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Desastres

Enchente glacial no Himalaia deixa 1.318 mortos e 5.624 desaparecidos entre Nepal e Tibete

Colapso de geleira perto do Langtang Lirung gerou onda de lama de 20 km; equipes acharam a entrada soterrada do túnel com mapas antigos e imagens de satélite.

Capa do artigo Enchente glacial no Himalaia deixa 1.318 mortos e 5.624 desaparecidos entre Nepal e Tibete
— Foto: Vyacheslav Argenberg / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Enchente glacial no Himalaia deixa 1.318 mortos e 5.624 desaparecidos entre Nepal e Tibete; nove dias depois, equipes retiram dois trabalhadores vivos de túnel de hidrelétrica soterrado

As enchentes que devastaram a fronteira entre o Nepal e a região chinesa do Tibete na última semana de agosto deixaram pelo menos 1.318 mortos e 5.624 desaparecidos, segundo a soma dos balanços divulgados nesta sexta-feira (4) pelas autoridades de gestão de desastres dos dois países. No Nepal, são 1.287 mortos e 5.083 pessoas sem paradeiro; no Tibete, a imprensa estatal chinesa contabiliza 31 mortos e 531 desaparecidos. No mesmo dia, uma operação do Exército nepalês retirou com vida dois trabalhadores presos há nove dias no túnel da usina hidrelétrica Trishuli-3A, soterrado pela avalanche. As informações são do g1, com base em relatos da Associated Press e da BBC.

O desastre começou na quarta-feira, 26 de agosto, quando parte de uma geleira próxima ao pico Langtang Lirung, no Nepal, desabou. A queda arrastou volumes enormes de gelo e rocha, provocando uma avalanche que atingiu o rio Lhende Khola e bloqueou seu curso. O represamento formou uma onda de lama, pedras, gelo e água que rompeu a barreira e avançou por mais de 20 quilômetros, destruindo vilarejos, estradas, pontes e instalações de energia nos dois lados da fronteira.

Gyirong: a passagem comercial arrasada

Um dos pontos mais atingidos foi o posto de fronteira de Gyirong, no Tibete, principal ligação comercial terrestre entre a China e o Nepal. Câmeras de segurança registraram a força da enxurrada arrastando construções e pessoas. A destruição do posto interrompe o corredor por onde passa boa parte do comércio bilateral e do fluxo de peregrinos e turistas entre os dois países — e complica a chegada de ajuda, já que a estrada que liga Katmandu à fronteira ficou intransitável em vários trechos.

Para , editor do portal, a escala do desastre está no número de desaparecidos. "Mil e trezentos mortos confirmados é a tragédia que já se conhece; cinco mil e seiscentos desaparecidos é a tragédia que ainda vai ser contada. Em enchente glacial, desaparecido raramente significa vivo em algum lugar: significa soterrado sob metros de lama e rocha, em vales que só serão escavados quando a estrada voltar. O balanço final do Himalaia em 2026 provavelmente ficará entre os maiores desastres naturais da Ásia neste século", avalia.

O que é uma enchente glacial

O fenômeno tem nome técnico: GLOF, sigla em inglês para "glacial lake outburst flood", ou inundação por rompimento de lago glacial. Com o aquecimento do Himalaia — que avança mais rápido que a média global —, as geleiras derretem e formam lagos represados por morenas, os depósitos instáveis de rocha e gelo que a própria geleira deixou. Um deslizamento, uma avalanche ou o simples aumento do volume podem romper a barreira e liberar milhões de metros cúbicos de água em minutos. No caso de agosto, o mecanismo foi uma variante: a avalanche bloqueou o rio, criou um represamento temporário e o rompimento veio em seguida, com material sólido somado à água.

O Nepal tem mais de duas mil geleiras e centenas de lagos glaciais monitorados como potencialmente perigosos. Estudos científicos apontam a região do Hindu Kush-Himalaia como uma das mais expostas do planeta a esse tipo de evento, com risco crescente à medida que o degelo acelera. O desastre de 2026 não é o primeiro — mas é, de longe, o mais letal registrado.

Trishuli-3A: o túnel soterrado

A usina hidrelétrica Trishuli-3A é uma das várias instalações de energia atingidas pela enxurrada. Trabalhadores estavam dentro do túnel de acesso à casa de máquinas subterrânea quando a onda chegou, e a entrada — que ficava no alto do morro — foi completamente soterrada. O Nepal depende quase inteiramente de hidrelétricas para gerar eletricidade, e o vale do Trishuli concentra várias delas; a destruição de usinas, além das vidas, compromete o abastecimento de energia do país por meses.

O australiano Arnold Dix, presidente da Associação Internacional de Túneis e Espaços Subterrâneos, foi chamado para orientar as autoridades nepalesas na operação. "Nunca soube de uma operação de resgate em que você precisava procurar a entrada de um túnel que, antes, ficava em cima do morro e, agora, estava soterrado", disse à BBC. "Você pode imaginar a enormidade da avalanche, que soterrou completamente a entrada."

Como acharam a entrada

Com o terreno irreconhecível, a equipe recorreu a métodos de engenharia e a tudo o que havia disponível: velhos mapas topográficos, imagens de satélite da área após o desastre, filmagens feitas de helicóptero e referências físicas remanescentes na superfície da montanha, como postes de eletricidade. Com esses dados, triangularam a posição provável da entrada e começaram a cavar. Acertaram. O passo seguinte era localizar os sobreviventes — "sabíamos que eles estariam mais acima, mas não onde, exatamente", contou Dix. "Por isso, precisávamos começar a cavar na direção certa e prestar atenção para tentar ouvir alguém."

Explosivos, trincheiras e um túnel dentro do túnel

O túnel estava totalmente bloqueado por lama e rochas, algumas maiores que automóveis. Para abrir caminho, os socorristas usaram explosivos — algo que, segundo Dix, "normalmente, nunca faríamos, devido ao risco de explodirmos as pessoas presas no túnel e a nós mesmos". Ele elogiou o Exército nepalês pelo gerenciamento preciso das detonações, calculadas para não desestabilizar a estrutura. Paralelamente, descobriram que o interior ainda estava cheio de água: com escavadeiras e bombas, abriram uma série de trincheiras do túnel até o rio, do lado de fora, e drenaram o volume.

Por fim, escavaram uma passagem — "um minúsculo túnel do tamanho de uma pessoa" — através dos escombros, junto ao teto original. "A vantagem deste local é que você pode usar o teto original como o teto do seu próprio túnel. E também reduz o risco de alagamento", explicou Dix. Nas primeiras horas da manhã de sexta-feira, hora local, os socorristas ouviram o que pareciam vozes. Responderam: "não se preocupem, estamos aqui para resgatar vocês". Ouviram de volta um fraco "OK". Pouco depois, retiraram Sanjaya Shah e Kabir Maharjan, ambos vivos.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o resgate é uma aula de engenharia sob pressão. "Encontrar uma entrada soterrada com mapa antigo e poste de luz como referência, drenar um túnel abrindo trincheira até o rio, usar explosivo controlado a metros de gente viva e depois cavar um túnel de homem dentro do túnel original — cada etapa é um problema de engenharia que normalmente levaria semanas de projeto. Fizeram em nove dias, com o Exército nepalês executando. É o tipo de operação que vira estudo de caso", observa.

Os que ainda estão lá dentro

Imagens divulgadas pelo Exército mostraram um dos trabalhadores coberto de lama sendo carregado nos ombros de um socorrista; os dois receberam atendimento no local e foram levados de helicóptero a um hospital em Katmandu. "Não consigo explicar o que estamos sentindo neste momento. Estamos apenas gratos a Deus", disse Amir Maharjan, irmão de um dos resgatados, à Associated Press. Um dos sobreviventes afirmou ter permanecido no túnel para ajudar colegas: "não seria correto fugir".

Acredita-se que dezenas de pessoas ainda estejam presas. Dix calcula que a equipe já escavou cerca de 60 metros a partir da entrada e precisará avançar mais 150 para alcançar a casa de máquinas no interior da montanha — onde, na parte mais alta, estaria a "zona Cachinhos Dourados", como ele a chama, "mais favorável à vida". Os riscos seguem: a usina pode ter sido atingida por rochas e lama ou inundada; pode haver água acumulada mais acima; e uma nova enchente externa poderia entrar pelo túnel por trás dos socorristas. O ministro da Energia do Nepal, Biraj Bhakta Shrestha, disse à BBC esperar mais resgates nas próximas horas.

Precedente: Chamoli, 2021

O caso lembra o desastre de Chamoli, no estado indiano de Uttarakhand, em fevereiro de 2021, quando o desprendimento de uma massa de gelo e rocha no Himalaia indiano provocou uma enxurrada que destruiu duas hidrelétricas e matou cerca de 200 pessoas — muitas delas trabalhadores presos no túnel da usina de Tapovan, onde as equipes escavaram por dias com poucos sobreviventes. A repetição do padrão — usina hidrelétrica em vale glacial, túnel, trabalhadores soterrados — reacendeu o debate sobre a construção de barragens em zonas de alto risco de GLOF, um dilema para países que, como o Nepal, dependem da hidreletricidade para crescer.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a pergunta que fica é a do planejamento. "O Nepal precisa das hidrelétricas; os vales onde elas cabem são os mesmos vales por onde a geleira desce. Não há como tirar as usinas dali — mas há como monitorar os lagos glaciais, instalar alerta precoce e projetar túneis com saídas de emergência. Chamoli mostrou isso em 2021; o Trishuli mostra de novo em 2026. A engenharia que salvou dois homens hoje é a mesma que deveria estar prevenindo o próximo soterramento", analisa.

As operações de busca no túnel da Trishuli-3A e nos vales atingidos pela enchente continuam. Os balanços oficiais de mortos e desaparecidos são atualizados diariamente pelas autoridades do Nepal e da China.

Fontes e referências

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