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Economia

Quatro usinas de etanol descredenciadas pela Fazenda de São Paulo

Itajobi, Carolo, Rio Pardo e Comanche não responderam; 23 mandados da Carbono Oculto se concentraram no polo sucroenergético de Ribeirão Preto.

Capa do artigo Quatro usinas de etanol descredenciadas pela Fazenda de São Paulo
— Foto: Kambai Akau / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Quatro usinas de etanol descredenciadas pela Fazenda de São Paulo — todas citadas na Operação Carbono Oculto — aumentaram as vendas em 46% entre janeiro e julho de 2026: descredenciamento transfere o recolhimento do imposto para as distribuidoras, que o Fisco teme serem "barrigas de aluguel", e o setor regular estima perda de arrecadação de até R$ 602 milhões por ano e pede o fim do benefício a agentes não credenciados

Levantamento de empresas do setor de combustíveis, obtido pela coluna Painel S.A., da Folha, mostra que o volume vendido por quatro usinas de etanol descredenciadas pela Secretaria da Fazenda de São Paulo cresceu 46% entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. As usinas Itajobi Açúcar e Álcool, Usina Carolo, Usina Rio Pardo e Comanche Biocombustíveis de Santa Anita aparecem citadas na Operação Carbono Oculto, que investiga fraudes no mercado; Itajobi e Rio Pardo, procuradas por e-mail e telefone na quinta-feira (3), não responderam, e Carolo e Comanche não foram encontradas. As informações são da Folha.

O descredenciamento altera a dinâmica do recolhimento de impostos: a responsabilidade tributária é diferida para a etapa seguinte da cadeia — no caso, as distribuidoras —, e a preocupação das autoridades é que essas distribuidoras sejam "barrigas de aluguel", empresas fictícias criadas apenas para não pagar os tributos. Na região de Ribeirão Preto, no interior paulista, 23 mandados de busca e apreensão da Carbono Oculto se concentraram no polo sucroenergético. O levantamento foi feito porque companhias que atuam regularmente veem o risco de aumento ainda maior do volume movimentado dentro desse regime e alertam para a assimetria concorrencial entre as credenciadas pela Fazenda e as descredenciadas; o potencial de perda arrecadatória, segundo entidades do segmento, é de até R$ 602 milhões por ano. Os responsáveis pelo estudo reivindicam a suspensão de benefícios a agentes não credenciados, impedindo que transfiram sua responsabilidade tributária às distribuidoras.

Credenciamento e diferimento: como funciona o ICMS do etanol em São Paulo

Em São Paulo, maior produtor de etanol do país, a Fazenda estadual credencia usinas para que recolham o ICMS na saída do produto — o regime de substituição tributária, que concentra a arrecadação em poucos contribuintes grandes e auditáveis; quando uma usina é descredenciada, por irregularidades fiscais ou por envolvimento em investigações, o imposto deixa de ser recolhido na origem e passa a ser devido pela distribuidora que compra o etanol — o "diferimento". O problema é o que a coluna descreve: distribuidoras de fachada, abertas em nome de laranjas, compram o etanol das usinas descredenciadas, revendem a postos com preço menor porque não recolhem o ICMS, e fecham antes de a dívida ser cobrada — as "barrigas de aluguel". A usina descredenciada, por sua vez, vende mais, porque seu produto chega ao posto mais barato: é o mecanismo que explica os 46% de crescimento das quatro empresas citadas, contra um mercado que cresceu muito menos, e a perda de R$ 602 milhões que o setor regular estima. A Operação Carbono Oculto, de agosto de 2025, revelou que parte desse esquema era operada por facções criminosas com fintechs e fundos na Faria Lima.

Para , editor do portal, o levantamento mostra que a punição virou vantagem. "A Fazenda descredencia a usina citada na Carbono Oculto e, em vez de a usina vender menos, vende 46% mais — porque o imposto vai para uma distribuidora que não existe e o etanol chega ao posto mais barato que o do concorrente honesto. É o Estado criando o incentivo ao crime que diz combater. As empresas regulares fizeram a conta: 602 milhões por ano de arrecadação que some, e concorrência desleal com quem paga imposto. A solução que pedem é óbvia: usina descredenciada não pode transferir o imposto para ninguém; recolhe na origem ou não vende. Que a Fazenda de São Paulo, que sabe o nome das quatro, feche a torneira antes que o PCC abra mais distribuidoras em Ribeirão Preto", avalia.

As quatro usinas: quem são

Itajobi Açúcar e Álcool, na região de Catanduva; Usina Carolo, em Pontal, e Usina Rio Pardo, em Cerqueira César, no polo de Ribeirão Preto; e Comanche Biocombustíveis, em Santa Anita — todas citadas na Carbono Oculto e descredenciadas pela Fazenda; nenhuma respondeu à coluna. São produtoras de médio porte cujo volume, somado, cresceu 46% em sete meses, num mercado em que as grandes companhias credenciadas registram alta de um dígito.

Operação Carbono Oculto: o esquema revelado em 2025

Deflagrada em agosto de 2025 por Receita Federal, Ministério Público e polícias, a operação expôs uma rede de usinas, distribuidoras, postos, fintechs e fundos de investimento usados pelo PCC para lavar dinheiro e sonegar bilhões no setor de combustíveis — com adulteração de etanol, distribuidoras de fachada e contas em instituições da Faria Lima; foram centenas de mandados, inclusive 23 no polo sucroenergético de Ribeirão Preto. As quatro usinas citadas aparecem nos autos.

"Barrigas de aluguel": as distribuidoras fictícias

Empresas registradas em nome de laranjas, com sede fictícia e sem estrutura, que compram etanol de usinas descredenciadas assumindo a obrigação de recolher o ICMS — e desaparecem antes de pagar; o prejuízo fica com o Estado, e o preço menor no posto desloca a concorrência. O termo é do próprio setor e resume por que o diferimento, criado para casos excepcionais, virou brecha.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o caso é a face fiscal da infiltração do crime organizado no combustível. "A Carbono Oculto mostrou que o PCC estava na usina, na distribuidora, no posto e no fundo de investimento. Um ano depois, a coluna mostra que as usinas citadas vendem mais que antes, porque o mecanismo tributário deixou a porta aberta. Não é falha de investigação; é falha de regra. A Fazenda descredencia e o diferimento faz o resto. Seiscentos e dois milhões por ano é o preço de uma norma que ninguém mudou. O setor regular está pedindo o que o governo deveria ter feito em agosto de 2025: acabar com o diferimento para descredenciado. Enquanto isso, o etanol mais barato do interior de São Paulo pode ser o do crime", observa.

R$ 602 milhões: o cálculo do setor

A estimativa das entidades considera o ICMS não recolhido sobre o volume vendido pelas usinas descredenciadas via distribuidoras que não pagam, projetado para doze meses; é perda para o Estado de São Paulo e vantagem de preço de centavos por litro que, no varejo de combustíveis, decide a venda. Companhias regulares alertam que o volume pode crescer mais se nada mudar.

Ribeirão Preto: o polo sucroenergético sob investigação

A região concentra dezenas de usinas e é o coração da cana paulista — e foi onde a Carbono Oculto cumpriu 23 mandados; usinas, distribuidoras e transportadoras locais integram a cadeia investigada. A proximidade entre produção, distribuição e postos facilita o esquema e dificulta a fiscalização.

O que o setor regular pede

Fim do diferimento para usinas descredenciadas — recolhimento obrigatório na origem —, cruzamento de dados entre Fazenda e Receita sobre distribuidoras novas, e responsabilização solidária de usinas que vendem a empresas de fachada; propostas que a Fazenda paulista estuda e que o Confaz poderia estender a outros estados.

O consumidor no posto: o que muda

Etanol mais barato em alguns postos pode ser resultado desse esquema — e vir com risco de adulteração, como a operação mostrou; o consumidor não tem como distinguir, e a única defesa é a fiscalização. Araras, no coração da cana paulista, tem usinas credenciadas e postos que disputam preço com a região — e sente o efeito da concorrência desleal.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia é aviso ao Fisco e ao consumidor. "Quatro usinas investigadas vendendo 46% mais um ano depois da operação é o crime ganhando a rodada tributária. A coluna deu nomes, números e a solução do setor. Falta a Fazenda de São Paulo agir — e falta o motorista saber que o etanol mais barato pode ser o que não paga imposto e sustenta facção. Em Araras, onde a cana é a economia, usina que paga imposto compete com usina que não paga. O portal registra e cobra: fechar a brecha do diferimento é caneta, não investigação", analisa.

O levantamento sobre o aumento de 46% nas vendas de quatro usinas de etanol descredenciadas pela Secretaria da Fazenda de São Paulo foi publicado pela coluna Painel S.A., da Folha, em 3 de setembro de 2026; as usinas são citadas na Operação Carbono Oculto, e o setor estima perda de arrecadação de até R$ 602 milhões por ano.

Fontes e referências

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