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Economia

Metade das empresas brasileiras já usa inteligência artificial

Estudo da Strand Partners para a AWS aponta 12 milhões de negócios usando IA; empresa quer capacitar 1 milhão de brasileiros.

Capa do artigo Metade das empresas brasileiras já usa inteligência artificial
— Foto: Vasconcelosvhn / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Metade das empresas brasileiras já usa inteligência artificial, mas só 33% confiam que conseguem medir o retorno: pesquisa da AWS mostra 66% com ganhos acima do investimento e 72% com mais produtividade, porém apenas 15% em estágio avançado, 28% com métricas consistentes e 6% com IA agêntica implantada — falta de profissionais qualificados é o principal entrave

Menos da metade das empresas brasileiras se dizem confiantes na capacidade de medir com precisão o retorno sobre o investimento de suas iniciativas de inteligência artificial — 33%, segundo o estudo "Desbloqueando o Potencial da IA no Brasil 2026", da consultoria Strand Partners para a Amazon Web Services. A insegurança persiste mesmo entre empresas que já colhem retornos: 66% relatam ganhos que superaram o investimento inicial, 72% relatam mais produtividade e 54% atribuem à tecnologia crescimento de receita; apenas 28% têm estrutura de medição bem definida e aplicada com consistência. As informações são do Painel S.A., da Folha.

O dado se soma a outros sinais de imaturidade: 50% das empresas brasileiras — cerca de 12 milhões de negócios — já usam ferramentas de IA, ante 40% no levantamento anterior, mas só 15% atuam em estágio avançado, capazes de criar ou transformar modelos de negócio; 58% ficam no estágio básico, de ganhos incrementais de eficiência. Sobre IA agêntica — sistemas que executam tarefas de forma autônoma —, 26% dizem ter ouvido falar; entre essas, 6% implantaram totalmente, 31% testam ou pilotam e 45% planejam adotar. "O desafio dos líderes hoje não é o acesso à tecnologia, mas a preparação para a nova onda da IA, como a IA agêntica e física", avalia Cleber Morais, diretor-geral da AWS no Brasil. A falta de profissionais qualificados é o principal entrave na região, segundo Paula Bellizia, vice-presidente para a América Latina, no AWS Summit São Paulo, em 3 de setembro; a demanda por posições ligadas a IA cresce mais que a média. A AWS anuncia meta de capacitar 2 milhões de pessoas na América Latina, 1 milhão no Brasil — 1,1 milhão treinadas desde 2017. No estudo, 48% citam escassez de habilidades em IA e digital como barreira, e 46% especificamente para tecnologias como a agêntica.

Usar não é medir: o que os números dizem

Metade das empresas usa IA e dois terços dizem que ela se pagou — mas só um terço sabe medir e só 28% têm método consistente; a contradição revela adoção guiada por percepção, não por indicador: a equipe usa ChatGPT ou Copilot, sente que produz mais, e a empresa contabiliza como retorno sem baseline nem métrica. É típico de tecnologia de uso geral em fase inicial — o computador pessoal e a internet passaram pelo mesmo "paradoxo da produtividade" antes que os ganhos aparecessem nas contas. O salto para o estágio avançado — 15% — exige o que falta: dados organizados, processos redesenhados, gente que saiba e métrica que prove. A AWS, que vende a infraestrutura, tem interesse em que as empresas avancem; o diagnóstico, porém, coincide com o de consultorias independentes.

Para , editor do portal, a pesquisa é retrato honesto de um país que adotou a IA antes de entendê-la. "Doze milhões de negócios usando IA é número impressionante — e 58% no estágio básico é a realidade: o contador que usa o chatbot para escrever e-mail, a loja que gera imagem para o Instagram. Ganho de produtividade real, transformação nenhuma. Só 15% mudaram o modelo de negócio; só 6% têm agente rodando. O gargalo, segundo a própria AWS, não é a nuvem que ela vende — é gente. Quarenta e oito por cento das empresas não têm quem saiba. A meta de treinar um milhão de brasileiros é a resposta da empresa e é também a admissão de que a tecnologia chegou antes da competência. Medir o retorno vem depois de saber o que se está fazendo", avalia.

Strand Partners: como a pesquisa é feita

O levantamento é encomendado anualmente pela AWS à consultoria britânica Strand Partners, que ouve empresas de todos os portes e regiões do país — de microempreendedores a grandes corporações — sobre adoção, estágio de uso e resultados de inteligência artificial; a edição anterior apontou 40% de negócios usando alguma ferramenta de IA, e a atual eleva o índice a 50%, com estimativa de 12 milhões de empresas. O desenho compara o Brasil a outros mercados em que a AWS aplica o mesmo questionário, o que permite situar o país na curva global: adoção alta e acelerada, mas concentrada em usos básicos — assistentes de texto, atendimento, análise de dados — e com fraca capacidade de mensurar retorno.

Capacitação: a meta de 1 milhão

A meta de capacitar 1 milhão de brasileiros em nuvem e IA apoia-se em programas que a empresa já opera no país — o AWS re/Start, voltado a pessoas sem formação técnica, o AWS Academy, em parceria com universidades e institutos federais, e o AWS Skill Builder, plataforma gratuita de cursos on-line —, além de acordos com governos estaduais e com o Senai; a aposta é que a lacuna apontada pela própria pesquisa — metade das empresas usa IA, mas só um terço sabe medir — seja de gente, não de tecnologia. Para a AWS, formar profissionais é também formar clientes: quem aprende a operar IA em nuvem tende a fazê-lo na infraestrutura em que aprendeu.

ROI de IA: por que é difícil medir

Ganhos de produtividade individual — tempo poupado em e-mail, código, análise — são difusos e não aparecem em linha de balanço; retornos em receita exigem atribuição que poucas empresas fazem; custos de licença, nuvem, integração e treinamento são subestimados; e o horizonte é longo. Empresas maduras definem casos de uso com métrica antes de implantar — tempo de atendimento, taxa de conversão, defeitos —; a maioria brasileira implanta primeiro e mede depois, se medir.

Estágio básico, avançado e a transformação

Básico é automatizar tarefas existentes; avançado é criar produto, serviço ou modelo novo — atendimento autônomo, precificação dinâmica, diagnóstico assistido, produto de dados. Os 15% avançados concentram-se em bancos, varejo grande, saúde privada e tecnologia; os 58% básicos, em pequenas e médias empresas que usam ferramentas prontas. O Brasil segue o padrão global, com atraso de um a dois anos em relação aos Estados Unidos.

IA agêntica: 26% ouviram falar, 6% usam

Agentes — sistemas que planejam e executam tarefas em várias etapas, com acesso a sistemas e permissões — são a fronteira de 2026; que três quartos das empresas brasileiras nem tenham ouvido falar, e que só 6% das que ouviram tenham implantado, mostra a distância entre o discurso do setor — Visa e Mastercard preparando pagamentos por agentes — e o chão das empresas. O AWS Summit foi dedicado ao tema.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o dado da capacitação é o mais importante e o menos glamouroso. "Um milhão e cem mil brasileiros treinados pela AWS desde 2017, meta de mais um milhão — é a maior iniciativa de formação digital privada do país, e ainda é insuficiente: 48% das empresas não acham profissional. A escola e a universidade não formam para IA na velocidade da demanda; a Univesp de Araras abriu bacharelado em IA em 2026, e é gota. O que a pesquisa diz, no fundo, é que o Brasil tem acesso à tecnologia mais avançada do mundo pela nuvem e não tem quem a opere. Quem resolver isso — governo, universidade, empresa — captura o retorno que hoje ninguém sabe medir", observa.

Produtividade e receita: os ganhos relatados

Setenta e dois por cento relatam ganho de produtividade e 54%, crescimento de receita atribuído à IA — percepções altas que, sem medição, podem estar infladas pelo entusiasmo; ainda assim, indicam que a tecnologia entrou na operação e que o impacto, mesmo mal medido, é sentido. Consultorias estimam que a IA generativa pode adicionar de 1% a 2% ao PIB brasileiro na década, se a adoção amadurecer.

Pequenas empresas: os 12 milhões

A maioria dos 12 milhões de negócios com IA é de micro e pequenas empresas usando ferramentas gratuitas ou baratas — chatbots, geradores de imagem, assistentes de escrita —; para elas, medir ROI é irrelevante e o ganho é imediato. O Sebrae e as prefeituras — como o Sebrae Aqui de Araras — são os canais de capacitação para esse público.

AWS no Brasil: o interesse

A Amazon Web Services é a maior provedora de nuvem do país, com data centers em São Paulo e clientes de bancos a governos; pesquisas como a da Strand Partners servem para mapear o mercado e justificar investimento em formação — que cria demanda por seus serviços. O viés é conhecido; os números, ainda assim, são referência.

O que muda em 2027

Adoção de agentes em atendimento e back-office, pressão por métricas de retorno com o fim do ciclo de experimentação, e disputa por profissionais — com salários em alta; empresas que estruturarem medição e formação vão separar-se das que só usam. A próxima edição do estudo mostrará se os 33% viram 50%.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a pesquisa deveria ser lida por todo gestor que anunciou "adotamos IA". "Adotar é fácil — 12 milhões adotaram. Saber se valeu a pena é o que 67% não sabem. Medir exige definir o que se esperava antes de começar, e a maioria começou porque todo mundo começou. A AWS, que lucra com a adoção, está dizendo que o problema é formação — e está certa. O Brasil precisa de um milhão de pessoas que saibam usar IA para fazer negócio, não só para escrever texto. Até lá, o retorno vai ser sensação, não número", analisa.

O estudo "Desbloqueando o Potencial da IA no Brasil 2026", da Strand Partners para a Amazon Web Services, foi divulgado pela coluna Painel S.A., da Folha, em 5 de setembro de 2026, após o AWS Summit São Paulo de 3 de setembro.

Fontes e referências

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