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Desastres

Nepal resgata mulher com vida dez dias após avalanche

Balanço: 1.287 mortos e 5.083 desaparecidos no Nepal; 31 e 531 no Tibete, com suspeita de subnotificação. Cerca de 900 operários seguem sumidos em 12 usinas.

Capa do artigo Nepal resgata mulher com vida dez dias após avalanche
— Foto: Vyacheslav Argenberg / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Nepal resgata mulher com vida dez dias após a avalanche que matou mais de 1.300 pessoas e dois trabalhadores presos em túnel de hidrelétrica; socorristas ouvem outras vozes no Trishuli 3A, onde 557 operários seguem desaparecidos, e o prejuízo já passa de US$ 2,56 bilhões

Equipes de resgate do Nepal encontraram com vida uma mulher dentro de uma casa dez dias após a avalanche histórica que devastou o país, segundo o porta-voz do Exército nepalês. Ela foi transportada de helicóptero a Katmandu para atendimento. Na sexta-feira (4), dois trabalhadores presos no túnel da usina hidrelétrica Trishuli 3A também foram resgatados em operação do Exército; imagens mostraram um deles coberto de lama, carregado nos ombros de um socorrista. "Não consigo explicar o que estamos sentindo neste momento. Estamos apenas gratos a Deus", disse Amir Maharjan, irmão de um dos resgatados, à Associated Press. As informações são do g1.

Autoridades acreditam que outras pessoas possam estar vivas no túnel — socorristas afirmaram ter ouvido vozes —, e o ministro da Energia, Biraj Bhakta Shrestha, disse à BBC esperar mais resgates nas próximas horas. Pelo menos 557 trabalhadores estão desaparecidos no Trishuli 3A, às margens do rio Trishuli; cerca de 115 estariam presos no túnel principal, segundo a Associação Independente de Produtores de Energia do Nepal.

26 de agosto: o colapso da geleira

A avalanche atingiu a fronteira do Nepal com o Tibete em 26 de agosto, após o colapso de uma geleira de grande magnitude no topo do Himalaia, e devastou cidades e vales em diversos pontos da região. No Nepal, o balanço de sexta era de 1.287 mortos e 5.083 desaparecidos; no Tibete, autoridades chinesas atualizaram para 31 mortos e 531 desaparecidos — números que se acredita subnotificados pela censura de Pequim, que restringe imagens e informações da catástrofe no seu lado da fronteira.

Para , editor do portal, os resgates são o milagre e o alerta. "Uma mulher viva depois de dez dias numa casa soterrada, dois operários tirados de um túnel — e socorristas ouvindo vozes. É a notícia boa de um desastre que já matou 1.300 pessoas e tem 5 mil desaparecidas. Mas o número que assusta é outro: 900 trabalhadores sumidos em 12 usinas hidrelétricas, 500 deles em túneis. O Nepal construiu dezenas de usinas nos vales glaciais para vender energia à Índia. A geleira caiu em cima. É o modelo de desenvolvimento do Himalaia — hidrelétrica no caminho da avalanche — cobrando a conta de uma vez", avalia.

Trishuli 3A: a usina e o túnel

A hidrelétrica Trishuli 3A, no rio de mesmo nome, é uma das usinas em construção ou operação no corredor entre Katmandu e a fronteira chinesa — vale estreito, de alta declividade, ideal para geração e exposto a deslizamentos. O túnel principal, onde 115 operários estariam presos, é a galeria de adução que leva água à casa de força; a avalanche de lama e água bloqueou as entradas e inundou trechos. O resgate de dois trabalhadores vivos dez dias depois indica bolsões de ar — e a possibilidade de outros.

900 trabalhadores em 12 usinas

Autoridades estimam cerca de 900 trabalhadores desaparecidos em 12 usinas hidrelétricas, aproximadamente 500 possivelmente presos em túneis. As buscas continuam nas áreas afetadas e nos projetos de geração. A concentração de vítimas em obras de energia revela a exposição do setor: canteiros nos fundos de vale, alojamentos próximos aos rios, turnos noturnos em galerias subterrâneas — o pior lugar possível quando a montanha desce.

US$ 2,56 bilhões: o prejuízo

Segundo Dharma Raj Upreti, chefe da Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres, imóveis, moradias e infraestrutura sofreram prejuízos de pelo menos US$ 2,56 bilhões — 387,5 bilhões de rúpias. O governo calcula custos iniciais de recuperação de US$ 52,6 milhões nos primeiros quatro meses, para reconstrução de estradas, abrigos temporários e restabelecimento de água e energia. Se confirmada, a estimativa colocará o desastre entre os mais caros da história recente do Nepal — país cujo PIB anual é de cerca de US$ 45 bilhões.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a censura chinesa é parte do desastre. "Do lado nepalês, 1.287 mortos e 5.083 desaparecidos, com número atualizado toda sexta. Do lado tibetano, 31 mortos e 531 desaparecidos — e ninguém acredita, porque Pequim apaga vídeo e bloqueia jornalista. A mesma geleira caiu dos dois lados da fronteira. A diferença de contagem é a diferença entre um país pobre e transparente e uma potência que controla a informação. Para a ciência, que precisa saber o que aconteceu no Tibete para prever o próximo colapso, a censura é obstáculo. Para as famílias tibetanas, é o silêncio sobre os seus", observa.

Como sobreviver dez dias

Sobreviventes de soterramento por mais de uma semana são raros e dependem de três fatores: espaço para respirar, acesso a água — chuva, infiltração — e proteção contra frio. A mulher encontrada numa casa provavelmente ficou em cômodo preservado pela estrutura; os trabalhadores do túnel, em trecho acima da linha de inundação. Os casos reforçam o protocolo de manter buscas ativas por semanas — e a importância de equipamentos de escuta e drones, que o Nepal tem em quantidade limitada.

Drones e a busca nos túneis

Drones enviados a túneis de outras hidrelétricas não encontraram sinais de vida, segundo relatos anteriores — o que torna os resgates do Trishuli 3A ainda mais notáveis. A escuta de vozes pelos socorristas orienta a escavação, mas o acesso é lento: entradas bloqueadas por toneladas de lama e rocha, risco de novos deslizamentos e estrutura do túnel comprometida. O Exército nepalês, com apoio de equipes internacionais, comanda as operações.

A geleira, a fuligem e o clima

O colapso da geleira que originou a avalanche é atribuído ao derretimento acelerado — e cientistas apontam que até um terço da perda de gelo no Himalaia vem de fuligem depositada sobre a neve, além do aquecimento global. As geleiras nepalesas encolheram um terço em 30 anos; enchentes de lagos glaciais quintuplicaram por década desde os 1950. O desastre de agosto é o maior de uma série que a região prevê intensificar-se.

Alerta precoce: o que falta

O Himalaia tem mais de 63 mil geleiras e quase nenhum sistema de alerta precoce integrado — ao contrário dos Alpes, onde o colapso de uma geleira em 2025 destruiu a vila suíça de Blatten com uma única morte, graças à evacuação prévia. Sensores em geleiras instáveis, detecção sísmica e sirenes nos vales custariam fração dos US$ 2,56 bilhões de prejuízo; o Nepal, sem recursos, depende de cooperação internacional que ainda não chegou em escala.

Hidrelétricas: o modelo nepalês

O Nepal tem potencial hidrelétrico estimado em 40 mil megawatts e construiu, na última década, dezenas de usinas a fio d'água nos rios que descem do Himalaia — com financiamento chinês, indiano e de bancos multilaterais — para abastecer o país e exportar à Índia. As usinas ocupam os vales mais estreitos, onde a queda d'água é maior e o risco de deslizamento também. O desastre de agosto atingiu ao menos 12 delas, e a Associação de Produtores de Energia estima danos que atrasarão em anos a meta de exportação. É o custo de um modelo que apostou nos vales glaciais sem mapear o risco das geleiras acima.

Reconstrução: quatro meses e além

Os US$ 52,6 milhões dos primeiros quatro meses cobrem o emergencial — estradas para acesso, abrigos antes do inverno himalaio, água e luz. A reconstrução de cidades, usinas e pontes levará anos e exigirá financiamento externo; a Índia e a China, vizinhos e rivais, disputam influência via ajuda. Para as famílias dos 5 mil desaparecidos, a espera por corpos ou notícias continua.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o resgate merece ser lido junto com a causa. "Uma mulher viva depois de dez dias é a notícia que faz o mundo olhar para o Nepal por um dia. A causa — geleira que derrete por fuligem e calor, usinas construídas no caminho, nenhum alerta — é a que o mundo deveria olhar por anos. Novecentos trabalhadores de hidrelétrica desaparecidos é um número de guerra. O Nepal vai reconstruir com US$ 52 milhões o que perdeu por US$ 2,5 bilhões, e a próxima geleira está derretendo agora. O resgate é esperança; o desastre é sistema", analisa.

A avalanche na fronteira entre Nepal e Tibete ocorreu em 26 de agosto de 2026. O balanço de 5 de setembro é de 1.287 mortos e 5.083 desaparecidos no Nepal e 31 mortos e 531 desaparecidos no Tibete, segundo as autoridades dos dois países.

Fontes e referências

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