hindu Kush-Himalaia perderam gelo 65% mais rápido na década de 2010 que na anterior e podem perder até 80% do volume até 2100 em cenário de alto aquecimento; o número de lagos glaciais perigosos cresce, e o risco de rompimentos aumenta com El Niño, monções intensas e terremotos.
Ajuda internacional: quem chegou
Índia e China enviaram equipes e suprimentos; a ONU acionou fundos de emergência; União Europeia, Reino Unido e Japão prometeram recursos; o chanceler Khanal reuniu embaixadores para apresentar a conta da reconstrução. O Nepal, com PIB per capita abaixo de US$ 1.500, não tem como financiar sozinho.
Lições para o Brasil
O Brasil não tem geleiras, mas tem encostas — Petrópolis em 2022, o Vale do Taquari em 2023, o Rio Grande do Sul em 2024 —, e o padrão é o mesmo: evento extremo, comunidades em áreas de risco, alerta insuficiente, reconstrução em outro lugar. O Cemaden e as defesas civis estudam o caso nepalês como referência de escala.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o desastre expõe a conta do clima nos países pobres. "O Nepal emite quase nada, tem 30 milhões de habitantes e perdeu 1.280 pessoas e 20 mil casas para uma geleira que derreteu por causa do carbono dos outros. É o argumento central do Sul global nas conferências do clima — e o motivo pelo qual o fundo de perdas e danos existe. Que o dinheiro chegue a Katmandu antes da próxima monção. E que o Brasil, que vai pedir o mesmo quando a Amazônia secar de novo, olhe para o mural do hospital e entenda que a fila é a mesma", analisa.
As estimativas de reconstrução de 20 mil casas no Nepal após as inundações provocadas pelo colapso de uma geleira em 26 de agosto de 2026 foram divulgadas pelas autoridades em 3 de setembro e noticiadas pela Folha; o desastre deixou ao menos 1.280 mortos e 5.624 desaparecidos.