O que Trump ganha com o "maior acordo petrolífero da história"
Nabep, de Alejandro Betancourt, vira segunda maior exploradora do mundo; Pentágono gere a participação americana. Casa Branca fala em 100 anos, Delcy Rodríguez em 25.
O que Trump ganha com o "maior acordo petrolífero da história": EUA ficam com 35% da estrutura que administrará 17 campos venezuelanos com 65 bilhões de barris, 20% da produção a preço de custo e preferência sobre o resto — em áreas antes concedidas a China e Rússia
Os Estados Unidos anunciaram em 28 de agosto um acordo com a Venezuela que pode garantir a Washington acesso a cerca de 20% das reservas comprovadas de petróleo do país. Apresentado por Donald Trump como o "maior acordo petrolífero da história", o negócio envolve 17 campos com potencial estimado em 65 bilhões de barris e coloca no centro da operação a North American Blue Energy Partners (Nabep), petroleira controlada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt. Pelos termos divulgados, a Nabep recebe os direitos de exploração; o governo americano terá 35% da estrutura criada para administrar os ativos, acesso garantido a 20% da produção a preço de custo e direito de preferência para comprar o restante. As informações são do g1.
As cifras são bilionárias: segundo a Nabep e o governo venezuelano, o projeto pode atrair mais de US$ 100 bilhões em investimentos para recuperar a infraestrutura petrolífera, e Caracas calcula mais de US$ 209 bilhões em receitas tributárias ao longo da vigência. Os detalhes seguem em sigilo, e há divergências — a Casa Branca fala em concessão de 100 anos; a presidente interina Delcy Rodríguez, em 25.
Nabep: de coadjuvante a segunda do mundo
A Nabep é a principal beneficiária. Já atua no setor petrolífero venezuelano e, se o acordo prosperar, torna-se a segunda maior exploradora de petróleo comprovado do mundo, atrás apenas da Saudi Aramco. A figura de Betancourt é observada com cautela pelo mercado: uma fonte envolvida nas negociações disse à Reuters que algumas empresas interessadas em investir na Venezuela querem evitar ter de "sentar à mesa" com o empresário — ligado a negócios com o chavismo na década passada e investigado nos EUA em casos de lavagem de dinheiro que não resultaram em condenação.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o desenho do acordo é a novidade. "Não é a Exxon nem a Chevron. É uma empresa de um venezuelano com passado no chavismo, com o Pentágono como sócio de 35%. O governo americano vira petroleiro — concorrente das próprias empresas americanas na Venezuela. Isso não tem precedente desde a Segunda Guerra. Trump não está abrindo a Venezuela ao mercado; está fechando um contrato de Estado com um intermediário. As petroleiras grandes, que saíram com Chávez, estão olhando de fora e perguntando quem garante o contrato daqui a dez anos. A resposta, hoje, é Marco Rubio", avalia.
O Pentágono como acionista
A participação americana ficará sob responsabilidade do Escritório de Capital Estratégico do Pentágono, e o acordo foi assinado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth. O envolvimento estatal direto cria situação inédita: empresas privadas americanas terão de concorrer com o próprio governo dos EUA pelo petróleo venezuelano. É a lógica do capitalismo de Estado — que Washington criticava em Pequim — aplicada por Washington.
Tirar China e Rússia
Para Washington, o acordo também reduz a influência de China e Rússia sobre o setor. Segundo autoridades americanas citadas pela Reuters, parte dos campos incluídos era anteriormente explorada por empresas chinesas — inclusive uma estatal — e por uma companhia russa, o que permite redirecionar produção que tinha a Ásia como destino. Pequim reagiu: em 1º de setembro, o Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou que os "direitos e interesses legítimos da China na Venezuela devem ser salvaguardados" e que a cooperação entre os dois países está protegida pelo direito internacional. A China emprestou dezenas de bilhões à Venezuela chavista, pagos em petróleo — e parte dessa dívida ainda está aberta.
Delcy Rodríguez: "a Venezuela mantém a soberania"
A presidente interina rejeitou as críticas de que o país estaria cedendo recursos aos EUA. "Uma coisa deve ficar absolutamente clara: a Venezuela mantém a propriedade e a soberania sobre seus recursos", afirmou. O objetivo, segundo ela, é transformar o país em "uma potência energética, um grande produtor de petróleo, um exportador importante de gás e um grande desenvolvedor petroquímico nacional". Rodríguez, ex-vice de Maduro que assumiu após a captura dele por militares americanos, governa sob supervisão de Washington — e a divergência sobre 25 ou 100 anos de concessão mostra que a narrativa interna e a externa ainda não estão alinhadas.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a divergência de prazo é o detalhe mais revelador. "Casa Branca diz 100 anos; Delcy diz 25. Diferença de 75 anos num contrato bilionário não é erro de tradução — é que cada lado está contando uma história para seu público. Trump precisa do 'maior acordo da história' para a eleição de novembro; Delcy precisa de 'soberania' para não ser derrubada por quem sobrou do chavismo. O contrato real está em sigilo. Quando aparecer, um dos dois vai ter mentido. E o investidor que precisa colocar US$ 100 bilhões sabe disso — por isso a Exxon e a Conoco não entraram", observa.
Segurança energética e eleição
Trump defende a iniciativa pela segurança energética: "Uma das coisas que eu quero fazer com todo esse petróleo que agora temos é preencher as reservas estratégicas", declarou. A Casa Branca sustenta que o aumento da produção venezuelana pode aliviar os preços da energia nos EUA, pressionados pela guerra de EUA e Israel contra o Irã — pressão inflacionária às vésperas das eleições de meio de mandato, que podem custar a Trump a maioria no Congresso. O calendário político explica a pressa e o superlativo.
De 3 milhões a 1,2 milhão de barris
Especialistas alertam que recuperar a indústria venezuelana será longo e caro. Após anos de subinvestimento, sanções e deterioração, o país produz cerca de 1,2 milhão de barris por dia, longe dos 3 milhões de 25 anos atrás. "Você precisaria de investimentos significativos e do conhecimento técnico de empresas como Exxon e ConocoPhillips", disse à Reuters Alejo Czerwonko, do UBS — e a questão é como atraí-las a um ambiente de incerteza regulatória e política. "Pode ser útil no longo prazo, mas não fará nada para mudar o preço da gasolina no posto", afirmou Amy Myers Jaffe, da Universidade de Nova York, à AP.
Segurança jurídica: a lembrança de Chávez
ExxonMobil e ConocoPhillips deixaram a Venezuela após as nacionalizações de Hugo Chávez em 2007 e venceram arbitragens bilionárias que nunca receberam integralmente. Continuam aguardando estabilidade regulatória e respeito a contratos como condição para voltar. O acordo Nabep, com o governo americano como sócio, é uma forma de garantia política — mas não substitui o marco legal que as grandes exigem. O risco é que o petróleo venezuelano fique concentrado numa empresa e num governo, sem a capacidade técnica que só as majors têm.
O que muda para o Brasil
Para o Brasil, o acordo tem dois efeitos: no mercado, mais petróleo pesado venezuelano no médio prazo compete com o brasileiro nas refinarias americanas do Golfo; na geopolítica, consolida a Venezuela como área de influência direta dos EUA na fronteira norte, com a China deslocada. A Petrobras, que chegou a discutir parcerias na Venezuela nos anos 2000, está fora. A Margem Equatorial, que o Ibama acaba de liberar em Foz do Amazonas, ganha relevância estratégica como alternativa brasileira ao petróleo da região.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o acordo é o retrato de uma era. "Os EUA derrubaram Maduro, colocaram Delcy, e assinaram com uma empresa venezuelana um contrato em que o Pentágono é sócio. Chamar isso de 'maior acordo da história' é marketing; chamar de 'soberania' é ficção. É o que era: o vencedor da guerra dividindo o espólio com quem ficou. A China perdeu os campos, a Rússia perdeu o campo, a Exxon não entrou, e a Venezuela vai levar dez anos para voltar a produzir o que produzia em 2000. Quem ganhou foi Betancourt — e Trump, se a gasolina baixar antes de novembro. Não vai baixar", analisa.
O acordo entre Estados Unidos e Venezuela foi anunciado em 28 de agosto de 2026 e assinado por Marco Rubio e Pete Hegseth. Os termos completos não foram divulgados.