Lula usará pronunciamento de 7 de Setembro para mandar recado aos EUA
Discurso de 3min43s vai ao ar no domingo (6), a um mês da eleição; presidente defenderá livre comércio após tarifas de 25% e 12,5% impostas por Washington em julho.
Lula usará pronunciamento de 7 de Setembro para mandar recado aos EUA — "nenhum país pode tutelar o Brasil" sobre com quem comercia — e citará petróleo da Margem Equatorial e minerais críticos como riquezas da soberania
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai usar o pronunciamento de 7 de Setembro, que irá ao ar em cadeia nacional na noite de domingo (6), com 3 minutos e 43 segundos, para enviar um recado aos Estados Unidos: dirá que nenhum país pode tutelar o Brasil sobre com quem pode vender ou comprar, e fará uma defesa do livre comércio. Sem citar Donald Trump nem os EUA nominalmente, afirmará que as decisões comerciais brasileiras cabem apenas aos brasileiros — resposta às duas tarifas impostas por Washington em julho, de 25% e de 12,5%. O discurso citará também a descoberta de petróleo na Margem Equatorial e o Marco Legal dos Minerais Críticos, aprovado pelo Senado na quarta-feira (2), como riquezas capazes de gerar desenvolvimento. As informações são do InfoMoney, com base em apuração da reportagem.
O pronunciamento chega a um mês do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, em que Lula disputa a reeleição contra Flávio Bolsonaro em empate técnico, segundo as pesquisas. O tom de soberania e independência — tema natural do feriado — será usado para articular a agenda econômica e internacional do governo em campanha.
O recado aos Estados Unidos
As tarifas de julho — 25% sobre um conjunto de produtos brasileiros e 12,5% sobre outro — integram a política comercial do governo Trump, que combinou sobretaxas com pressão política sobre o Brasil ao longo de 2025 e 2026. Lula dirá que o Brasil defende o livre comércio e que as decisões sobre parceiros comerciais são soberanas — referência indireta à pressão americana para que o país reduza laços com a China, seu maior parceiro comercial. A frase "nenhum país pode tutelar o Brasil" é a versão diplomática de uma resposta que o governo vem dando desde o anúncio das tarifas.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o discurso transforma a tarifa em ativo eleitoral. "Trump deu a Lula o que nenhum marqueteiro conseguiria: um adversário externo. Cada tarifa americana vira argumento de soberania, e soberania é tema que unifica — o agro que exporta, o industrial que compete, o nacionalista de direita e o de esquerda. Lula não vai citar Trump porque não precisa: todo mundo sabe de quem ele fala. O 7 de Setembro é o dia certo para isso, e três minutos e 43 segundos em cadeia nacional, a um mês da eleição, é tempo de televisão que a Justiça Eleitoral não conta como propaganda", avalia.
Margem Equatorial: o petróleo da campanha
A descoberta de petróleo na Margem Equatorial — a faixa marítima que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte — é o trunfo econômico mais recente do governo. No trecho sobre o tema, Lula dirá que os frutos da exploração vão desenvolver tecnologia e gerar empregos qualificados. A exploração da Foz do Amazonas, bloco mais promissor da região, foi objeto de disputa com o Ibama por anos; a licença de perfuração da Petrobras saiu, e o órgão autorizou nesta semana novos poços. Para o governo, é a promessa de um "novo pré-sal" no Norte e no Nordeste; para ambientalistas, é o risco de explorar petróleo a poucos quilômetros da foz do maior rio do mundo.
Minerais críticos: o marco legal
O Marco Legal dos Minerais Críticos, aprovado pelo Senado na quarta-feira, cria regras para a exploração, o processamento e a exportação de lítio, terras raras, nióbio, grafite, cobalto e outros minerais essenciais à transição energética e à indústria de tecnologia. O Brasil tem algumas das maiores reservas do mundo de vários deles, e a lei busca garantir que o valor agregado — refino, fabricação de baterias e ímãs — fique no país, em vez de exportar minério bruto. Lula dirá que esses minerais são capazes de gerar desenvolvimento e riqueza no futuro. É também tema de disputa geopolítica: Estados Unidos e China competem pelo acesso às reservas brasileiras, e a lei define as condições.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, petróleo e minerais são o mesmo argumento em duas versões. "Lula está dizendo: o Brasil tem petróleo novo e tem os minerais que o mundo precisa, e vai decidir sozinho o que fazer com eles. É nacionalismo de recursos, tradição brasileira desde a Petrobras de Vargas. Funciona eleitoralmente e funciona na negociação com Washington — quem tem terra rara e lítio negocia tarifa de outro jeito. O risco é a distância entre o discurso e o prazo: a Margem Equatorial vai levar dez anos para produzir, e o marco dos minerais ainda precisa de regulamentação. Mas em 7 de Setembro ninguém cobra cronograma", observa.
"Altivos": a colônia e a fronteira
Em um trecho, Lula dirá que os brasileiros precisam estar "altivos" para impedir que o país volte a ser uma colônia de potências estrangeiras, e falará da necessidade de proteger as fronteiras, o território e o meio ambiente. É linguagem que dialoga com o eleitorado nacionalista — inclusive o militar e o conservador, que o adversário disputa — e que reposiciona o governo como defensor do território diante de pressões externas. A menção ao meio ambiente conecta o tema à imagem do Brasil como líder ambiental, que o presidente reafirmará ao dizer que o país é exemplo global na transição energética e ator-chave nas futuras emergências climáticas.
Economia: "independência financeira" e tempo para a família
O pronunciamento também tratará da economia doméstica, com a defesa de que os brasileiros tenham "independência financeira". Sem citar a Proposta de Emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1, Lula dirá que a população precisa de mais tempo para si e para a família — a bandeira da redução da jornada, que o governo abraçou em 2025 e que é uma das mais populares da campanha. Ligará o conceito de Independência à ideia de que o Brasil só será soberano quando criar oportunidades para todos, e fará em seguida a defesa do combate aos privilégios.
Privilégios: o alvo interno
A "defesa do combate aos privilégios" é o trecho de política interna com potencial de leitura ampla. Em uma semana marcada pela crise no Supremo Tribunal Federal — as revelações sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro —, Lula vem dizendo publicamente que ninguém pode "usar o cargo que tem em benefício pessoal" e cobrando reforma do Judiciário. A frase no pronunciamento pode ser lida como recado ao STF, aos super-ricos — que, segundo levantamento da Folha, ampliaram sua fatia da renda no governo — ou aos dois; a ambiguidade é proposital.
O formato: 3min43s em cadeia
Pronunciamentos presidenciais em cadeia nacional de rádio e TV são prerrogativa do cargo em datas cívicas e não contam como propaganda eleitoral, desde que não peçam voto nem ataquem adversários nominalmente. É por isso que o discurso evita citar Trump, Flávio Bolsonaro ou a PEC da 6x1 pelo nome: o conteúdo é político, a forma é institucional. A oposição costuma contestar esses pronunciamentos no Tribunal Superior Eleitoral em ano de eleição; o cuidado com a linguagem indica que o texto passou pelo crivo jurídico.
O contexto: empate técnico e crise institucional
O pronunciamento chega em momento delicado para o governo. As pesquisas mostram Lula e Flávio Bolsonaro empatados no segundo turno; a economia desacelera; a crise no STF corrói a confiança nas instituições; e os protestos convocados pela oposição para o próprio 7 de Setembro — data simbólica do bolsonarismo — buscam capitalizar o descontentamento. O discurso de soberania, petróleo e minerais é a tentativa de deslocar a conversa para o terreno em que o governo se sente forte: o Brasil grande, independente, dono de suas riquezas.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o 7 de Setembro de 2026 será disputado nas ruas e na TV. "De um lado, a oposição na avenida, com bandeira e camisa da seleção, cobrando o Supremo. De outro, o presidente na tela, falando de soberania, petróleo e jornada de trabalho. Os dois usam o mesmo feriado para dizer o que é o Brasil. O eleitor vai comparar. Lula tem a vantagem de falar sozinho por quase quatro minutos para o país inteiro; a oposição tem a vantagem da imagem da multidão. Quem vencer o 7 de Setembro chega ao 4 de outubro com o discurso pronto", analisa.
O pronunciamento de Lula pelo Dia da Independência será transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão na noite de domingo, 6 de setembro. O desfile cívico-militar de 7 de Setembro acontece na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.