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Trabalho

Brasil tem 405 mil motociclistas de aplicativo e só um em cada cinco contribui para a Previdência

Módulo da Pnad Contínua divulgado em 4 de setembro também conta 905 mil motoristas de app, com apenas 25,5% cobertos; "podem estar expostos a acidentes", diz o analista Gustavo Fontes.

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— Foto: Juliano Galisi / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Brasil tem 405 mil motociclistas de aplicativo e só um em cada cinco contribui para a Previdência: IBGE mostra que o contingente praticamente dobrou desde 2022, que a cobertura previdenciária de 19,4% é um terço da média do setor privado, e que o entregador ou mototaxista de app trabalha 44,9 horas por semana para retirar, em média, R$ 2.221 depois de pagar o combustível

O Brasil tem cerca de 405 mil pessoas que trabalham como motociclistas de aplicativos — transporte de passageiros e entrega de comida e produtos — e apenas 79 mil delas têm cobertura previdenciária, o que representa 19,4%, um em cada cinco. Para comparação, entre todas as pessoas ocupadas no setor privado o índice de cobertura é de 62,4%; entre todos os motociclistas do país, plataformizados ou não, é de 31%. Os dados fazem parte de um módulo especial sobre trabalho por meio de plataformas digitais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgado na sexta-feira (4 de setembro) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com informações coletadas em 2025. As informações são da Agência Brasil.

O analista da pesquisa, Gustavo Geaquinto Fontes, aponta que a "pequena parcela dos condutores plataformizados" protegidos pela Previdência contrasta com o perfil da atividade: "Eles podem estar expostos a acidentes e outros riscos relacionados à ocupação". De 2024 para 2025, o número de motociclistas plataformizados cresceu 15,4%; de 2022, primeiro ano da pesquisa, a 2025, praticamente dobrou — de 211 mil para 405 mil. A pesquisa é considerada experimental pelo IBGE, e em 2023 não houve coleta. Os motociclistas de app receberam, em média, R$ 2.221 mensais — valor efetivamente "retirado", já descontado o gasto com combustível —, com jornada semanal de 44,9 horas, contra 41,1 horas dos não plataformizados; o rendimento por hora dos plataformizados, R$ 11,4, era 12,9% superior ao dos demais, R$ 10,1. A Pnad também traz motoristas de aplicativo: 905 mil em 2025, alta de 9,8% em um ano e de 26% em três — eram 718 mil —, dos quais apenas 25,5% tinham cobertura previdenciária, contra 43,8% entre todos os motoristas do país; diferentemente dos motociclistas, os motoristas de app tinham rendimento por hora inferior ao dos não plataformizados.

O que significa não contribuir para a Previdência

Quem não contribui ao INSS não tem direito a aposentadoria, auxílio por incapacidade, pensão por morte para a família nem salário-maternidade — proteções que, numa atividade com alto risco de acidente de trânsito, fazem diferença imediata: o motociclista que quebra a perna numa entrega fica sem renda e sem benefício. O trabalhador de plataforma é classificado como autônomo e pode contribuir como contribuinte individual — 20% sobre o rendimento, ou 11% no plano simplificado sobre o salário mínimo — ou como microempreendedor individual, o MEI, com contribuição fixa mensal; na prática, com retirada média de R$ 2.221 e jornada de 45 horas, a maioria não contribui, e a pesquisa do IBGE mede pela primeira vez o tamanho dessa desproteção. É o dado que falta ao debate sobre regulamentação do trabalho por aplicativo, parado no Congresso desde 2024.

Para , editor do portal, o número resume o problema social do trabalho por aplicativo. "Quatrocentos e cinco mil pessoas em cima de moto, 45 horas por semana, R$ 2.221 líquidos — e 81% sem Previdência. Se cair, não tem auxílio; se morrer, a família não tem pensão. O IBGE diz com elegância que 'podem estar expostos a acidentes'; qualquer um que anda por São Paulo ou pelo Rio sabe o que isso significa. O contingente dobrou em três anos e a cobertura não acompanhou. O projeto do governo de 2024 regulamentava motoristas de carro e deixou os motociclistas de fora; agora há 405 mil razões para incluí-los. Plataforma que fatura bilhões pode recolher contribuição na fonte — é a única forma de a cobertura sair de 19%", avalia.

Pnad módulo plataformas: como o IBGE mede

O módulo, aplicado desde 2022 dentro da Pnad Contínua, identifica pessoas que obtêm trabalho por aplicativos ou plataformas — transporte, entrega, serviços — e mede contingente, jornada, rendimento e proteção social; a coleta de 2025 é a terceira, e o instituto ainda a considera experimental, o que exige cautela nas comparações. Mesmo assim, a tendência é inequívoca: crescimento forte e cobertura baixa.

Motociclistas x motoristas: dois perfis

Os 405 mil motociclistas ganham mais por hora que os colegas fora de app e trabalham mais horas; os 905 mil motoristas de carro ganham menos por hora que os não plataformizados e têm cobertura um pouco maior, de 25,5%. Nos dois casos, a proteção previdenciária fica muito abaixo da média do setor privado — sinal de que a modalidade, não o veículo, é o fator.

R$ 2.221 "retirados": a conta do combustível

O IBGE mede o que sobra depois do combustível — não a receita bruta que os aplicativos informam —; manutenção, seguro, aluguel da moto e celular não entram no cálculo, o que sugere que o ganho real é menor. Para 45 horas semanais, a retirada equivale a cerca de R$ 11 por hora, pouco acima do que rende um salário mínimo com jornada de 44 horas.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a pesquisa expõe uma escolha que o país adia. "O modelo de plataforma cresceu porque é barato para quem contrata: não há salário, férias, INSS patronal. O trabalhador aceita porque não tem alternativa e porque a plataforma paga na hora. O resultado, medido pelo IBGE, é uma geração de motociclistas sem aposentadoria, num trabalho em que o acidente é rotina. Dois caminhos: obrigar a plataforma a recolher contribuição — como o projeto de 2024 previa para motoristas — ou aceitar que o SUS e a assistência social pagarão a conta lá na frente. A regulamentação está parada na Câmara há dois anos e meio. A pesquisa deveria reabri-la", observa.

PLP 12/2024: a regulamentação parada

Em março de 2024, o governo enviou ao Congresso projeto de lei complementar para regulamentar motoristas de aplicativo — remuneração mínima por hora, contribuição previdenciária de 7,5% do trabalhador sobre 25% do rendimento bruto e 20% da plataforma, sem vínculo empregatício —, resultado de negociação com empresas e sindicatos; motociclistas e entregadores ficaram de fora, por falta de acordo, com promessa de projeto próprio. O texto não avançou na Câmara, e a proteção dos 405 mil segue sem regra.

Acidentes de moto: o risco medido

Motociclistas são a maior parte das vítimas de trânsito atendidas pelo SUS e das indenizações por acidente; entregadores de aplicativo, sob pressão de tempo e em jornadas longas, concentram parcela crescente dessas ocorrências em capitais. Sem INSS, o acidente vira despesa pública de saúde e renda zero para a família.

Contribuinte individual e MEI: as opções que existem

O motociclista pode se formalizar como MEI — na categoria de entregador ou mototaxista, com contribuição mensal em torno de 5% do salário mínimo mais impostos fixos —, o que garante aposentadoria por idade, auxílio-doença e salário-maternidade; ou contribuir como individual. A baixa adesão reflete desconhecimento, renda apertada e a percepção de que a atividade é temporária — embora o IBGE mostre que ela cresce e se consolida.

O crescimento: 211 mil para 405 mil

Dobrar em três anos, com alta de 15,4% só no último, mostra que a entrega por app se tornou a porta de entrada no mercado de trabalho para jovens sem qualificação formal e a fonte complementar de renda para quem perdeu emprego; a expansão de plataformas chinesas de delivery e a disputa com iFood e 99Food ampliaram a demanda por motociclistas em 2025 e 2026.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o IBGE fez a pergunta que faltava. "Todo mundo sabia que entregador de app não tem carteira; poucos sabiam quantos são e quantos têm INSS. Agora sabemos: 405 mil e 19%. É um dado para as plataformas, que dizem que o trabalhador é 'parceiro'; para o Congresso, que engavetou a regulamentação; e para a Previdência, que vai receber daqui a trinta anos uma geração sem contribuição. O número mais duro é o da jornada: 45 horas por semana — mais que a CLT — por R$ 2.221. O mototaxista e o entregador viraram a base logística das cidades brasileiras sem nenhuma rede de proteção. A pesquisa não resolve; obriga a olhar", analisa.

Os dados sobre motociclistas e motoristas de aplicativo integram o módulo de trabalho por plataformas digitais da Pnad Contínua, com informações coletadas em 2025 e divulgadas pelo IBGE em 4 de setembro de 2026, segundo a Agência Brasil.

Fontes e referências

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