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Desastres

Depois de falar em "domínio das Américas", Marco Rubio anuncia viagem à Colômbia

Vídeo do Departamento de Estado de agosto diz que o domínio americano "nunca mais será questionado" e cita a captura de Maduro como "forte sinal".

Capa do artigo Depois de falar em "domínio das Américas", Marco Rubio anuncia viagem à Colômbia
— Foto: Embassy of the United States of America to Italy / Wikimedia Commons (Public domain)

Depois de falar em "domínio das Américas", Marco Rubio anuncia viagem à Colômbia, ao Peru e ao Equador entre 8 e 10 de setembro para "fortalecer alianças importantes" com os governos alinhados a Trump de Abelardo de la Espriella, Keiko Fujimori e Daniel Noboa — combate ao "narcoterrorismo", comércio e resposta ao terremoto colombiano na pauta; o Brasil, maior país da região, fica fora do roteiro

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, fará na semana que vem uma viagem pela América Latina como parte do projeto do governo Donald Trump de ampliar seu "domínio das Américas". Em nota, o Departamento de Estado afirmou que Rubio buscará "fortalecer alianças importantes dos Estados Unidos na região", entre 8 e 10 de setembro, com reuniões com o presidente equatoriano, Daniel Noboa, e com membros dos novos governos da Colômbia, liderado por Abelardo de la Espriella, e do Peru, da nova presidente Keiko Fujimori. O Brasil não está incluído no roteiro. As informações são do G1.

"A viagem ocorrerá para discutir o apoio dos EUA à resposta da Colômbia ao terremoto, o reforço da cooperação no combate conjunto ao narcoterrorismo — que ameaça o nosso hemisfério — e os benefícios de relações comerciais mais estreitas entre os nossos países", afirmou o porta-voz do departamento, Tommy Piggott. Em vídeo divulgado no início de agosto, o Departamento de Estado afirma que o domínio do país em toda a América "nunca mais será questionado", cita a operação que capturou o ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, como o exemplo mais recente da aplicação da doutrina americana no continente, e diz que o episódio enviou um "forte sinal a todo o hemisfério".

"Domínio das Américas": a doutrina Monroe em versão 2026

A frase do Departamento de Estado atualiza, com linguagem explícita, a Doutrina Monroe de 1823 — a América para os americanos — que os Estados Unidos invocaram por dois séculos para justificar intervenções no hemisfério e que o governo Trump reabilitou sem eufemismo: em oito meses de 2026, forças americanas capturaram Maduro em Caracas, afundaram dezenas de embarcações no Caribe e no Pacífico com mais de 200 mortos, assumiram o controle de 65 bilhões de barris de petróleo venezuelano e consolidaram um eixo de governos alinhados — Milei na Argentina, Kast no Chile, Noboa no Equador, De la Espriella na Colômbia, Fujimori no Peru, Bukele em El Salvador. A viagem de Rubio, filho de cubanos e o primeiro secretário de Estado hispânico da história, é a etapa diplomática desse projeto: visitar os três países andinos que acabaram de eleger ou consolidar governos de direita, oferecer cooperação militar contra o "narcoterrorismo" — categoria que Washington criou ao designar cartéis e facções como terroristas — e comércio, e deixar de fora, deliberadamente, o Brasil de Lula, o México de Sheinbaum e os demais que não aderiram. A ausência brasileira do roteiro, a cinco semanas da eleição em que Lula enfrenta Flávio Bolsonaro, é mensagem tão clara quanto o vídeo de agosto.

Para , editor do portal, a viagem é a coroação de um ano de força. "Rubio vai à Colômbia do presidente que posa com cadáveres, ao Peru de Keiko Fujimori e ao Equador de Noboa, que aplaude o afundamento de barcos de pescadores — os três alinhados, os três em guerra com facções, os três dependentes de Washington. A pauta é narcoterrorismo, comércio e terremoto; a mensagem é 'domínio das Américas', dita em vídeo oficial, com a captura de Maduro como exemplo. O Brasil não está no roteiro porque Lula não está no clube, e Trump elogiou nesta semana os países que 'vão para a direita'. O eleitor brasileiro deveria saber que a viagem de Rubio é também um convite: entre no eixo em outubro e o secretário vem em novembro. É a diplomacia mais direta que os Estados Unidos fizeram na região desde a Guerra Fria", avalia.

Colômbia: De la Espriella, o terremoto e os cadáveres

O novo presidente, empossado em agosto, é o aliado mais recente e mais entusiasmado — nesta semana, posou ao lado de sacos mortuários de supostos rebeldes em vídeo que especialistas chamaram de "espetáculo punitivo" —; a Colômbia sofreu um terremoto recente, e o apoio americano à resposta é o primeiro item da agenda de Rubio, ao lado da cooperação militar contra dissidências das Farc, ELN e Clã do Golfo.

Peru: Keiko Fujimori, a "nova presidente"

Filha de Alberto Fujimori, condenado por crimes contra a humanidade, Keiko chegou à presidência em 2026 na quarta tentativa e alinha o Peru a Washington após anos de instabilidade; o Departamento de Estado a cita como parte dos "novos governos" a fortalecer. Lima é escala estratégica pela mineração, pelo porto de Chancay — construído pela China — e pela cocaína do Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro.

Equador: Noboa e a cooperação marítima

Daniel Noboa, reeleito e em "conflito armado interno" contra facções, é o aliado que mais cede: defendeu o afundamento de três barcos equatorianos pelos Estados Unidos nesta semana, propõe reabrir bases americanas e trata a cooperação como única saída. O encontro com Rubio deve formalizar acordos de segurança marítima e portuária.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o roteiro revela a geografia do poder americano em 2026. "Três países andinos, três governos novos ou renovados, três economias de cocaína e mineração, três costas no Pacífico por onde passa a droga e o comércio com a China — Rubio vai onde os Estados Unidos podem oferecer proteção e cobrar alinhamento. Não vai ao Brasil, ao México, à Bolívia; vai aonde já ganhou. É consolidação, não conquista. E o vídeo de agosto diz o resto: 'domínio', não 'parceria'. O Brasil, com a embaixadora sem visto e o embaixador americano sem aval, assiste de fora. Se Lula ganhar, o isolamento é o preço; se Flávio ganhar, a adesão é a condição. Nenhum dos dois é política externa soberana", observa.

Marco Rubio: o cubano-americano que redesenha o hemisfério

Senador pela Flórida por 14 anos, filho de imigrantes cubanos e crítico histórico dos regimes de Cuba, Venezuela e Nicarágua, Marco Rubio tornou-se em 2025 o primeiro secretário de Estado hispânico da história dos Estados Unidos — e o executor da política latino-americana de Trump, com a vantagem de conhecer a região e de falar espanhol com os interlocutores. Foi ele quem articulou a designação de cartéis como terroristas, a pressão sobre o Panamá, o cerco a Maduro que culminou na captura de janeiro e o alinhamento dos novos governos de direita; a viagem de setembro é a primeira desde que o Departamento de Estado adotou publicamente a expressão "domínio das Américas". Para os países visitados, Rubio é o aliado que abre portas em Washington; para os que ficam fora, é o secretário que fecha.

Narcoterrorismo: a categoria que justifica tudo

Ao designar cartéis mexicanos, o Tren de Aragua, Los Choneros e outras facções como organizações terroristas, Washington passou a tratar o narcotráfico como guerra — com ataques militares, sem processo — e a exigir dos aliados cooperação nos mesmos termos; a viagem de Rubio vende esse pacote aos três países, que enfrentam facções mais fortes que suas polícias.

Comércio: a contrapartida

"Relações comerciais mais estreitas" significam, na prática, acesso preferencial ao mercado americano em troca de alinhamento — e barreiras a quem não alinha, como as tarifas de 50% ao Brasil; Colômbia, Peru e Equador têm acordos comerciais com os Estados Unidos e dependem do mercado americano para café, frutas, minério e camarão.

Maduro, 3 de janeiro: o "forte sinal"

A captura do ex-ditador venezuelano por forças americanas em Caracas, no início do ano, é o evento que o Departamento de Estado apresenta como prova da doutrina — e que redefiniu a Venezuela sob Delcy Rodríguez e o acordo do petróleo. Para os governos da região, é lembrete de até onde Washington vai; para os aliados, garantia.

Brasil fora: o significado

Maior economia e maior país da região, o Brasil de Lula não recebe Rubio, tem embaixadora com visto revogado e tarifa parcial vigente; Trump diz manter "boa relação" com o país, sem citar o presidente. A exclusão é recado eleitoral: a porta abre para quem "vai para a direita", como o próprio Trump elogiou nesta semana.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a viagem deveria ser notícia de primeira página no Brasil. "O secretário de Estado dos Estados Unidos vai visitar três vizinhos nossos, falar em domínio do hemisfério, vender guerra contra facções e comércio — e não vai passar por Brasília. Em ano de eleição, é interferência por omissão: Washington diz ao eleitor que o Brasil só entra na agenda se mudar. O portal não torce por candidato; torce por país que não precisa de convite de Rubio para existir na América do Sul. A viagem de 8 a 10 de setembro é o mapa do que os Estados Unidos querem da região. O Brasil decide, em outubro, se quer estar nele — e a que preço", analisa.

A viagem do secretário de Estado Marco Rubio à Colômbia, ao Peru e ao Equador, entre 8 e 10 de setembro de 2026, foi anunciada pelo Departamento de Estado e noticiada pelo G1 em 4 de setembro de 2026; o vídeo em que o departamento fala em "domínio das Américas" foi divulgado no início de agosto.

Fontes e referências

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