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Finanças

Exportações dos EUA sobem 12% em valor no 1º mês das tarifas de Trump

Brasil embarcou US$ 3,19 bilhões aos americanos em agosto, com aeronaves e carne isentas puxando o resultado; no ano, queda de 13,6% em volume. Superávit total foi de US$ 7,39 bi.

Capa do artigo Exportações dos EUA sobem 12% em valor no 1º mês das tarifas de Trump
— Foto: Avidius / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

No primeiro mês das tarifas de Trump, exportações do Brasil aos EUA sobem 12% em valor por causa dos preços, mas caem 3% em volume; vendas à União Europeia disparam 46%

No mês em que entraram em vigor as novas tarifas do governo Donald Trump sobre produtos brasileiros, as exportações do Brasil aos Estados Unidos cresceram 12,1% em valor — US$ 3,190 bilhões, contra US$ 2,845 bilhões em agosto de 2025 —, mas caíram 3,1% em volume. O aumento foi sustentado pela alta de 8,6% nos preços médios dos produtos vendidos, e não por mais mercadoria embarcada. No acumulado de janeiro a agosto, as vendas aos americanos recuam 13,6% em volume e 9,7% em valor, para US$ 24,105 bilhões. Enquanto isso, as exportações à União Europeia dispararam 46,4% em agosto, para US$ 5,82 bilhões. As informações são da Agência Brasil, a partir dos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

"Esse aumento das exportações brasileiras no mês está calcado pelo crescimento de preços da exportação para os Estados Unidos, de 8,6%", disse Herlon Brandão, diretor do Departamento de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do Mdic, ao divulgar a balança comercial de agosto.

O que puxou o valor: os produtos isentos

Entre os itens que mais contribuíram para o crescimento em valor estão aeronaves e outros equipamentos, carne bovina, produtos inacabados de ferro ou aço, cal, cimento e materiais de construção, tubos de ferro ou aço, celulose e café. Dois deles — aeronaves e carne bovina — foram excetuados das novas tarifas americanas, o que explica parte da resiliência: os embarques da Embraer e dos frigoríficos seguiram sem sobretaxa, enquanto outros setores enfrentaram o novo custo.

Segundo o Mdic, pouco mais de 20% do comércio brasileiro com os Estados Unidos foi afetado pelas tarifas. É uma parcela relevante, mas menor do que a percepção pública sugere — e a lista de exceções, negociada nos meses anteriores, preservou justamente os produtos de maior valor agregado e maior peso na pauta.

Para , editor do portal, o dado de agosto precisa ser lido com cuidado. "Doze por cento a mais em valor parece que a tarifa não pegou. Mas o volume caiu 3% no mês e 13,6% no ano. O que subiu foi o preço — café, carne, celulose estão caros no mundo inteiro. O Brasil está vendendo menos coisa por mais dinheiro. Quando o preço das commodities normalizar, o que vai sobrar é a queda de volume. E a queda de volume é a tarifa funcionando", avalia.

Por que os preços subiram

A alta de 8,6% no preço médio dos produtos exportados aos Estados Unidos reflete o momento das commodities. O café brasileiro é vendido a preços historicamente altos após quebras de safra em anos anteriores; a carne bovina segue valorizada pela demanda global e pela redução de rebanhos em outros países produtores; a celulose e o aço acompanham o ciclo internacional. Quando o produto fica mais caro, o exportador recebe mais dólares por tonelada — e o valor total sobe mesmo com menos volume embarcado. É um ganho real para o exportador no curto prazo, mas não indica aumento de competitividade nem de demanda: indica preço.

A distinção importa para ler os próximos meses. Se os preços das commodities recuarem — como costuma ocorrer após picos —, o valor das exportações aos Estados Unidos tende a cair junto com o volume, e o efeito da tarifa aparecerá por inteiro.

Importações também caem; déficit com os EUA

As compras brasileiras de produtos americanos somaram US$ 27,316 bilhões entre janeiro e agosto, queda de 8,6% ante o mesmo período de 2025. Com isso, o Brasil acumula déficit de US$ 3,211 bilhões no comércio bilateral em 2026. Só em agosto, as importações dos EUA cresceram 1,1%, para US$ 4,014 bilhões, e o déficit do mês foi de US$ 824 milhões — os Estados Unidos foram, entre os principais parceiros, o único com quem o Brasil teve saldo negativo.

O dado é relevante no debate sobre as tarifas: o argumento americano para sobretaxar produtos brasileiros foi, em parte, o desequilíbrio comercial — mas, na relação bilateral, quem tem superávit são os Estados Unidos, não o Brasil.

"Múltiplas interferências": a oscilação esperada

Brandão afirmou que as oscilações são esperadas diante das diferentes interferências no comércio entre os dois países. "Dadas as múltiplas interferências no comércio com os Estados Unidos, temos observado uma grande oscilação nesse fluxo, então, é esperado que tenham essas oscilações, por conta dessas interferências, não só dados os produtos diretamente afetados, quanto pelas incertezas que essas interferências geram nos agentes da economia", avaliou. Sobre um eventual redirecionamento das exportações para outros mercados, o diretor foi cauteloso: "Nós precisamos de um pouco mais de tempo para falar com mais segurança sobre esse efeito".

União Europeia: o salto de 46%

O contraste com a Europa é o dado mais expressivo do mês. As exportações ao bloco somaram US$ 5,82 bilhões em agosto — quase o dobro das vendas aos Estados Unidos —, com crescimento de 46,4% em valor e de 30,3% em volume sobre agosto de 2025. Entre os principais produtos estão petróleo, cobre, soja, óleos combustíveis, café, tabaco e carne bovina.

Para Brandão, o desempenho reúne fatores distintos: condições de mercado — como o aumento da demanda por combustíveis em razão do conflito no Oriente Médio e a maior procura por cobre associada ao aquecimento do setor de tecnologia — e os efeitos do acordo entre Mercosul e União Europeia. "Temos relatos de exportadores que já estão se beneficiando do acordo nesse período, mas também tem as condições de mercado e de oferta influenciando", explicou, ponderando que ainda faltam dados completos dos importadores europeus para dimensionar com precisão o efeito do acordo.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a Europa é a resposta à tarifa. "Enquanto os Estados Unidos sobretaxam, a União Europeia abre — acordo Mercosul-UE em vigor, demanda por petróleo por causa da guerra no Golfo, cobre para data center. Resultado: 46% a mais em agosto, quase o dobro do que vai para os americanos. O Brasil não escolheu trocar de parceiro; foi empurrado. Mas o número mostra que tem para onde ir. Redirecionamento leva tempo, como disse o Mdic, mas já começou", observa.

Superávit recorde no ano

No conjunto, a balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 7,39 bilhões em agosto, alta de 23,8% em relação ao mesmo mês de 2025 — o maior saldo para o mês em três anos, segundo o G1. De janeiro a agosto, o superávit acumulado chega a US$ 55,32 bilhões, crescimento de 28,2% sobre o mesmo período do ano anterior. O resultado é sustentado por commodities em alta e pela diversificação de destinos: China, União Europeia e países asiáticos e do Oriente Médio ampliaram compras enquanto o mercado americano encolhia.

Tarifas: o que está em jogo

As tarifas americanas sobre produtos brasileiros, anunciadas pelo governo Trump em meio a tensões políticas com o Brasil, atingem setores como aço, alumínio, manufaturados e parte do agronegócio, com uma lista de exceções que preservou aeronaves, carne e outros itens estratégicos para a indústria americana. O governo brasileiro negocia a ampliação das exceções e, paralelamente, acelera acordos com outros blocos. O dado de agosto — o primeiro mês completo sob as novas regras — é o primeiro termômetro real do impacto.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o balanço do primeiro mês é ambíguo, mas não é ruim. "A tarifa derrubou volume, mas o preço segurou o valor; os Estados Unidos encolheram, mas a Europa cresceu; o comércio bilateral está em déficit para o Brasil, o que tira o argumento americano. E o superávit total é recorde. Não é o cenário de catástrofe que se temia em julho. É o cenário de um país que vende commodity num mundo em guerra e que tem acordo novo com a Europa. A conta vai ser paga pelos setores tarifados — aço, manufaturados —, e é para eles que o governo precisa olhar", analisa.

O Mdic divulga os dados da balança comercial de setembro no início de outubro. O governo brasileiro mantém negociações com os Estados Unidos sobre a lista de produtos sujeitos às novas tarifas.

Fontes e referências

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