Equipe econômica de Flávio Bolsonaro prepara desregulamentação
No Grupo Voto, Sachsida atribuiu os juros a prejuízos nas estatais e ao gasto público; sobre a foz do Amazonas, disse que 'o Brasil já paga a conta' ambiental.
Equipe econômica de Flávio Bolsonaro prepara desregulamentação, desburocratização e digitalização de setores da economia para "destravar o crescimento no curto prazo", diz Adolfo Sachsida a empresários em São Paulo: ex-ministro de Minas e Energia promete "estabilizar o lado fiscal em um ano e meio" com um teto de gastos atrelado à relação dívida bruta/PIB, não detalha cortes — "com a graça de Deus e um plano muito sólido" — e defende que o Brasil explore a margem equatorial como a Guiana já faz
O ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida disse que a equipe do senador Flávio Bolsonaro, do PL, prepara medidas de desregulamentação e desburocratização de setores econômicos para aumentar a produtividade no Brasil. Sachsida, que integra a equipe econômica que assessora a campanha, participou nesta quinta-feira (3 de setembro) de um almoço promovido pelo Grupo Voto, empresa de diplomacia empresarial e interlocução política, em São Paulo. As informações são da Folha.
O ex-ministro de Jair Bolsonaro afirmou que desregulamentação, desburocratização e digitalização da economia são necessárias para destravar o crescimento no curto prazo e aumentar a produtividade, e que, caso Flávio vença, o governo vai "estabilizar o lado fiscal da economia brasileira" em um ano e meio: "Infelizmente, os prejuízos nas estatais foram tão grandes, o gasto do governo foi tão grande, a conta dessa irresponsabilidade que gerou juros tão altos assim é muito grande. Acaba que você vai ter aí um ano e meio para corrigir isso. Isso é o que é urgente", disse à plateia de empresários. A estratégia seria um teto de gastos com base na relação entre dívida bruta e PIB: "Com esse teto, nós vamos trabalhar junto ao Congresso Nacional para aprovação das medidas necessárias para colocar o Brasil numa trajetória de crescimento sustentável". Sachsida preferiu não detalhar quais medidas seriam adotadas nem quais cortes orçamentários seriam feitos: "Temos que colocar a casa em ordem, mas, com a graça de Deus e um plano econômico muito sólido, em um ano e meio nós vamos colocar o lado fiscal em ordem e preparar o Brasil para uma grande trajetória de crescimento sustentável". Sobre a margem equatorial — onde a Petrobras encontrou indícios cuja confirmação ainda depende de testes, mas com alta probabilidade de petróleo, segundo integrantes da estatal —, defendeu a exploração: "A margem equatorial já é explorada hoje pela Guiana. Se der um problema ambiental, o Brasil já paga a conta. A única decisão que cabe ao Brasil é se nós vamos fazer parte dos benefícios ou se nós vamos ficar com os custos. A Guiana já explora, me parece razoável que o Brasil explore".
O programa econômico de Flávio: o que se sabe a um mês da eleição
Empatado com Lula nas pesquisas para o segundo turno de 4 de outubro, Flávio Bolsonaro montou uma equipe econômica de nomes do governo do pai — Sachsida, que foi secretário de Política Econômica de Paulo Guedes e ministro de Minas e Energia em 2022, é o mais visível — e evita, como o pai em 2018, apresentar programa detalhado: a mensagem ao mercado é de ajuste fiscal rápido, "um ano e meio", com um teto de gastos vinculado à dívida bruta em relação ao PIB, hoje em torno de 78% e em trajetória de alta, que substituiria o arcabouço de Haddad; desregulamentação de setores — energia, telecomunicações, saneamento, licenciamento ambiental, mercado de trabalho —; privatizações, com a Petrobras e o Banco do Brasil citados por aliados; e exploração da margem equatorial, bandeira que une a campanha ao agronegócio e à indústria do petróleo e que o próprio governo Lula, dividido entre Ibama e Petrobras, acabou autorizando. O que não se diz é o que Sachsida se recusou a detalhar: onde cortar para estabilizar o fiscal em 18 meses — Previdência, que cresce acima da inflação e é blindada pela Constituição; saúde e educação, com pisos vinculados; ou os discricionários, já no osso —, e como conciliar isso com as promessas do candidato de manter Bolsa Família, reduzir impostos e anistiar o pai. O discurso da "irresponsabilidade" que gerou juros altos dialoga com o mercado e com a tese fiscal de Samuel Pessôa, mas ignora, como aponta o debate acadêmico recente, a meta de 3% e o câmbio; e o "com a graça de Deus" é o registro de uma campanha que fala à base evangélica tanto quanto à Faria Lima. Empresários do Grupo Voto saíram do almoço com promessa e sem plano — o que, a um mês do voto, é escolha.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a fala de Sachsida repete o roteiro de 2018 com um alerta a mais. "Em 2018, Bolsonaro tinha Guedes e a promessa de privatizar tudo e zerar o déficit em um ano; entregou uma reforma da Previdência, pouca privatização e o maior gasto da história na pandemia e na eleição. Em 2026, Flávio tem Sachsida e a promessa de estabilizar o fiscal em um ano e meio — sem dizer onde corta. Não é programa; é fé, como o próprio ex-ministro disse. O teto atrelado à dívida bruta é ideia razoável que o Congresso vai desidratar, como fez com todos os tetos. E a margem equatorial é a única proposta concreta — a mesma que Lula já autorizou. O portal registra que o mercado ouviu, gostou e não perguntou o essencial: cortar o quê?", avalia.
Desregulamentação e digitalização: a agenda de produtividade
Simplificar licenças, reduzir exigências setoriais, digitalizar processos públicos e abrir mercados regulados — agenda que a equipe defende como capaz de acelerar o PIB sem custo fiscal; é a mesma linha da "liberdade econômica" de 2019, cujos efeitos foram modestos. Setores citados por aliados: energia, telecom, saneamento e licenciamento.
Teto de gastos por dívida/PIB: a nova regra
Em vez do limite de crescimento real da despesa do arcabouço, um teto que se ajusta à trajetória da dívida bruta — quanto maior a dívida, menor o gasto permitido —; é regra usada em alguns países e defendida por economistas liberais, mas exige cortes concretos quando a dívida sobe, que a equipe não nomeou.
"Um ano e meio": a promessa de prazo
Estabilizar o fiscal — zerar o déficit primário e conter a dívida — até meados de 2028 implicaria ajuste de 2% a 3% do PIB, segundo estimativas de mercado, algo entre R$ 250 bilhões e R$ 350 bilhões; sem tocar Previdência, saúde e educação, é matematicamente inviável, e a equipe não disse que tocaria.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a margem equatorial é o ponto em que Flávio e Lula convergem. "Sachsida diz que a Guiana já explora e o Brasil paga a conta ambiental de qualquer jeito, então melhor ficar com o benefício — é exatamente o argumento da Petrobras e do próprio Lula, que atropelou o Ibama para autorizar a perfuração. Na foz do Amazonas, não há diferença entre os dois candidatos; há diferença com Marina Silva, que perdeu. O portal registra a convergência e o que ela significa: independentemente de quem vencer, a margem equatorial será explorada, e a discussão ambiental está encerrada na prática. Resta saber se o petróleo existe — a Petrobras diz que a probabilidade é alta — e quem vai gerir a receita", observa.
Estatais e juros: o diagnóstico
Sachsida atribui a Selic a 14% a prejuízos em estatais e ao gasto público — leitura fiscal ortodoxa que responsabiliza o governo Lula pela política de preços da Petrobras, pelos Correios e pelo arcabouço; economistas apontam que estatais federais tiveram lucro recorde em 2025 e que a Selic responde também à meta e ao câmbio.
Margem equatorial: o petróleo da foz do Amazonas
A Petrobras perfura desde 2025 o bloco na bacia da Foz do Amazonas, após licença do Ibama sob pressão do governo, e encontrou indícios de petróleo cuja confirmação depende de testes; a Guiana, vizinha, produz mais de 600 mil barris por dia na mesma província geológica desde 2019. A exploração é consenso entre os dois candidatos líderes.
O que a equipe não detalhou
Cortes específicos, reforma administrativa, privatizações nominais, tratamento da Previdência e dos pisos constitucionais, tributação — o núcleo de qualquer ajuste; a recusa em detalhar é estratégia de campanha para evitar desgaste, mas deixa o mercado e o eleitor sem saber o que "casa em ordem" significa.
Grupo Voto e o circuito empresarial da campanha
Almoços e eventos com empresários em São Paulo são o palco em que as campanhas apresentam equipes econômicas; Flávio, com Sachsida, e Lula, com Haddad e Moretti, disputam a confiança do setor produtivo, que em 2022 dividiu-se e em 2026 pende para o candidato do PL — sem, contudo, entusiasmo por um plano que não existe no papel.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o discurso de Sachsida é honesto no que omite. "Ele disse que não vai detalhar os cortes, e não detalhou. Disse que conta com a graça de Deus, e contou. É uma campanha que sabe que o eleitor não quer ouvir 'vou cortar Previdência' e que o mercado aceita promessa vaga desde que venha com a palavra 'teto'. O portal registra a fala e aponta o risco: quem promete estabilizar o fiscal em um ano e meio sem dizer como, entrega, em um ano e meio, ou um choque que ninguém votou ou uma promessa quebrada. O Brasil já viu os dois. Que o eleitor de Araras pergunte, antes de outubro: cortar o quê, de quem?", analisa.
As declarações de Adolfo Sachsida sobre o programa econômico da campanha de Flávio Bolsonaro — desregulamentação, teto de gastos atrelado à dívida bruta e estabilização fiscal em um ano e meio — foram dadas em almoço do Grupo Voto em São Paulo em 3 de setembro de 2026 e noticiadas pela Folha; o ex-ministro também defendeu a exploração da margem equatorial.