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Economia

Vale-refeição entra em nova disputa após mudança nas regras do setor

Caju, Flash e Swile, que já usavam bandeiras abertas, saem fortalecidas; 'os bancos sempre brigaram pela folha salarial', diz Doug Storf, da Swap.

Capa do artigo Vale-refeição entra em nova disputa após mudança nas regras do setor
— Foto: Karen Apricot / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Vale-refeição entra em nova disputa após mudança nas regras do setor: entrada de BTG Pactual e C6 Bank simboliza o fim da concentração em Alelo, Pluxee, VR e Ticket — o Decreto 12.712, de 2025, proíbe operadoras com mais de 500 mil clientes de manter arranjos fechados, obriga o cartão-benefício a rodar em rede aberta e interoperável, fixa teto para taxas e encurta para 15 dias o repasse aos restaurantes, abrindo um mercado de R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões por ano

A entrada de BTG Pactual e C6 Bank no setor de benefícios corporativos simboliza a mudança no perfil de uma indústria historicamente concentrada em Alelo, Pluxee — a antiga Sodexo —, VR Benefícios e Ticket. Reformas nas regras do Programa de Alimentação do Trabalhador, o PAT, reduziram as barreiras de entrada e abriram os olhos de novas instituições financeiras para um mercado que movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano — até R$ 200 bilhões, em outras estimativas. As informações são do InfoMoney.

As novas normas proíbem as operadoras de grande porte — com mais de 500 mil clientes — de atuar nos chamados arranjos de pagamento fechados, modelo que permitia às bandeiras fechar contratos individualmente com cada restaurante ou supermercado para habilitar o cartão no estabelecimento; era a época em que, para almoçar no bar da esquina, o trabalhador precisava primeiro descobrir se o vale passava na maquininha do local. Com a entrada em vigor do Decreto 12.712, de 2025, o cartão-benefício deve rodar em infraestrutura aberta, unificada e interoperável — todos os terminais conectados a uma rede que processa diferentes bandeiras —, e a regulação também estabelece teto para as taxas cobradas e encurta para 15 dias o prazo de repasse aos restaurantes. As mudanças beneficiaram as empresas de benefícios flexíveis, como Caju, Flash e Swile, que já operavam com bandeiras abertas — Visa ou Mastercard — e deixam de competir com concorrentes que podiam oferecer descontos e vantagens para convencer grandes companhias. As credenciadoras mais antigas também costumavam firmar parcerias acionárias com os maiores bancos para potencializar a exclusividade de distribuição: a Alelo pertence à Elopar, holding controlada por Bradesco e Banco do Brasil, e o Itaú Unibanco tem participação minoritária na Ticket. Sob o novo modelo, instituições mais novas miram um produto que fornece receita consistente e potencial de fidelização — o nome do jogo é a principalidade, o grau em que as empresas concentram relacionamento em determinado banco; ao expandir a prateleira, os benefícios viram porta de entrada para avançar, por exemplo, para o crédito. "Os bancos sempre tiveram uma briga muito grande pela folha salarial das empresas", explica Doug Storf, CEO e fundador da Swap, fintech de "banking as a service" que permite a empresas criar produtos financeiros sob marca própria.

Cinquenta anos de PAT: de política social a oligopólio bilionário

Criado em 1976, o Programa de Alimentação do Trabalhador dá incentivo fiscal — dedução no Imposto de Renda — a empresas que oferecem alimentação a empregados, e ao longo de meio século transformou o vale-refeição e o vale-alimentação em direito de fato para mais de 20 milhões de trabalhadores formais e em negócio para quatro operadoras que, protegidas por arranjos fechados, cobravam dos restaurantes taxas de 5% a 8% por transação — o dobro do cartão de crédito comum —, demoravam 30 dias ou mais para repassar o dinheiro e vendiam às empresas contratantes descontos ("rebates") que a lei passou a proibir por distorcerem a finalidade do benefício. A reforma começou em 2022, com a lei que vetou rebates e previu portabilidade e interoperabilidade; a regulamentação atrasou anos sob pressão das incumbentes e dos bancos sócios, e só o decreto de 2025 fixou o modelo aberto, o teto de taxas e os 15 dias — mudanças que o setor de bares e restaurantes, o mais penalizado pelo antigo sistema, comemorou como as maiores desde a criação do programa. O que o InfoMoney descreve é a consequência: com a rede aberta, o vale vira um cartão pré-pago com bandeira, qualquer instituição pode emitir, e o valor passa a estar na relação com a empresa — folha, conta, crédito — e não na exclusividade da maquininha; BTG, C6 e as fintechs de benefícios flexíveis, que já ofereciam Visa e Mastercard, competem em pé de igualdade com Alelo, Ticket, Pluxee e VR, e o restaurante de Araras que antes precisava de quatro credenciamentos passa a aceitar todos com uma máquina. Para o trabalhador, a promessa é escolha e aceitação universal; para os bancos, a briga pela "principalidade" da empresa.

Para , editor do portal, a abertura do vale-refeição é uma das reformas microeconômicas mais relevantes dos últimos anos. "Durante cinquenta anos, quatro empresas — sócias dos maiores bancos — controlaram R$ 150 bilhões por ano de dinheiro de comida, cobrando do restaurante taxa de 8% e segurando o repasse por um mês. O restaurante de Araras conhece: era a maquininha que 'não passa esse cartão'. O decreto de 2025 acabou com isso — rede aberta, teto de taxa, 15 dias —, e a consequência é que BTG e C6 entram, Caju e Flash crescem, e as quatro velhas perdem o monopólio. É concorrência que chega à mesa do trabalhador e ao caixa do bar. O portal registra a reportagem e pede ao leitor que confira: se o vale ainda não passa em algum lugar, alguém está descumprindo a lei", avalia.

Arranjo fechado x arranjo aberto: o que mudou

No modelo fechado, a operadora credenciava um a um os estabelecimentos e só ali o cartão funcionava; no aberto, o cartão usa bandeira — Visa, Mastercard, Elo — e é aceito em qualquer maquininha habilitada para a categoria alimentação; o decreto obriga as grandes a migrar e cria interoperabilidade entre redes.

Teto de taxas e 15 dias: o alívio do restaurante

As taxas de desconto, que chegavam a 8%, passam a ter limite regulatório, e o repasse ao estabelecimento, que levava 30 dias ou mais, cai para 15 — mudanças que a Abrasel estima em bilhões de reais de capital de giro devolvidos ao setor de alimentação fora do lar.

Alelo, Ticket, Pluxee, VR: as incumbentes e seus sócios

Alelo é da Elopar, de Bradesco e Banco do Brasil; Ticket, do grupo francês Edenred, tem o Itaú como sócio minoritário; Pluxee é a antiga Sodexo, também francesa; VR é nacional. As quatro dominavam mais de 90% do mercado e usavam a distribuição bancária como vantagem — que a rede aberta dilui.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a "principalidade" explica por que os bancos correm. "O vale-refeição não é o negócio; é a isca. Quem emite o benefício conhece a folha da empresa, a conta do funcionário e o fluxo do restaurante — e vende crédito, seguro, investimento para os três. BTG e C6 entram por isso, não pelo spread do vale. Caju e Flash já faziam com cartão flexível. As quatro velhas tinham essa posição por exclusividade; agora precisam competir em produto. O portal registra a frase de Storf — a briga pela folha salarial — como a chave: o vale é a nova conta-salário, e quem ganhar a empresa ganha o funcionário", observa.

Caju, Flash, Swile: os benefícios flexíveis

Fintechs que unificam refeição, alimentação, mobilidade, cultura e saúde num cartão com bandeira aberta, elas cresceram entre empresas de tecnologia e serviços e eram prejudicadas pelos rebates das incumbentes; com a proibição dos descontos e a rede aberta, competem em igualdade — e lideram em experiência do usuário.

BTG e C6: os bancos que chegam

O BTG, maior banco de investimento da América Latina, e o C6, banco digital, lançaram benefícios corporativos integrados a suas plataformas para empresas, apostando em vender o vale junto com conta, folha e crédito; é a estratégia da principalidade aplicada ao mercado de R$ 150 bilhões.

Portabilidade e escolha do trabalhador

A lei de 2022 prevê que o trabalhador possa escolher a operadora do seu benefício — a portabilidade —, regra ainda em implementação; com a rede aberta, a escolha passa a ter sentido, e a competição pode chegar ao usuário final por meio de cashback, aplicativo e aceitação.

O que muda em Araras e no interior

Restaurantes, padarias e mercados de cidades médias, que muitas vezes tinham só uma ou duas bandeiras credenciadas, passam a aceitar todos os cartões com a maquininha comum; o trabalhador deixa de perguntar "passa aqui?"; e a taxa menor pode se refletir em preço — ou em margem — do comércio local.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a reportagem mostra regulação funcionando. "Demorou três anos entre a lei e o decreto, com lobby pesado das incumbentes e dos bancos sócios, mas saiu: rede aberta, teto, prazo. E o mercado respondeu em meses — novos entrantes, fintechs crescendo, restaurante respirando. É o oposto da história de sempre, em que a regra protege quem já está dentro. O portal registra e cobra o próximo passo: portabilidade real para o trabalhador escolher. Quando o vale de Araras for escolhido por quem almoça, e não pelo RH, a reforma estará completa", analisa.

A análise sobre a nova disputa no mercado de vale-refeição após o Decreto 12.712, de 2025, que impôs arranjos abertos e interoperáveis, teto de taxas e repasse em 15 dias, foi publicada pelo InfoMoney em 5 de setembro de 2026; o setor movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano e recebeu a entrada de BTG Pactual e C6 Bank.

Fontes e referências

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