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Finanças

Holanda retira 86 toneladas de ouro

Banco central holandês reduziu de 31,3% para 18,5% a fatia guardada nos EUA e diz que barras no Banco da Inglaterra são "as mais facilmente negociáveis do mundo"; reservas totais somam 612 toneladas.

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— Foto: Alchemist-hp (talk) www.pse-mendelejew.de / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 de)

Holanda retira 86 toneladas de ouro — quase US$ 12 bilhões — dos cofres de Nova York e Ottawa e transfere para Londres "em caso de crise"; operação secreta durou de março a agosto em meio à guerra comercial entre EUA e Canadá

O De Nederlandsche Bank (DNB), banco central da Holanda, retirou dos Estados Unidos e do Canadá 86 toneladas de ouro, avaliadas em quase US$ 12 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões), numa operação complexa que durou de março a agosto. O metal está agora sob custódia do Banco da Inglaterra, em Londres, onde, segundo o DNB, pode ser negociado com mais facilidade "em caso de crise". "Esperamos nunca precisar usá-lo, mas precisamos fortalecer nossa resiliência e preparação", disse o presidente do banco, Olaf Sleijpen. A decisão ocorre em meio à disputa comercial entre Estados Unidos e Canadá, que anunciaram tarifas recíprocas após o fracasso das negociações. As informações são da Folha de S.Paulo.

Antes da mudança, o DNB mantinha 31,3% de seu ouro em Nova York e 19,7% em Ottawa; agora, são 18,5% em cada um. As reservas totais da Holanda somavam 612,4 toneladas no fim de 2025, avaliadas em US$ 85 bilhões (R$ 433,5 bilhões) — uma das maiores da Europa em proporção ao tamanho do país.

Como se move 86 toneladas de ouro

A transferência combinou transporte físico e operações de mercado. Vinte e sete toneladas de barras foram levadas de Nova York e Ottawa para Zeist, na Holanda — o DNB não revelou como atravessaram o Atlântico —, e uma quantidade semelhante seguiu depois para Londres, sem que as barras fossem derretidas. O restante foi feito por venda de ouro em Nova York e compra de novas barras em Londres, sem deslocar metal. "A combinação dos processos de compra e venda e do transporte físico permitiu ao DNB diversificar os riscos associados a uma transferência física de ouro tão complexa", afirmou o banco. Mover ouro em escala é operação de segurança máxima: aviões de carga, escolta, seguro bilionário e segredo absoluto sobre datas e rotas.

Para , editor do portal, o gesto é uma declaração diplomática feita em lingotes. "Um banco central não tira ouro de Nova York por acaso. A Holanda é aliada dos EUA na Otan, membro fundador da União Europeia, um dos países mais alinhados a Washington no continente. Quando esse país decide que seu ouro está mais seguro em Londres do que no Federal Reserve, está dizendo que não confia mais que os Estados Unidos serão um custodiante neutro numa crise. É o efeito Trump sobre a ordem financeira: as tarifas ao Canadá mostraram que nem aliado está a salvo, e os holandeses tiraram a conclusão", avalia.

Por que o ouro fica em Nova York

Desde a Segunda Guerra, dezenas de bancos centrais guardam parte de suas reservas de ouro nos cofres do Federal Reserve de Nova York — o maior depósito do mundo, com milhares de toneladas de dezenas de países — e no Banco da Inglaterra. A lógica era dupla: segurança física longe de conflitos europeus e proximidade dos mercados onde o ouro é negociado, o que permite vender ou dar em garantia sem transporte. Nos anos 2010, Alemanha, Holanda, Áustria e outros começaram a repatriar parte do metal, por pressão da opinião pública e por desconfiança pós-crise de 2008. A operação holandesa de 2026 é a segunda onda — e a primeira motivada explicitamente pela geopolítica americana.

Londres: "o ouro mais negociável do mundo"

O DNB afirmou que as barras mantidas no Banco da Inglaterra "são consideradas o ouro mais facilmente negociável do mundo" e, portanto, mais prontamente disponíveis em caso de crise do que se permanecessem nos EUA ou no Canadá. Londres é o centro do mercado de ouro físico — a London Bullion Market Association define o padrão das barras "Good Delivery", aceitas sem verificação em qualquer lugar —, e o Banco da Inglaterra é custodiante de reservas de mais de 70 países. Ouro em Londres pode ser vendido, emprestado ou usado como colateral em horas; ouro em Nova York, sob eventual restrição americana, talvez não.

A guerra comercial EUA-Canadá

O contexto é a escalada entre Washington e Ottawa. O Canadá foi fortemente atingido pelas tarifas americanas sobre aço, alumínio, madeira e automóveis e, em agosto, por uma taxa adicional de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões) em produtos canadenses, anunciada após o colapso das negociações comerciais. A resposta canadense com tarifas recíprocas transformou os dois vizinhos — parceiros no acordo USMCA — em adversários comerciais. Para um banco central europeu com ouro nos dois países, a disputa é sinal de que a América do Norte deixou de ser zona de estabilidade.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o movimento holandês deve ser copiado. "A Alemanha tem mais de mil toneladas em Nova York; a Itália, centenas; o Brasil tem parte das suas reservas lá. Todos estão olhando o que a Holanda fez e perguntando se o Fed continua sendo o cofre mais seguro do mundo quando o presidente americano trata aliado como inimigo comercial. Não é pânico — a Holanda deixou 18,5% em cada país —, é diversificação. Mas diversificação de banco central é lenta e silenciosa, e quando aparece na imprensa é porque já aconteceu. Outros virão", observa.

"Instabilidade geopolítica": o que o DNB não disse

O banco holandês citou "instabilidade geopolítica" sem detalhar. A economia americana enfrenta perspectiva incerta com a guerra com o Irã, o déficit fiscal e a política tarifária; o Canadá, a recessão induzida pelas tarifas. Há ainda a possibilidade, discutida por analistas desde o primeiro mandato de Trump, de os Estados Unidos usarem ativos estrangeiros sob sua custódia como instrumento de pressão — como fizeram com reservas russas após a invasão da Ucrânia. Para um aliado, o precedente é inquietante: se o ouro pode ser congelado por decisão política, sua função de reserva de emergência desaparece.

Alemanha, 2013: a repatriação que abriu caminho

O precedente mais conhecido é o do Bundesbank. Em 2013, sob pressão do Tribunal de Contas alemão e da opinião pública, o banco central da Alemanha anunciou a repatriação de 674 toneladas de ouro guardadas em Nova York e Paris — operação concluída em 2017, com transporte sigiloso e recontagem de cada barra em Frankfurt. A Holanda fez movimento semelhante em 2014, trazendo 122 toneladas de Nova York para Amsterdã; Áustria, Hungria e Polônia seguiram. A diferença de 2026 é o destino e o motivo: em vez de trazer para casa, o DNB levou para Londres, e em vez de responder à opinião pública, respondeu à geopolítica. É a primeira vez que um banco central europeu justifica a saída dos EUA pela necessidade de ter o ouro "negociável em caso de crise" — linguagem que pressupõe que o custodiante americano poderia não ser confiável no momento decisivo.

Ouro em alta: o pano de fundo

A operação ocorre com o ouro em cotações recordes, acima de US$ 4 mil por onça, impulsionado pela compra de bancos centrais — China, Índia, Turquia, Polônia — que reduzem a dependência do dólar e buscam ativo sem risco de contraparte. As 86 toneladas holandesas valem hoje muito mais do que valiam quando foram depositadas em Nova York décadas atrás, e o interesse em tê-las acessíveis cresce na mesma proporção. O ouro voltou a ser o que era antes de 1971: a reserva última de um país quando o sistema financeiro falha.

O Brasil e suas reservas

O Banco Central do Brasil mantém reservas de ouro modestas em relação ao total de reservas internacionais — pouco mais de 100 toneladas, contra mais de US$ 300 bilhões em títulos, majoritariamente do Tesouro americano. O debate sobre custódia e diversificação, que a Holanda acaba de reabrir, é relevante para o país: reservas em dólar e em títulos americanos são líquidas, mas expostas à política de Washington, como as tarifas de julho mostraram. Bancos centrais de emergentes vêm aumentando a parcela em ouro exatamente por isso.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o episódio tem lição para além do ouro. "O que a Holanda fez foi um teste de estresse: onde meu ativo mais seguro precisa estar para que eu consiga usá-lo no pior dia? A resposta foi Londres, não Nova York. É a primeira vez desde 1945 que um aliado central dos EUA responde assim publicamente. O dólar continua sendo a moeda do mundo, mas a confiança de que os Estados Unidos são o guardião neutro dela está sendo revista — e a revisão é feita por quem tem mais a perder. Bancos centrais não fazem gestos; fazem operações. Esta durou seis meses e foi anunciada depois de concluída", analisa.

O De Nederlandsche Bank informou que a transferência de 86 toneladas de ouro para o Banco da Inglaterra está concluída. As reservas holandesas permanecem distribuídas entre Amsterdã, Londres, Nova York e Ottawa.

Fontes e referências

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