Trump tenta baixar o preço da carne e desagrada aos pecuaristas
"É um presente para as quatro grandes processadoras", diz Walter Schweitzer, da Montana Farmers Union; economista não vê mais oferta antes de 2028.
Trump tenta baixar o preço da carne e desagrada aos pecuaristas: governo lança a "Ranchers First Initiative" para quem expande rebanho, autoriza que produtores processem a própria carne e mira as quatro grandes frigoríficas — mas sindicatos rurais chamam as medidas de "presente" para as processadoras, e economistas dizem que nada reduzirá o preço no varejo em dois anos; a carne moída subiu 10% em um ano, e as eleições de meio de mandato são em novembro
O governo Trump lançou vários programas destinados a tranquilizar consumidores frustrados com os altos preços da carne bovina e pecuaristas irritados com as importações do produto. Na segunda-feira (31 de agosto), a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, lançou a "Ranchers First Initiative" — Iniciativa Pecuaristas em Primeiro Lugar —, para dar mais segurança financeira aos pecuaristas que decidiram investir na expansão de seus rebanhos. As medidas vieram dias depois de o presidente dizer que estava "autorizando documentos legais" para permitir que agricultores e pecuaristas processem seus próprios alimentos, o que poderia representar um desafio às grandes empresas frigoríficas. As informações são da Folha.
"Isso é um presente para as quatro grandes processadoras de carne, para que possam trazer carne de qualidade inferior e vendê-la aos preços da carne bovina americana", disse Walter Schweitzer, presidente da Montana Farmers Union, sindicato de agricultores e pecuaristas de Montana. Grupos que representam pecuaristas e frigoríficos disseram que as medidas poderiam ameaçar a segurança dos alimentos, e economistas agrícolas afirmaram que provocariam caos no mercado de gado e fariam pouco para reduzir o custo da carne. "Não se deve esperar que essas políticas aumentem a oferta de carne bovina ou reduzam os preços no varejo no próximo ano ou nos dois anos seguintes", disse James Mitchell, economista especializado em pecuária da Universidade do Arkansas. Um quilo de carne moída custava, em média, US$ 6,89 — R$ 35,14 — em julho, segundo o Departamento de Estatísticas Trabalhistas, alta de 10% em um ano; com as eleições legislativas de meio de mandato a dois meses, Trump tenta agradar tanto os consumidores preocupados com o custo de vida quanto os pecuaristas, bloco eleitoral importante que se beneficia dos preços elevados do gado.
Por que a carne está cara nos Estados Unidos — e por que o Brasil está no meio
O rebanho bovino americano está no menor nível em mais de sete décadas, resultado de anos de seca no Oeste e no Centro-Oeste que forçaram pecuaristas a abater matrizes; recompor um rebanho leva de dois a três anos — o tempo que a novilha demora a produzir —, e é por isso que economistas como Mitchell dizem que nenhuma política aumenta a oferta antes de 2028. Enquanto isso, a demanda segue alta, os preços do gado batem recordes — o que agrada aos pecuaristas — e a carne moída sobe 10% ao ano no supermercado — o que irrita o consumidor a dois meses das eleições que decidem o controle do Congresso. A solução de curto prazo seria importar mais, e é aí que o Brasil entra: maior exportador mundial, com carne mais barata, o país viu Trump impor em 2025 tarifa de 50% sobre seus produtos — que, somada à alíquota de 26,4% já existente, tornou a carne brasileira proibitiva no mercado americano — e, ao mesmo tempo, o presidente falou em importar carne da Argentina para baixar preços, o que enfureceu os pecuaristas de Montana e do Texas. A "Ranchers First" e a autorização para processar a própria carne são a tentativa de agradar aos dois lados sem tocar na tarifa — e é isso que ninguém no setor acredita que funcione.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a notícia interessa ao Brasil mais do que parece. "Os Estados Unidos têm o menor rebanho em 70 anos, a carne mais cara da história e eleição em novembro. A solução óbvia é importar de quem produz barato — Brasil, Argentina, Austrália. Trump taxou o Brasil em 50% por causa do Bolsonaro e agora inventa programa para pecuarista e autorização para fazendeiro abater no quintal. Nenhum dos dois baixa o preço; o próprio economista do Arkansas diz que não há oferta antes de 2028. Enquanto isso, a JBS — brasileira, dona de duas das 'quatro grandes' — lucra dos dois lados. Se a pressão do consumidor americano crescer, a tarifa sobre a carne brasileira será a primeira a cair. É a ironia: a inflação do hambúrguer pode fazer pelo Brasil o que a diplomacia não fez", avalia.
Ranchers First Initiative: o que o programa oferece
Lançada por Brooke Rollins, a iniciativa prevê crédito, seguro e garantias para pecuaristas que retêm novilhas e ampliam rebanhos — a aposta é acelerar a recomposição do estoque bovino —, além de apoio a pequenos frigoríficos regionais; críticos dizem que o dinheiro chega a quem já lucra com o gado caro e não altera o gargalo de processamento.
"Processar a própria carne": a promessa de Trump
Ao dizer que autoriza "documentos legais" para que produtores abatam e vendam diretamente, Trump mira as quatro processadoras — JBS, Tyson, Cargill e National Beef — que controlam mais de 80% do abate; a medida esbarra em regras federais de inspeção sanitária, e grupos do setor alertam para risco à segurança alimentar. Sindicatos como o de Montana veem, ao contrário, brecha para as grandes importarem carne barata e vendê-la como americana.
As quatro grandes: JBS, Tyson, Cargill e National Beef
A concentração do abate nos Estados Unidos — quatro empresas, duas delas controladas pela brasileira JBS — é alvo de investigações antitruste há anos e de queixas de pecuaristas, que dizem receber pouco pelo gado enquanto o varejo paga caro pela carne; Trump promete enfrentá-las, mas as medidas anunciadas, segundo Schweitzer, as beneficiam.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o episódio é a inflação americana em uma prateleira. "Trump prometeu baixar o custo de vida e a carne moída subiu 10%; a tarifa que ele criou encareceu a importação; a seca reduziu o rebanho; as processadoras concentradas não repassam. A dois meses de perder a Câmara, o governo lança programa com nome bonito e promessa de abate caseiro. O pecuarista de Montana chama de presente às frigoríficas; o economista diz que não muda nada até 2028. É política de manchete. Para o Brasil, o dado é que a carne americana cara aumenta a pressão por importação — e a União Europeia acabou de fechar a porta à nossa. O produtor brasileiro está entre a tarifa de Trump e a barreira de Bruxelas, com a China como saída", observa.
US$ 6,89 o quilo: o preço no supermercado
A carne moída — o corte mais popular, base do hambúrguer — subiu 10% em doze meses até julho, acima da inflação geral; cortes nobres subiram mais. O preço é tema de campanha nos estados decisivos e aparece nas pesquisas como principal queixa sobre custo de vida, ao lado da gasolina encarecida pela guerra no Irã.
Midterms em novembro: o cálculo eleitoral
As eleições legislativas de meio de mandato decidem o controle da Câmara e do Senado; pecuaristas votam republicano e consumidores urbanos cobram preços — agradar aos dois é o objetivo dos programas, e a Folha registra que Trump tenta "rapidamente" fazê-lo. Sem oferta nova, o efeito é retórico.
Importação: Argentina, Brasil e a tarifa
Trump mencionou importar carne argentina para conter preços — o que irritou pecuaristas —, mas mantém a tarifa de 50% sobre o Brasil, maior exportador mundial; a carne brasileira, que abastecia a indústria de hambúrguer americana, perdeu espaço para Austrália e Argentina. Reduzir a tarifa é a medida que baixaria o preço — e a que o governo evita por razões políticas.
Brasil: entre Trump e Bruxelas
Com a tarifa americana e a suspensão europeia iniciada nesta semana, o produtor brasileiro depende da China, que compra volume a preços menores; a inflação da carne nos Estados Unidos é o argumento que frigoríficos e o governo brasileiro usam para pedir a revisão da tarifa. A JBS, com fábricas nos dois países, é quem melhor navega o cenário.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a reportagem mostra o limite do protecionismo. "Trump taxou o Brasil, prometeu enfrentar as frigoríficas e agora descobre que carne cara é problema eleitoral. As medidas de segunda-feira não criam boi; criam manchete. O pecuarista americano sabe, o economista sabe, o consumidor vai descobrir no supermercado. Se em novembro a carne ainda estiver a 6,89 o quilo, a culpa será da tarifa e da seca — e a solução, importar. O Brasil deveria estar preparado para o dia em que Washington precisar da nossa carne mais do que precisa punir o nosso governo", analisa.
Os programas do governo Trump para conter o preço da carne bovina e agradar aos pecuaristas, incluindo a "Ranchers First Initiative" lançada em 31 de agosto de 2026 pela secretária Brooke Rollins, foram analisados pela Folha em 3 de setembro de 2026; a carne moída custava em média US$ 6,89 o quilo em julho, alta de 10% em um ano.