ANA, maior companhia aérea do Japão, compra mais oito E190-E2 e eleva a 23 o pedido firme à Embraer
Contrato original, de 2025, era de 15 aeronaves; E-Jets operam no Japão desde 2009. "Estamos honrados com a confiança duradoura da ANA", diz Arjan Meijer.
ANA, maior companhia aérea do Japão, compra mais oito E190-E2 e eleva a 23 o pedido firme à Embraer, com opção de mais cinco: jatos vão ampliar a malha regional japonesa a partir de 2028, e a fabricante de São José dos Campos vem de receita recorde de R$ 11,3 bilhões no trimestre
A companhia aérea japonesa ANA Holdings confirmou na noite de quinta-feira (3) a compra adicional de oito jatos E190-E2 da Embraer, elevando o pedido firme para 23 aeronaves. O acordo amplia o contrato original de 2025, de 15 unidades, e mantém opção de mais cinco. Os aviões vão apoiar a expansão da malha regional no Japão, com a primeira entrega programada para 2028; o valor não foi divulgado. "Estamos honrados com a confiança duradoura da ANA HD nas aeronaves E2 da Embraer e esperamos apoiar os planos de crescimento da companhia aérea no Japão", disse Arjan Meijer, presidente e CEO da Aviação Comercial da Embraer, em comunicado da empresa sediada em São José dos Campos. As informações são do g1.
O E190-E2 integra a família E-Jets E2, a segunda geração dos jatos regionais da Embraer, e os E-Jets operam no Japão desde 2009 — na própria ANA, via a subsidiária regional, e na Japan Airlines, via J-Air. O novo pedido consolida o país como um dos principais mercados asiáticos da fabricante.
ANA: a maior do Japão
A All Nippon Airways é a maior companhia aérea japonesa em frota e passageiros, com operação doméstica densa que conecta Tóquio, Osaka e Nagoya a dezenas de cidades médias — o segmento em que jatos de 100 a 150 assentos, como o E190-E2, substituem turboélices e aviões maiores subutilizados. A escolha pela Embraer, em vez do Airbus A220 — o concorrente direto —, é resultado de duas décadas de operação dos E-Jets no país e de uma rede de suporte já estabelecida.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o pedido japonês é o tipo de contrato que sustenta a Embraer. "Vinte e três aviões para a maior companhia do Japão, com opção de 28, entregando de 2028 em diante. É carteira de produção por cinco anos num mercado que exige o mais alto padrão de confiabilidade do mundo — o japonês não tolera atraso. A Embraer venceu o A220 da Airbus na casa do rigor. Isso vale mais do que o preço não divulgado: é referência para toda a Ásia. E chega no trimestre de receita recorde. A empresa do Vale do Paraíba está no melhor momento da história", avalia.
E190-E2: o produto
O E190-E2 leva de 97 a 114 passageiros, usa motores Pratt & Whitney GTF de nova geração e asas redesenhadas, com consumo de combustível cerca de 17% menor que o E190 original e ruído reduzido — atributo decisivo em aeroportos japoneses com restrições noturnas. É o modelo intermediário da família E2, entre o E175-E2, que não decolou comercialmente, e o E195-E2, o maior, campeão de vendas na Europa e na América Latina. No Japão, o E190-E2 se encaixa nas rotas domésticas de média demanda.
A carteira e o trimestre recorde
A Embraer registrou receita recorde de R$ 11,3 bilhões no segundo trimestre de 2026, com 65 aeronaves entregues entre comerciais, executivas e de defesa. A carteira de pedidos firmes supera US$ 25 bilhões, e a aviação comercial vive ciclo de recuperação após a pandemia, com companhias renovando frotas regionais. O pedido da ANA se soma a contratos recentes com American Airlines, SkyWest, LOT e Azul, e reforça a demanda pelo E2 na Ásia — mercado em que a fabricante busca ampliar presença.
Japão desde 2009
Os primeiros E-Jets chegaram ao Japão em 2009, com a J-Air, subsidiária da Japan Airlines; a ANA seguiu com a Ibex e depois com a frota própria. Foi um mercado difícil de abrir — a certificação japonesa é rigorosa e a preferência histórica era por Boeing —, e a consolidação da Embraer ali é resultado de 17 anos de operação sem incidentes graves. O pedido de 2026 é a segunda geração conquistando o cliente que a primeira fidelizou.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o contrato diz algo sobre a indústria brasileira. "A Embraer é a única empresa brasileira que compete de igual para igual com Airbus e Boeing em alguma coisa — e vence no Japão. Não é commodity, não é minério, não é soja: é engenharia de alta complexidade, feita em São José dos Campos, vendida para quem mais exige. Cada E2 exportado leva milhares de horas de engenharia brasileira. O país discute reindustrialização como se fosse projeto; a Embraer é o exemplo de que já existe e do que ela precisa — décadas de investimento em tecnologia e paciência com o retorno", observa.
Entregas em 2028: o ciclo de produção
A primeira entrega à ANA está programada para 2028, prazo que reflete a fila de produção da linha E2 em São José dos Campos e a customização exigida por cada operador — configuração de cabine, aviônicos, pintura. As 23 aeronaves devem ser entregues ao longo de três a quatro anos, ritmo compatível com a renovação gradual da frota regional japonesa. A opção de cinco adicionais pode ser exercida conforme a demanda.
O concorrente: Airbus A220
O A220, originalmente Bombardier CSeries, é o principal rival do E2 no segmento de 100 a 150 assentos, com a vantagem do peso comercial da Airbus e a desvantagem de uma cadeia de suporte menor na Ásia. A ANA avaliou os dois; a escolha pela Embraer se apoia na compatibilidade com a frota existente e no custo operacional. Cada pedido conquistado contra a Airbus no exterior é vitória que a Embraer contabiliza — e comunica.
Aviação regional japonesa
O Japão tem geografia que favorece jatos regionais: arquipélago montanhoso, dezenas de cidades de porte médio a distâncias de 300 a 800 km de Tóquio e Osaka, e trem-bala que cobre os grandes eixos mas não as ilhas menores nem o norte de Hokkaido. A ANA e a JAL operam malhas domésticas densas, e a renovação da frota regional — com aviões mais silenciosos e econômicos — é prioridade diante de restrições ambientais em aeroportos urbanos como Itami, em Osaka. O E190-E2, com ruído reduzido e consumo menor, atende exatamente essa demanda.
Como a Embraer chegou aqui
Criada em 1969 como estatal e privatizada em 1994, a Embraer apostou nos anos 1990 no segmento de jatos regionais de 50 assentos — o ERJ-145 — e, nos 2000, nos E-Jets de 70 a 120 lugares, que a tornaram líder mundial na categoria. A família E2, lançada em 2018, é a terceira geração. A tentativa de fusão com a Boeing, cancelada em 2020, deixou a empresa sozinha no mercado — e a recuperação desde então, com carteira recorde e diversificação em defesa e executivos, é considerada caso de sucesso industrial. O pedido japonês é um capítulo dessa retomada.
Os motores GTF e a cadeia global
O E190-E2 usa motores Pratt & Whitney PW1900G, da família Geared Turbofan, que reduzem consumo e ruído mas enfrentaram problemas de durabilidade em outros modelos — a Airbus teve A320neo parados por inspeções. A Embraer e a Pratt afirmam que a versão dos E2 não foi afetada da mesma forma, e a confiabilidade no Japão, mercado que não tolera indisponibilidade, será teste. A cadeia do E2 inclui fornecedores nos EUA, na Europa e no Brasil, com montagem final em São José dos Campos.
Vale do Paraíba: o impacto local
A Embraer é a maior empregadora industrial do Vale do Paraíba, com milhares de funcionários diretos em São José dos Campos, Gavião Peixoto e Botucatu, e cadeia de fornecedores que se estende por São Paulo e outros estados. Pedidos de longo prazo como o da ANA garantem ocupação de linha, contratações e investimento em fornecedores — o efeito multiplicador que faz da aeronáutica setor estratégico. A receita recorde do trimestre se traduz em atividade na região.
O que vem: Ásia e defesa
A Embraer aposta na Ásia como próxima fronteira do E2 — Índia, Vietnã, Indonésia — e na defesa, com o cargueiro KC-390 vendido a Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, Coreia do Sul e Suécia. O pedido japonês reforça a credibilidade na região e abre caminho para negociações com outras companhias asiáticas que observam a operação da ANA como referência.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia merece mais atenção do que recebe. "Vinte e três jatos para o Japão não viraram manchete porque não têm polêmica. Deveriam. É exportação de alto valor, emprego qualificado no interior de São Paulo, tecnologia nacional competindo com a Airbus e vencendo. Se a Embraer fosse chinesa, Pequim faria festa. Aqui é nota do g1 do Vale do Paraíba. O Brasil que dá certo é discreto — e é exatamente o que deveria ser copiado. Vinte anos de E-Jets no Japão sem falha: isso é marca-país", analisa.
A ANA Holdings confirmou em 3 de setembro de 2026 a compra adicional de oito E190-E2, elevando a 23 o pedido firme à Embraer, com opção de mais cinco. As entregas começam em 2028.