Pular para o conteúdo
Economia

ANP cria bloco exploratório em Tabuleiro do Norte, no Ceará

Subsolo é da União, mas dono da terra recebe 1% da produção: em 2025, 2.606 propriedades receberam R$ 173,3 milhões, média de R$ 5.500 por mês.

Capa do artigo ANP cria bloco exploratório em Tabuleiro do Norte, no Ceará
— Foto: Godmadeus / Wikimedia Commons (CC0)

ANP cria bloco exploratório em Tabuleiro do Norte, no Ceará, onde agricultor achou petróleo ao cavar poço em busca de água: área POT-T-551 é uma das 24 criadas na bacia Potiguar e ainda depende de aval de ministérios, consulta pública e leilão

A família do agricultor Sidrônio Moreira, de Tabuleiro do Norte, no Ceará, começou a sexta-feira (4) com um programa diferente: assistir à transmissão online da reunião de diretoria da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), no Rio de Janeiro. Na pauta, a criação de um bloco exploratório na região — justamente onde Sidrônio encontrou petróleo ao perfurar um poço em busca de água, em 2024. A pauta foi aprovada: o bloco POT-T-551, em Tabuleiro do Norte, é um dos 24 criados pela agência na bacia Potiguar, que abrange o Rio Grande do Norte e o Ceará. "Ficamos muito alegres", disse à Folha Saulo Santiago Moreira, filho do agricultor. "Acho que vai demorar um pouco para começar a exploração, mas eu acredito na extração." As informações são da Folha de S.Paulo.

O caminho até a exploração é longo. Segundo a ANP, as áreas precisam ser analisadas pelos ministérios de Minas e Energia e do Meio Ambiente, responsáveis pela autorização ambiental de blocos exploratórios; depois, passam por audiência pública com as comunidades afetadas; só então entram na lista de oferta de blocos e, havendo interesse de petroleiras, vão a leilão. A agência não confirmou a localização exata, mas disse que um dos blocos fica em Tabuleiro do Norte, "onde recentemente foi relatada a ocorrência de fluido já confirmado como petróleo" — e a Folha apurou que a área engloba o terreno de Sidrônio.

Como o petróleo apareceu

Sidrônio perfurava um poço em sua propriedade em busca de água quando saiu um líquido preto. Assustou-se e desistiu daquele ponto; tentou outro lugar no terreno, sem resultado. A família voltou ao primeiro poço, que seguia com o líquido, e decidiu investigar com apoio de um professor do Instituto Federal do Ceará, que viu características semelhantes ao petróleo extraído no Rio Grande do Norte e comunicou a ANP. Em maio de 2026, a agência confirmou: era petróleo. A história correu o país como curiosidade — o agricultor que procurava água e achou óleo — e agora vira processo administrativo.

Para , editor do portal, o caso é uma aula de como funciona o petróleo no Brasil. "O Sidrônio achou petróleo no quintal e não pode fazer nada com ele — o subsolo é da União, e quem explora é quem vence leilão da ANP. Parece injusto, mas é o que evita que o Brasil vire o Texas do século XIX, com cada fazendeiro furando poço. O que a família ganha é 1% da produção, se houver — e R$ 5.500 por mês, que é a média nacional, muda a vida de um agricultor de Tabuleiro do Norte. O bloco foi criado; o leilão pode levar anos. O 'acredito na extração' do filho é fé com fundamento: a bacia Potiguar produz petróleo em terra há décadas", avalia.

A lei: subsolo da União, 1% ao dono da terra

Pela Constituição, os recursos minerais do subsolo pertencem à União, que concede direitos de exploração a empresas habilitadas por processos competitivos — os leilões da ANP. O proprietário do terreno não tem direito ao petróleo, mas tem direito a compensação: 1% do valor da produção, paga pela concessionária, além de indenização por uso da superfície. Em 2025, 2.606 propriedades no Brasil receberam essa compensação, num total de R$ 173,3 milhões — média de cerca de R$ 5.500 por mês para cada uma. A maior parte está nas bacias terrestres do Nordeste e do Espírito Santo, onde poços em terra atravessam fazendas e sítios.

Bacia Potiguar: petróleo em terra desde os anos 1970

A bacia Potiguar, que se estende do Rio Grande do Norte ao Ceará, é uma das mais antigas produtoras de petróleo em terra do Brasil: a Petrobras descobriu óleo na região nos anos 1970, e Mossoró tornou-se o maior polo terrestre do país, com milhares de poços de pequena produção — os "cavalos de pau" que pontuam a paisagem. Nos últimos anos, a Petrobras vendeu campos maduros da bacia a empresas independentes, que revitalizaram a produção. A criação de 24 novos blocos pela ANP indica que a agência vê potencial em áreas ainda não exploradas — e Tabuleiro do Norte, no lado cearense, é uma delas.

O que falta até o leilão

As etapas são sequenciais: manifestação conjunta dos ministérios de Minas e Energia e do Meio Ambiente sobre a viabilidade ambiental dos blocos; audiência pública com as comunidades; inclusão na Oferta Permanente de Concessão, o mecanismo pelo qual a ANP disponibiliza blocos continuamente; manifestação de interesse de empresas; e leilão, em que vence quem oferece maior bônus e programa exploratório. Só depois vêm a perfuração de poços exploratórios, a avaliação da descoberta e, se comercial, a produção. Em blocos terrestres pequenos, o ciclo pode levar de três a cinco anos — e o interesse depende do preço do petróleo e da geologia.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o caso mostra a agilidade rara de um órgão público. "O agricultor achou óleo em 2024, a ANP confirmou em maio de 2026, e em setembro criou o bloco. Dois anos para transformar um poço de quintal em área licitável é rápido para o padrão brasileiro. O que vem depois é o gargalo de sempre — ministérios, audiência, leilão. Se a ANP mantiver o ritmo e o preço do petróleo continuar alto, Tabuleiro do Norte pode ter poço produzindo antes de 2030. E o Sidrônio recebendo o 1% dele. É o Brasil funcionando, de vez em quando", observa.

Petróleo em terra: pequeno, mas relevante

A produção terrestre é fração da nacional — o pré-sal domina —, mas tem papel regional: emprega, gera royalties para municípios pequenos e sustenta empresas independentes que a Petrobras deixou de operar. No Rio Grande do Norte e no Ceará, dezenas de municípios recebem royalties de poços em terra, e a economia local de cidades como Mossoró e Alto do Rodrigues gira em torno deles. Um bloco produtivo em Tabuleiro do Norte traria à cidade cearense receita de royalties e atividade — em escala modesta, mas significativa para um município de 30 mil habitantes.

Oferta Permanente: como a ANP vende blocos

A Oferta Permanente de Concessão substituiu, desde 2019, as rodadas anuais de licitação: os blocos ficam disponíveis continuamente, e o leilão é convocado quando uma empresa manifesta interesse e apresenta garantia. O modelo favorece áreas pequenas e terrestres, que dificilmente atrairiam atenção numa rodada dominada pelo pré-sal, e permitiu que dezenas de empresas independentes — muitas criadas por ex-funcionários da Petrobras — adquirissem blocos no Nordeste. É por esse caminho que o POT-T-551 chegará ao mercado, e é entre essas empresas menores, não entre as gigantes, que está o comprador provável.

Audiência pública: a voz da comunidade

A consulta às comunidades afetadas é etapa obrigatória e, em blocos terrestres, decisiva: a exploração atravessa propriedades, usa água, gera tráfego e ruído. A audiência é o momento em que moradores, agricultores e a prefeitura apresentam condições — acesso, compensação, proteção de nascentes. Para a família Moreira, que descobriu o óleo procurando água, a garantia de que a exploração não comprometa o aquífero é a questão central — e é o tipo de condicionante que a audiência pode impor.

O IFCE e a ciência local

O papel do professor do Instituto Federal do Ceará — que identificou as características do fluido e comunicou a ANP — ilustra a função das instituições de ensino técnico no interior: são o primeiro laboratório a que a população recorre. Sem a análise do IFCE, o líquido preto do poço de Sidrônio poderia ter ficado como curiosidade local. A rede de institutos federais, presente em centenas de municípios, é a ponte entre o cidadão comum e órgãos como a ANP.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a história tem moral econômica. "O Brasil discute petróleo em bilhões — Margem Equatorial, pré-sal, Venezuela. Tabuleiro do Norte é petróleo em milhares: um bloco pequeno, um agricultor com 1%, um município com royalties. É a parte da indústria que ninguém vê e que sustenta o interior do Nordeste há 50 anos. Se o bloco der certo, o Sidrônio vai receber R$ 5 mil por mês por ter cavado um poço no lugar certo. Não é fortuna; é a diferença entre a aposentadoria rural e uma vida razoável. E foi o Estado — ANP, IFCE, lei do subsolo — que garantiu que ele receba algo, em vez de ser expulso do terreno por quem chegasse primeiro", analisa.

O bloco POT-T-551, em Tabuleiro do Norte, aguarda análise dos ministérios de Minas e Energia e do Meio Ambiente e audiência pública antes de ser incluído na Oferta Permanente de Concessão da ANP. Não há prazo definido para o leilão.

Fontes e referências

Leia também